domingo, 27 de novembro de 2016

Um sucesso com precedentes


ALBERTO GONÇALVES -
Diário de Noticias
Enquanto saía à rua a celebrar o abençoado governo que Deus (e o dr. Costa) nos deu, o pagamento antecipado de dois mil milhões ao FMI e um crescimento de 0,8%, o povo não reparou que o reembolso estipulado no início do ano era de quase sete mil milhões e que a vertiginosa subida do PIB, pouco inferior aos 2 e tal ou 3 e tal previstos pelo dr. Centeno, se deveu: a) ao turismo; b) à retoma de trabalhos na refinaria de Sines, parada no trimestre anterior; c) à venda de uns aviões F-16 à Roménia.
Sobre o turismo, convém rezar para que os apetites em "regulamentá-lo", ou afogá-lo em taxas e proibiçõezinhas, não o estrafeguem de todo. Sobre a petrolífera, julgo que não há hipóteses de reabrir uma refinaria por trimestre a benefício das exportações. Sobra o exemplo dos F-16, que pode substituir com vantagens a falhada aposta no consumo interno enquanto novo paradigma económico: vender pechisbeques usados a países ainda mais pelintras do que o nosso.
Não estou a par das relíquias disponíveis, mas é plausível que haja por aí motorizadas dos anos 1980 para transaccionar com o Níger, frigoríficos e torradeiras em segunda mão para enviar à Albânia, máquinas de fax para impingir à Bolívia e, claro, os computadores Magalhães do eng. Sócrates (Deus o tenha) para quem os quiser. Em matéria de sucata, temos para dar e, de preferência, vender.
O importante não é só manter o crescimento "em alta" (desculpem o jargão): é manter a ilusão de que assim o país é viável. É manter os avençados, perdão, os politólogos a decretar o sucesso da frente de esquerda. É manter os media entusiasmados com o tipo de "boas notícias" que serviam de paródia no tempo de Pedro Passos Coelho. É manter a convicção de que a "teimosia" de Pedro Passos Coelho é o único obstáculo a que o PSD adira à União Nacional dos Afectos. É manter a fezada de que a "Europa" durará sempre. É manter a ilusão de que sem esmolas alheias iremos a algum sítio que não o abismo. É manter o povo a cantar e a rir no caminho. É acreditar como nunca na fraude de sempre.

Quinta-feira, 24 de Novembro
Da ingratidão

Isto assim é difícil. Hicham el Hafani, marroquino de 26 anos, entrou em Portugal em Outubro de 2013 alegando ser perseguido politicamente em Marrocos. Em vez de investigar as alegações, como fariam certas nações metediças, as autoridades daqui concederam-lhe num ápice o estatuto de refugiado. O gesto demonstra uma generosidade invulgar: sei por experiência própria que, mesmo antes da posse de Trump, os EUA não entregam o green card a quem se considera fiscalmente perseguido por cá.
Mas a generosidade lusitana foi mais longe. Um mês depois de chegar o sr. Hafani já beneficiava de um subsídio estatal de 190 euros para gastos miúdos, alojamento gratuito (em Aveiro, cidade aprazível), alimentação idem e, por motivos que me escapam e talvez escapassem ao sujeito, "acompanhamento social". Em Julho de 2014, o sr. Hafani passou ao nível de "autonomizado", desceu para um quarto alugado na Gafanha da Nazaré e - sem arranjar qualquer emprego - subiu para uma subvenção de 250 euros mensais. Em data não especificada, requisitou naturalmente o rendimento mínimo, pedido que, numa absurda excepção ao altruísmo desta história, alguém rejeitou. Finalmente, há dias, suponho que em Marselha, a polícia francesa deteve o sr. Hafani, afinal um profissional da jihad, por suspeita de envolvimento na preparação de um atentado naquelas paragens.
Apesar de a propaganda oficial insinuar o contrário, a capacidade de atracção de Portugal no exterior é uma rematada desgraça. Podemos convidar refugiados muçulmanos com empenho idêntico ao da "historiadora" de extrema-esquerda que se fotografou com um cartaz a dizer "Welcome refugees!" (embora esteja por apurar quantos recebeu em casa). Podemos dar-lhes conforto material. Podemos até providenciar-lhes conforto espiritual através de mesquitas pagas pelo contribuinte. Contas feitas, acabam sempre a exercer as competências noutros lugares e a deixar-nos entre o espanto e o enxovalho.
Entretanto, em Lisboa, espalhou-se uma ameaça de bomba para afagar a nossa "auto-estima". Evidentemente, a coisa era falsa: por muito que nos esforcemos, nem os terroristas querem nada connosco. Excepto subsídios, claro.

Sábado, 26 de Novembro
Peso morto

O prof. Marcelo, especialista em selfies e obituários, chamou a Fidel Castro uma personalidade "marcante", "cujo peso na história não se pode negar". De facto, a criatura marcou sobretudo as suas incontáveis vítimas, executadas, torturadas ou, nos dias em que acordava bem-disposto, apenas presas por delito de opinião. E não serei eu a negar o tal "peso" de Fidel na história, a par de figuras estimáveis como Estaline, Hitler, Mao, Pol Pot, os ditadores argentinos e, numa escala modesta mas comparável na barba, o estrangulador Landru. Por sorte, dele e nossa por osmose, o prof. Marcelo ainda foi a tempo de conhecer o Carniceiro, perdão, o Comandante de Havana. Temos, em suma, um presidente esclarecido. Já os americanos terão o sr. Trump, que considerou Fidel um "ditador brutal". Tamanha ignorância assusta.

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