domingo, 19 de março de 2017

O Império de Gulag em versão abreviada


Andaríamos pelos 16 anos de idade quando o lemos. Na altura, editado pela Bertrand, era constituído por dois volumes (se a memória nos não falha) – cerca de 2000 mil páginas, salvo erro. Da nossa geração ninguém o conhecia e os que dele ouviram falar foi de uma forma obscura, porque o PCP se havia encarregado de manipular o vulgo insinuando que era obra da CIA. Aos vinte relê-mo-lo. E a partir daí perdemos-lhe o rasto. Nunca mais o vimos. A dada altura desapareceu das nossas estantes. Bem o procuramos, mas nada. Ao longo da vida precisámos de o consultar, mas nunca mais o encontrámos. E nunca mais houve uma reedição. Foi o livro que marcou o nosso caminho ideológico e a nossa forma de pensar politicamente.
Foi escrito clandestinamente entre 1958 e 1967. A KGB tratou de o amarrotar em 1973, na sequência da prisão de Elizabeth Voronskaïa, colaboradora de Aleksandr Soljenítsin. A sua primeira edição em russo é editada em Paris ainda em 1973 e em 1974 a edição francesa.
Soljenítsin fora entretanto preso, acusado de traição, despojado da nacionalidade soviética e já estivera preso oito anos nos campos de trabalhos forçados na Sibéria..
Este livro extraordinário é composto por 227 testemunhos, sobreviventes dos Gulag. Agora publicado pela Sextante (Março de 2017) é uma versão abreviada com 589 páginas, num só volume. Foi preparada por Aleksandr e por sua esposa, Natália, para o tornar mais acessível aos leitores estrangeiros.
O Arquipélago Gulag é um volume extraordinário que devia ser recomendado nas escolas secundárias. Porque é um livro de combate ao totalitarismo (fundamentalmente estalinista). E como diz o autor: «Devemos condenar publicamente a ideia de que homens possam exercer tal violência sobre outros homens. Calando o mal, fechando-o dentro do nosso corpo para que não saia para o exterior, afinal semeamo-lo.». 
Armando Palavras

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