segunda-feira, 23 de maio de 2016

“Refugo” de A. Passos Coelho em homenagem a António Cabral

 
                             Tempo Caminhado: "Refugo" de António Passos Coelho

O médico/escritor transmontano António Passos Coelho lançou, a passada semana, um conjunto de poemas em livro intitulado “Refugo”, da chancela da Fronteira do Caos.
Pretende com esta publicação homenagear o poeta do Douro António Cabral de quem foi amigo.
A apresentação pública terá lugar no dia 27 de Maio no Centro Cultural Regional de Vila Real, pelas 21H.
O volume, constituído por 29 poemas, é complementado com prefácio da lavra de Armando Palavras, do qual se respiga: “ De  A. Passos Coelho surge-nos a ciência em todo o vigor no poema “Fatalismo Astral”. Neste poema assaltam-nos os propósitos de Epicuro (342/41 a.C – 270/71 a.C.)  e Lucrécio (n. c. 99 a.C.)  que aspiram à emancipação dos homens e das mulheres da servidão das superstições. E como o autor de Rerum Natura, A. Passos Coelho emancipa o homem do medo da morte nos poemas “Recomendação” e “Após o fim”. Diz-nos no primeiro: “Mas é em pijama, meias e robe que desejo ir, / até porque vou para todo o sempre dormir.”. E no segundo: “Não me assusta a partida / como anulação da vida.
(…)
António Passos Coelho não pertence à linhagem de Heráclito (540 a. C. – 480 a. C.), o ícone maior (para muitos poetas) da solidão meditativa. Autor de enigmas tenebrosos, cuja obscuridade era já proverbial para os antigos, associado às loucuras do amor, desprezava grosseiramente Homero (Séc. VIII a. C.?) e Arquíloco (séc. VII a. C.)   porque não entendiam a harmonia dos contrários que governa a existência humana e porque delapidavam as palavras com fantasias pueris.
(…)
É em Homero (o Pai como lhe chamavam os Antigos) que está a origem da poesia da nossa raça. E é a essa fonte inesgotável que todos os poetas da Europa (e escritores como James Joyce) vão beber há três mil anos. Como o poeta cego, o poeta transmontano é económico e musical. Como o é toda a grande poesia, aquela que exercita a memória, como nas escrituras hebraicas cujos elementos prosaicos são animados pelo ritmo do verso. Tendem para o canto quando lidos em voz alta.
Mas ao contrário daquele, de quem se não conhece nenhum pormenor da sua vida, António Passos Coelho, com a transparência e a lucidez estonteante formulada por Coleridge, abre-nos a porta da sua vida com uma riqueza e precisão excepcionais. Inicia o Refugo com esta maravilha: “Se algum dia alguém/de mim noticias quiser/este acervo contem/tudo que deseja saber”.
E da mesma forma, nos fala do mundo: da infância, da politica, da vida, da amizade, das flores, dos bichos (os cães), da velhice (como Cícero – n.106 a.C.), do tempo, da esperança, do ódio, da vingança, da inveja, da liberdade, do Além, das memórias … na Balada do tempo que passou, que serve de fecho a este conjunto de poemas.
É nessa clareza de linguagem, de ideias, que se exprime o poeta deste livro. Cada palavra isolada atrai todo um grupo de ressonâncias magnéticas harmónicas e melódicas. Tudo conta. Cada som, cada pausa, a extensão de cada verso.
(…)
Ao poeta exige-se liberdade. Com a qual consegue que um conjunto de signos orais ou escritos possa criar personagens, ambientes ou ideias com durabilidade. Que ultrapassem o tempo do poeta e do próprio leitor. Como no caso do Amor, a quem este poeta do Marão consagra uma enormidade de versos. Ou no caso da critica social. Como Aristófanes, António Passos Coelho não se cala sobre a pobreza, ou o abuso de poderes, tanto no verso como no conto (“Gente da Minha Terra” e “Histórias Selvagens”, 2002). Abelardo (c. 1079 – 1142) que conhecia os diálogos heurísticos e especulativos de Santo Agostinho (354 d.C. – 430 d.C.), de forma alegórica tradicional, sugere uma justiça para além do dogma e da ortodoxia. Da mesma forma que este poeta do Marão, de uma maneira clara e simples. Sem ser de “esquerda” ou de “direita”, ao modo de Séneca: “o que a lei não proíbe, proíbe a decência”. O poeta transmontano di-lo “à sua maneira” e em vários poemas:” O que não é sentido/não pode ser cumprido” (Esta Lei), ou “O meu ódio/nunca subirá ao pódio. /Nem a minha inveja/causará dano a quem quer que seja” (Por muito que me doa)”.

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