sexta-feira, 22 de julho de 2016

Polémica em torno de livro sobre Agostinho Neto de autoria do historiador luso angolano Carlos Pacheco

 
MPLA em Portugal lança falso alarme de bomba para travar lançamento de livro critico a Agostinho Neto
06 julho 2016     
Lisboa - O MPLA, através do seu Comitê junto ás comunidades em Portugal tentou nesta terça-feira (5), em Lisboa, sabotar o evento da apresentação do livro “Agostinho Neto - o perfil de um ditador: A historia do MPLA em carne viva”, da autoria do historiador luso-angolano Carlos Pacheco. A cerimonia de lançamento aconteceu no auditório da torre do Tombo, na Alameda da Universidade, em Lisboa.
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Fonte: Club-k.net
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Com inicio ás 18h de Lisboa, o evento foi consumido por factos políticos programados por um grupo de militantes do MPLA que no decorrer da apresentação do livro precisamente no momento em que Carlos Pacheco tecia alguns considerações, foi lançado um falso alarme insinuando que havia no auditório da torre do Tombo, uma mala perdida e que poderia ser bomba. Em consequência disto, os seguranças do edifício interromperam o autor do livro para avisar que a sala deveria ser evacuada para se analisar a suposta mala suspeita e sem dono, denunciada pelos membros do MPLA.
Depois de verificada que se tratou de um falso alarme, seguiu-se a sessão de perguntas e respostas que seria novamente sabotada pelo grupo de jovens Comitê do MPLA. Estes colocavam ai autor longas questões consumindo todo tempo do evento. Desvirtuavam se em alegações de que o livro destratava Agostinho Neto que no seu ver era o pai da nação e que merecia respeito.
Um outro militante com o intuito de consumir o tempo do evento, levou um poema de Neto que insistia que deveria ler naquele auditório em voz alta para mostrar o lado humanista de Agostinho Neto. Ao mesmo tempo, os militantes, que estavam a ser comandados por um militante identificado por Mario Goubel (familiar directo da militante Avo Kuiba), exaltavam em coro, e em plena sala palavras como “Viva o Presidente Agostinho Neto, pai da nação angolana”. Em resposta, os seus colegas respondiam “viva”, consumando assim os seus planos de não dar tempo do autor em prosseguir com a sua agenda do lançamento da obra que levou 10 anos de pesquisa.
Os referidos jovens estavam todos trajados de camisolas brancas como o rosto do Primeiro Presidente de Angola, e com dizeres “Agostinho Neto pai da nação”.
O lançamento do livro terminou entretanto sem que os convidados e interessados pudessem fazer perguntas e sem que o seu autor pudesse dar continuidade por conta dos actos de sabotagem e intolerância praticados pelos elementos do Comité do MPLA, em Portugal.
De recordar que o livro foi baseado numa pesquisa que durou 10 anos ao autor a fazer as suas consultas. Relata como Agostinho Neto ascendeu a liderança do MPLA, a sua implicação e de Iko Carreira no assassinato de um ex- colega de luta, Matias Migueis. O Autor revelou ainda o episódio em que o comandante Iko Carreira, com a ajuda da PIDE planeava desertar o movimento para poder dar continuidade aos seus estudos no Brasil. As revelações sobre Iko Carreira foram sustentadas com apresentação de correspondência entre o mesmo e os serviços secretos de Portugal que estavam a preparar a sua fuga das hostes do MPLA.

Uma “obra chocante” para desacreditar a figura de Neto “como um homem impoluto”

Carlos Pacheco apresentou a biografia do primeiro presidente no meio de protestos, ânimos exaltados e até uma falsa ameaça de bomba.

Por Amarílis Borges.                      
Lançamento de "Agostinho Neto - O perfil de um ditador. A História do MPLA em carne viva"[ Foto Raquel Pacheco ]
O historiador luso-angolano Carlos Pacheco apresentou ontem Agostinho Neto – O perfil de um ditador. A História do MPLA em carne viva no arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, num evento que contou com protestos, ânimos exaltados e até uma falsa ameaça de bomba.
Cerca de 100 pessoas estiveram presentes no lançamento, entre as quais Adolfo Maria, Alexandra Simeão, Zezé Gamboa e mais de 20 jovens que em protesto contra o título do livro vestiram t-shirts com a imagem do primeiro presidente angolano e a frase: “Agostinho Neto, pai da nação”.
Pacheco reúne documentos e depoimentos numa obra gigantesca que demorou dez anos a ser feita. É editada agora em dois volumes, 1471 páginas ao todo, num livro sobre o primeiro presidente do país e a sua actuação dentro do MPLA, antes e depois da independência, num esforço para traçar um retrato mais próximo da realidade e menos sujeita à ofuscação da imagem de mítico líder dada pela historiografia oficial.
“Entra-se nesse livro com uma sensação de vertigem”, explica Nuno Pacheco, jornalista e director adjunto do diário Público, convidado para apresentar o livro. Carlos Pacheco “traça o perfil do Agostinho Neto em paralelo com o movimento que chefiou e com a maneira como foi chefiando ao longo do tempo”.
“Entramos nesse livro pelos primórdios da luta de libertação, e pelos primórdios também do nascimento do MPLA, e vamos percebendo pelos vários caminhos, através dos documentos e dos factos, que as sementes de guerra em que Angola mergulhou durante 30 anos são muito antigas. As sementes dos ódios, das dissensões, lutas de fracções, lutas de grupos, prisões, perseguições, tudo isso vinha do passado. Não apenas no MPLA, existia também na UNITA e na FNLA, mas no MPLA existia em absoluta contradição com aquilo que eram os seus princípios programáticos. O que é mais estranho neste livro é ao mesmo tempo vermos a acção em contraponto com a lógica da propaganda, ou seja, a propaganda apontava para uma coisa e a acção mostrava outra”, continua o jornalista.
Entre os milhares de depoimentos, cartas e testemunhos, estão exemplos de situações que mostram que Agostinho Neto teria “pouco apreço ou ligação ao humanismo”, diz Nuno Pacheco, ao referir os defeitos do antigo líder citados no livro. Como a vez em que se recusou a dar almoço ao motorista que ainda não tinha comido nada naquele dia, porque ele deveria esperar o “tempo necessário. É obrigação dele. Comerá depois”.

Já passava meia hora desde o início do lançamento e o autor preparava-se para começar a sua apresentação do livro, quando seguranças da Torre do Tombo interromperam-no por causa de uma mala abandonada. Em tempos de actos terroristas na Europa qualquer saco sem dono pode conter uma bomba. O público já estava a sair da sala quando se percebeu que, afinal, se tratava de um “falso alarme”, a mala pertencia a um senhor que tinha se ausentado por instantes da sala.
Sala cheia no lançamento do livro “Agostinho Neto – O perfil de um ditador. A História do MPLA em carne viva” | Foto DR

Um “diálogo com os mortos”

O tempo passado a analisar documentos da PIDE e de líderes militares foram anos de “um longo diálogo com os mortos”, segundo Carlos Pacheco. “É um livro cheio de narrativas, algumas chocantes. A história da luta armada está do princípio até ao fim” marcada por “acontecimentos horríveis”. “Aquilo que mais represento, com alguma intensidade, e porque foi talvez o material mais apaixonante, diz respeito à perseguição das populações”.
Um dos capítulos, dedicado às comunidades camponesas, ilustra a violência a que estavam sujeitas. “Quando estiverem a ler o livro vão se perguntar: ‘mas será que isto é verdadeiro?’ Um movimento que se apresentava com o estandarte libertador e aqueles chefes guerrilheiros que não se cansavam de dizer às populações que estavam ali para consumar a libertação e emancipação dos povos contra o opressor colonial, perseguia, matava”, afirmou Pacheco.
“Dou muita ênfase a esse capítulo sobre a perseguição às populações. E não eram só as mortes, não era só a violência com armas, é um capítulo especial, escrevo sobre as violações das mulheres. As camponesas viviam numa situação de medo permanente. Tinham que fazer grandes piruetas para sobreviver, porque estando, por exemplo, a lavrar um campo, a semear a terra, tinham medo que aparecesse um guerrilheiro qualquer – fosse do MPLA, da UNITA, da FNLA”.
O livro não fica contudo pelos alegados crimes cometidos pelo MPLA, como sugere o subtítulo. “Nem sei quem é que matou mais, quem é que violou mais. Todos violaram. Por isso digo a determinado ponto que ninguém sai isento desta história. Nem as forças portuguesas. Todos foram actores muito violentos. E as mulheres foram as que mais padeceram. Há um herói que elejo no meu livro sem o menor rebuço, porque considero que foi de facto o herói que teve de sobreviver fugindo dos seus perseguidores, o povo camponês. Esse é o herói que ocupa o centro do meu livro. Eles foram massacrados”.
O autor destaca também as dissidências dentro do MPLA, como exemplo da insatisfação e das perseguições de militantes contra os seus próprios companheiros numa longa cronologia que ocupa 125 páginas.
“O Neto praticou coisas muito feias. Os outros também praticaram – Savimbi, Holden Roberto -, mas o que me custa é ver toda uma multidão representando a figura do Neto como um homem impoluto, que cumpriu uma direcção boa para o movimento, conduziu as coisas de forma acertada, e o que ele fez não redundou nos prejuízos do seu movimento. Redundou sim e os prejuízos foram muitos, desde o momento em que o Neto assumiu o comando do MPLA, em 1962, [o movimento] entrou numa desagregação contínua”.
Pacheco acredita que traz “à luz esta parte desconhecida da História”. “Aliás, a minha grande preocupação nesses dez anos foi arrancar do reino dos mortos aquilo que ninguém conhece ou que, muitas vezes, os antigos guerrilheiros até conhecem, porque foram protagonistas da História, mas querem ignorar, fazem um grande esforço para ignorar, esquecer. É horrível. Os senhores vão ler uma obra chocante”.
Para o autor, “a História oficial” não menciona os episódios de traições e desconfianças. “Todos eram belíssimos camaradas. Todos se davam bem entre si. É outra grande inverdade. Muitas chefias militares odiavam-se entre si”.
Pacheco cita uma carta do antigo diplomata José Condesse de Carvalho, em que “se queixa das desconfianças que havia da parte do comité director, que não aceitava que o Condesse de Carvalho e um outro comandante se encontrassem a sós na residência do primeiro. Era no canto vitória certa, em Lusaka. E ele diz: ‘eu vou abandonar isto porque é um inferno. Nós já não podemos nos encontrar por motivos de desconfiança’. Isto foi uma constante dentro do MPLA, a desconfiança. A traição estava presente em todos os gestos dos combatentes, principalmente das chefias militares”.
O livro menciona ainda o “aprisionamento da verdade”, provocado por jornalistas e intelectuais que silenciaram esse lado negro, tanto na política como na guerrilha.
“O princípio reitor [dos intelectuais] é que o velho mundo fosse liquidado e no seu lugar se criasse um novo mundo, de liberdade, mesmo à força de muitos crimes. Os crimes eram acidentes de percurso, isto é de um grande cinismo. Muitos intelectuais do mundo foram responsáveis por esta situação, cito os nomes deles, calaram sim e continuam a calar até hoje”, finaliza.
O lançamento poderia ter acabado ali, com o silêncio dos jornalistas e intelectuais mesmo após 37 anos da morte de Agostinho Neto, mas o autor disponibilizou-se a responder a perguntas e não faltaram mãos no ar pedindo uma oportunidade para falar.
Primeiro veio a questão sobre a morte de Matias Miguéis e José Miguel, mencionada no livro com citações do médico Edmundo Rocha. “A responsabilidade foi toda do Neto”, subscreve Carlos Pacheco. “Ele é que ordenou a prisão daqueles dois homens e houve informações de eles iriam desembarcar no aeroporto de Brazzaville, informações dadas ao MPLA pelos serviços secretos soviéticos. O Neto estava à espera de uma oportunidade, já tinha envidado outros esforços para prender o Matias Miguéis e o José Miguel, mas aquela foi uma oportunidade única. Ele conseguiu prendê-los e depois o desfecho foi a morte bárbara de velhos companheiros”.

O autor implica Lúcio Lara e Iko Carreira (Henrique Teles Carreira) no episódio das mortes dos militantes do MPLA, dissidentes e próximos de Viriato da Cruz. “Mais adiante faço algumas reflexões em torno da figura do Iko porque a partir de 1965 coincide essa barbaridade praticada contra dois velhos companheiros e as tentativas do Iko de desertar. Muita gente desconhece que o Iko tentou desertar várias vezes, em 1969 recuou. Os serviços secretos portugueses tinham tudo preparado para resgatar o Iko e mandá-lo para o Brasil”.
Um antigo guerrilheiro do MPLA, líder estudantil, felicita Carlos Pacheco “por revelar esses aspectos” da História, mas discorda da característica de ditador, referida no título. Segundo este antigo combatente, “é discutível”.
Os grupo de defensores do “pai da nação” aguardava por uma oportunidade para falar e quando a teve, o seu porta-voz, falou “pela juventude”. “Temos de nos lembrar que Agostinho Neto foi líder, o pai da nação, de Cabinda ao Cunene. Todos nós somos filhos de camponeses. Conhecemos a História de Angola. Temos pais, tios, avós que viveram a guerrilha, não só dirigentes do partido MPLA ou qualquer outro movimento. Falar de Agostinho Neto não é só falar do guerrilheiro, foi também o líder e acima de tudo poeta”.
A plateia já exaltada com o discurso do jovem interrompeu-o, acusando-o de fazer “propaganda”.
Faltou tempo para mais intervenções. Os seguranças da Torre do Tombo tiveram de interromper definitivamente o evento, perto das 20h, devido ao adiantado da hora, que ultrapassava em muito o tempo pedido para a sala. Deixaram apenas três ou quatro minutos para um último comentário, o do escritor Adolfo Maria, militante do MPLA, mas afastado da direcção do partido desde a independência.
“Estive a folhear e a ler a cronologia. Há uma coisa que o livro deixa a entender: a luta de libertação foi só crimes, estupros de populações, intriga entre comandantes. Não foi só isso. Houve muitos erros. Muitos desmandos. Estive lá. Eu próprio me insurgi contra o autoritarismo dentro do movimento e por isso também sofri, mas quero chamar a atenção ao Carlos Pacheco. Da leitura do livro resulta que a luta de libertação foi um desmando contínuo e de crimes sucessivos. Não foi só isso. A outra parte também deveria ter sido tratada”, declarou Adolfo Maria antes de ser interrompido por aplausos dos jovens das camisolas.
“Reconheço que fez um trabalho muito grande de pesquisa, mas o enfoque resultou nisso, na minha opinião”, concluiu.
Agostinho Neto – O perfil de um ditador. A História do MPLA em carne viva foi editado pela Nova Vega e os dois volumes estão à venda por EUR 59,36 (USD 66).

Discutamos o Agostinho Neto, que Santos já temos de sobra - Leston Bandeira (clicar no link)

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