segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dá Deus as nozes a quem não tem dentes

 
BARROSO da FONTE
A realidade de uma comunidade como a nossa, merece as maiores preocupações das gentes locais. Quem ali nasce, vive e morre desconhece quanto se passa para além do seu horizonte visual.  O seu mundo começa e termina onde os seus olhos deixam de ver. Vêm apenas aquilo que a vista alcança. E, aquilo que alcançam, limita-se aos sítios de onde se colocam para alongar a sua própria visão. Se alguma vez subiram ao Larouco esse mundo cresceu até aos píncaros da Sanábria, quase sempre com neve. Se não houver nevoeiro, talvez alcancem o Vale do Lima, com a sua opulência telúrica, por onde corre, rumo ao Atlântico, o majestoso rio Minho. Voltando-se para sul vislumbram os «Cornos das Alturas de Barroso, a Padrela, os montes de Curral de Vacas  e o Brunheiro que abriga Chaves, a nascente. A Poente fixam o descarnado Gerês e a Mourela que abrem alas aos Rios Cávado e Rabagão. Este foi o cenário de minha infância e de tantos como eu. E foi o mundo de muitos, homens e mulheres que passaram vidas inteiras a repetir as mesmas coisas, a ver as mesmas pessoas, a ouvir as mesmas desgraças. Para alguns desses somente mudaram as palavras, as caras e alguns cenários desde que vieram as escolas, os automóveis e as alfaias agrícolas.
 Há menos de um século chegaram as escolas, vieram os professores e fez-se luz. Para alguns mudaram os cenários. Alguns partiram para sempre. Outros foram e voltaram. E esses que voltaram trouxeram provas de uma vida diferente: os automóveis, as roupagens e alguns vinténs. Foram esses que convenceram aqueles que nunca saíram, de que, afinal, existiam outros mundos, outras serras e até o mar imenso.
 Em menos de um século a vida mudou os horizontes e as mentalidades. Mas o que é bom acaba depressa. As escolas primárias ficaram desertas, os cantoneiros não mais se viram, os campos que produziam de tudo aquilo que se alimenta, depressa se encheram de tojos, silvas e  ervas daninhas.
Os cemitérios que estavam cheios de campas, encheram-se de lugares vazios, porque muitos nunca mais voltaram.
Hoje a vida é vivida de outra forma. As escolas, envelhecidas e decrépitas, servem de disputas políticas para alguns, dos locais de lazer para outros e de romagem de saudade para poucos que regressam, por instantes, para mostrar aos filhos e aos netos os lugares da sua infância.
 O republicanismo substituiu a monarquia. Foram anos dolorosos, inseguros, paupérrimos.
 Portugal tremeu e abalou as estruturas de uma nação, que se fez aos mares e foi mais sólida lá fora do que cá dentro. Foi um império e é hoje um palmo de terra disputada pelos que a habitam, mas gerida pelos gananciosos que têm ideias vazias de sentido. São teóricos quando a prática é quem mais ordena. O planeta está em convulsão apressada. A Humanidade deu lugar à brutalidade. A razão  foi subvertida pelo posso, quero e mando.
      Quase me perdi nesta viagem de retorno ao passado. E não sou eu que devo depor armas. Somos todos nós que devemos parar para refletir. Se a nascente e a poentes há exemplos claros de que a Humanidade corre o risco de se desintegrar, rumo ao caos, resta à sociedade portuguesa interrogar-se sobre se estamos a caminhar para o lado certo ou errado. E, em função desta realidade, haja alguém que estabeleça um período de tréguas, até que irrompa o grito do Ipiranga.

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 No penúltimo fim de semana participei em duas sessões culturais a pretexto do Castanheiro e da Castanha. Quer na Casa Regional do Porto, quer na sua congénere de Braga, esteve gente de todos os graus etários e de condições sociais. Muitas vezes dizem-se coisas mais importantes em convívios gastronómicos do que em cimeiras internacionais, cujos objetivos têm mais a ver com o mediatismo do que com o bem-estar das pessoas.
Em ambos os casos se exaltou o papel do poder local que, nestes 40 anos, fez mais pelas terras e pelas pessoas do que o pode central ao longo de séculos.
O castanheiro e o seu produto serviram de tema de debate, a propósito de um livro que nesse dia foi apresentado, da autoria do autor Transmontano Jorge Lage. Concluiu-se que faltam técnicos especializados que desenvolvam as potencialidades telúricas do continente e ilhas. O solo é rico, mas está virgem. Abandonou-se a agricultura e, obviamente, os campos e tudo aquilo que eles produziam. As universidades produzem teoria em áreas lucrativas e snobes. Mas despreza-se a investigação e o incentivo em áreas fulcrais, como são os solos, as plantas e os frutos que acompanham o homem desde que ele se conhece.
 As duas Casas Regionais de Trás-os-Montes, quer de Braga, quer do Porto, funcionam e podem servir para promover debates com base na prática. Menciono estas duas mas há mais: a de Lisboa, a de Coimbra, a de Guimarães e a de Tomar. No III Congresso Transmontano, em Bragança ficou decidido realizar o  quarto congresso, de cinco em cinco anos. Nunca mais se falou nisso. Para esse tipo de iniciativas não há dinheiros públicos. Mas há milhões malbaratados em administrações fraudulentas, ruinosas e sem fim à vista. Verdadeiramente dá Deus as nozes a quem não tem dentes. Ditado tão velho quão verdadeiro e atualizado em Portugal.
                                                                                           

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