sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ou da Barca!... Ou Ti Bnadito!...



JORGE LAGE
Era no tempo da apanha, em que o rio gelado pela fúria das invernias e das neves derretidas na serra da Sanábria impunha respeito, indo pelas bordas e levando o meio cheio.
As Maiores incertezas assaltaram o Ranhiço, quando passoua o S. Sebastião. Depois, foi andar de mata cavalos até ao «Alto da Maravilha», que hoje é cruzado pela A4. Passada a Maravilha (maravilhoso mar de Oliveiras medievas), o protesto do Ranhiço andar a altas horas da noite era dada pelo afouto latir dos cães da «Azenha do Riça». Duzentos metros á frente lançou o primeiro grito a «barar» a gélida noite: - Ooouuuu!... E avançava com o coração apertado, apenas escoltado, à direita, pelo enorme muro de xisto da Quinta do Pinto Azevedo. Aqui o grito foi mais forte e o muro agigantou-se e viu-se encurralado entre um muro ligado à fraga e pela frente o marulhar baixinho da correnteza que parecia conversar com a amarradoura e o ancoradouro, indiferente ao intruso. Tomado de pavor ou morre ali regelado ou continua a gritar: - Oooouuu, barqueiro!... Ooouuu da Barca!... Ooouuu!...
Depois, passados longos e longos minutos ouvia-se a contra-senha: - Já bou!... Era o sinal de esperança e de certeza de uma noite dormida debaixo de telha.
Mais uns minutos lobrigou um vulto do lado de lá do rio que desentupia os bofes com umas tossidelas e os passos a estremunhavam a terra batida. Por fim rangiam os cadeados a ser atirados contra as travessas do casco da barca. A barca mexia-se, o ferrão do bareiro chapeava a cada bareirada para a frente e um gemido esforçado do Bnadito, e mais outro e estava no ancoradouro de lá: - Deus nos dê boa noute! – Boa noute nos dêa Deus!, E fizeram a viagem de regresso.
Tenho saudades da Casinha era residência do barqueiro a travessia estava sempre garantida. O Ti Bnadito ou o Ti João Pedro, sem resmungarem, davam a barca a qualquer hora do dia ou da noute, algum retardatário da «Bila», a não ser que o Tuela se enfurecesse e fosse de monte a monte, em que eram precisos dois ou 4 barqueiros, de bareiros bem retesados.
A Casinha era um pequeno e exíguo casebre onde dormia o barqueiro. Sucedeu aos dois últimos barqueiros, com barco próprio, o Acácio da M.ª Rosa e depois, da (companheira) Estrela.
Ainda tenho algumas saudades da Taberna do Policarpo e da filha Gracinda, nunca os vi de mau humor, sempre agradáveis, para a gente da minha aldeia.
Tenho saudades de ver os carros de bois carregados entrarem na barca passando por cima de duas grandes pranchas movediças e depois ser alavancada rumo à outra margem. Dos rebanhos de gado a atravessar na Barca grande, bem enterrada na água, carregada de canhonas e cordeiros que iam para a feira (dos 3, 14 ou 25).
Chelas era um pequeno porto de fluvial, que antes da construção da Ponte da Formigosa e das camionetas de mercadorias entrarem em Mirandela. Por ali se escoava grande parte dos carretos que vinham da corda de Cabanelas até Vinhais.
Chelas tinha uma estação de carretagem e escoamento dos produtos agrícolas.
Hoje o que me dói mais é a memória de legado carregado de história local ser ignorado. A toponímia da ponte foi infeliz, como deixa muito a desejar a que assinala a maioria das ruas e largos. A toponímia é uma janela luminosa da história local.
Jorge Lage – jorgelage@portugalmail.com– 24NOV2016

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