domingo, 19 de março de 2017

Dia do pai, dia de São José

Guido Reni
A Google comemorou o dia do pai. Este dia é o de São José.
José, esposo da Virgem e pai alimentício de Jesus, é fugazmente mencionado em três dos Evangelhos canónicos. Marcos ignora-o. Os evangelhos apócrifos, especialmente o Proto-Evangelho de Tiago e a História de José, o Carpinteiro, escritos coptas do século IV, colmataram esta lacuna com detalhes pitorescos, retirados de episódios do Antigo Testamento. Mais tarde transcritos e acrescentados na Lenda Dourada .
Nestas narrativas descobre-se a estirpe davídica de Jesus que em nada se relaciona com a humilde vida de carpinteiro de São José, fabricante de jugos, arados e ratoeiras. Apesar de outra tradição menos difundida o assimilar a um ferreiro.
Teria mais de oitenta anos quando se casou com a Virgem, com catorze . A natureza do seu matrimónio foi longamente debatida pelos teólogos medievais. Se teria sido marido, se apenas protector da Virgem. Debate levado ao extremo pelos Doutores da Igreja . A tradição, fundamentada nas narrativas apócrifas, atribuía-lhe numerosos filhos da sua primeira esposa. Pelo contrário, Tomás de Aquino era de opinião que o santo se havia mantido sempre casto.
Depois de acompanhar o Menino na fuga para o Egipto, para o trazer, de novo, para Nazaré após a morte de Herodes, desaparece de cena. Ignora-se a festa da sua morte. Contudo, uma antiga lenda converteu-o num patriarca centenário. Supõe-se que terá morrido antes da Paixão de Cristo, na medida em que não está presente nas Bodas de Caná e está ausente na Crucificação, no Descimento da Cruz e no Sepultamento, concluído por José de Arimateia.
Sobre São José não existem relíquias pessoais. A figura de São José nem sempre foi bem amada. Na Idade Média, ao mesmo tempo que se exaltava a Virgem, escarnecia-se de São José. Nos autos sacramentais do teatro religioso, foi muito pouco respeitado. Chegou mesmo a ser enxovalhado como um velho tonto .
Com o tempo converteu-se num dos santos favoritos da devoção popular. Terá sido Jean Gerson, o conselheiro da Universidade de Paris o seu maior promotor. Assim como a ordem das carmelitas (servitas) e os pregadores populares. A sua festa foi introduzida entre 1471 – 1484, na liturgia da Igreja Romana pelo papa franciscano Sisto IV.
No século XVI, o dominicano Isolano, popularizou em Pavia o relato apócrifo da Morte de José ao redigir um Sumário dos dons de São José, a quem atribuiu os sete dons do Espírito Santo. A sua popularidade expandiu-se após o concilio de Trento. As corporações que o reivindicaram são as que estão associadas aos carpinteiros. Converteu-se no patrono da boa-morte porque, como conta a tradição, Jesus havia-o assistido durante a sua agonia e ter-lhe-ia enviado Gabriel e Miguel para recolher a sua alma espreitada pelo demónio. Por isso era invocado pelos moribundos. Em 1621, o papa Gregório XV instituiu a sua festa a 19 de Março.
Na Idade Média, o casto esposo da Virgem, era representado como um ancião de cabeça calva e barba branca. A partir do século XVI foi rejuvenescido, aparentando a figura de um homem de quarenta anos. Após a Contra reforma foi representado, ora como carpinteiro, ora como pai alimentício de Jesus. No primeiro caso tem como atributos os utensílios do seu ofício: uma serra, um esquadro, um machado e uma plaina. No segundo caso é reconhecido pela vara florida que alude à sua vitória sobre os pretendentes da Virgem, transformada em caule de lírio, símbolo do seu matrimónio virginal.  Juntamente com a Virgem da Imaculada Conceição, é o tema preferido de Murillo.      Armando Palavras

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