quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Crescimento económico


Henrique Neto – Diário de Noticias

Reconfiguração da banca em Portugal. Foi a política que conduziu Portugal para mais de uma década de crise, fruto de um enorme desperdício dos recursos naturais, como foi a política que permitiu destroçar o nosso sistema financeiro.
Em economia há matérias que por serem demasiado evidentes deveriam gerar um consenso nacional. Enumero algumas dessas matérias elegendo o crescimento da economia como o mais óbvio desafio da actual conjuntura económica portuguesa, sem o que dificilmente resolveremos os outros desafios, como o investimento, a dívida, a sustentabilidade da Segurança Social ou a eliminação da pobreza. Resta pois saber o que poderemos fazer para melhorar substancialmente o crescimento da economia portuguesa.
Em primeiro lugar é essencial consensualizar uma estratégia nacional clara e um modelo económico consistente, de forma a evitar que caminhemos em círculos como tem acontecido. Relativamente à estratégia, adoptaria a síntese contida na carta magna da competitividade de 2003 da AIP, "Estratégia euro-atlântica", cujos objectivos passam por reduzir a nossa dependência da União Europeia e compatibilizar essa condição com a nossa tradição e experiência de nação atlântica e global. Quanto ao modelo económico, as principais características do que proponho são a prioridade absoluta a um modelo exportador de bens e de serviços, a preferência pelo que sabemos fazer bem e acrescentar maior valor ao que produzimos e exportamos. Por último, devotar particular atenção e competência na atracção do investimento, nomeadamente estrangeiro, de empresas integradoras dos componentes e dos sistema da produção nacional, empresas que, paralelamente ao investimento, nos tragam mercados. Ou seja, aumentar a exportação de produtos dirigidos aos consumidores, com maior integração nacional e mais valorizados. Um exemplo: se exportarmos um molde para produzir um para-choques de automóvel recebemos 500 000 euros por isso, se exportarmos os para-choques receberemos 3000 000 de euros por ano e durante dez anos, aumentando as exportações seis vezes em cada ano.
Neste tema das exportações Portugal é uma verdadeira anomalia, porque exporta apenas 40% do PIB, o que está em linha com as exportações das grandes economias europeias com grandes mercados internos, como é o caso da Alemanha, da França e da Itália. Os outros países europeus da nossa dimensão exportam entre os 52% da Dinamarca e os mais de 100% da Irlanda. Isto é, uma empresa portuguesa que apenas venda no mercado interno e pretenda comprar um equipamento altamente produtivo, que é caro mas produz mais barato, não o pode fazer, ou fazendo-o para um mercado de apenas dez milhões de clientes potenciais irá rapidamente à falência. Esta anomalia, essencialmente portuguesa, resulta de que em valor exportamos aproximadamente metade da Dinamarca e da República Checa, 1/4 da Irlanda e 1/5 da Bélgica. Defender, nestas condições, o crescimento do consumo nacional para sair da crise é absurdo e só pode dar asneira.
De que fica escrito o menos óbvio é o que fazer para atrair o investimento de empresas integradoras, empresas semelhantes à Autoeuropa. Para o nosso bem, acontece que Portugal é o país europeu com melhores condições para o conseguir e por razões logísticas, porque nas economias modernas as empresas integradoras importam ferramentas, componentes e sistemas de todo o mundo e enviam depois os seus produtos para todos os continentes pela mesma via. Isto é, a logística tem uma grande importância e nenhum outro país europeu está, como Portugal, no centro das rotas marítimas do Atlântico e basta que alguns dos grandes navios de contentores que cruzam a nossa costa parem com frequência em Sines. Objectivo esse que está ao nosso alcance através da oferta de serviços de transhipment rápidos e a preços competitivos, sendo todavia claro que sem esta função de transhipment, a pequena dimensão da economia portuguesa não justificaria a paragem frequente desses navios. Ou seja, Sines está no centro do modelo económico que Portugal deve adoptar e daí a sua importância no contexto da estratégia euro-atlântica.
Este modelo aconselha ainda uma forte diversidade económica em todos os planos. Diversidade entre diferentes sectores da economia - agricultura, indústria, pescas, turismo e serviços - mas também entre as diferentes concepções do que se acredita venha a ser a economia do futuro. Por exemplo, é preciso compatibilizar as prioridades entre a nova economia digital com a integração de mais e melhor tecnologia nos chamados sectores tradicionais, evitando vanguardismos inúteis.
Finalmente, existe a questão política. Recordo que foi a política que conduziu Portugal para mais de uma década de crise, fruto de um enorme desperdício dos recursos nacionais, como foi a política que permitiu destroçar o nosso sistema financeiro. Sem esquecer a política das contradições, como seja desejar mais e melhor crescimento económico e mais investimento em estado de negação das normais condições de funcionamento das empresas privadas e dos mercados, além de alguma frequente animosidade em relação aos empresários.
O crescimento da economia portuguesa acima dos três a quatro por cento necessários para vencer a crise, pagar a dívida e promover a justiça social não é uma miragem e é possível, reconhecendo contudo que não há justiça social sem eficiência económica. Mas para que isso seja credível precisamos de ideias claras, de devoção ao interesse nacional acima de todos os outros interesses particulares e não desperdiçar nenhum dos recursos nacionais. Entre os quais avultam o factor trabalho e a localização de Portugal no centro do Ocidente e das rotas de mercadorias entre os continentes.
O crescimento da economia portuguesa através do aumento das exportações é não apenas desejável e possível, é também a normalidade de um país aberto ao mundo global e localizado no centro do Ocidente. O que não é normal é a estagnação económica em que vivemos há quase duas décadas.
Empresário

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