sábado, 21 de maio de 2016

Puros e bizarros (National Geographic)

 http://www.nationalgeographic.pt/natureza/grandes-reportagens/695-puros-e-bizarros?showall=

Texto e Fotografias Luís Quinta

Nas águas cristalinas do rio Olo, milhares de animais de aspecto bizarro fixam-se com tenacidade ao fundo. Vistos à lupa, parecem criaturas de ficção, mas o seu valor vai muito além de simples alimento para a cadeia de predadores. Eles revelam a saúde do rio.
Após vários meses ou anos no leito do rio, as larvas de libélulas trepam as margens durante a madrugada e libertam-se do exoesqueleto transformando-se em eficazes seres alados.
No início do século passado, qualquer mineiro de carvão ou explorador de grutas não entrava na escuridão profunda sem se fazer acompanhar de um canário. Com baixa tolerância ao monóxido de carbono e ao gás metano, batimento cardíaco elevado e reduzida capacidade pulmonar, os canários tornaram-se indicadores de excelência de possíveis condições impróprias para o ser humano. Antes de o mineiro sentir dificuldades, já esta sentinela biológica tinha dado o alarme.
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Mesmo com um fato de neoprene espesso, a água gélida do rio Olo atrofia os movimentos. Olho para o fundo e vislumbro inúmeras formas de vida a trepar os seixos rolados e a vegetação subaquática. Revolvo uma rocha e vários macroinvertebrados agitam-se em fuga ou em jogos de disfarce.Observadas à lupa, algumas criaturas têm um aspecto assustador. Não é surpreendente que as bizarras larvas aquáticas tenham servido de inspiração a vários autores de ficção científica. Contudo, as potentes mandíbulas, as garras afiadas, as ventosas eficazes ou os corpos achatados não passam de evoluídas adaptações morfológicas ao tipo de alimentação disponível e ao ambiente agreste agitado por fortes correntes.
Depois de terminada a metamorfose, muitos destes organismos revelam-se belos insectos alados, como libelinhas, libélulas, efémeras ou borboletas. Consoante as espécies, a sua fase de vida subaquática pode durar meses ou anos.
Todos os cursos de água nacionais podem albergar várias espécies de insectos, mas só os rios ou cursos de água com grande pureza servem de residência a algumas famílias menos tolerantes às alterações químicas, físicas ou biológicas. No fundo, como o canário das minas, estes são os sentinelas dos rios.
Simone Varandas, engenheira florestal do Centro de Investigação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (CITAD/UTAD), revela uma classificação criteriosa: “De acordo com o índice biótico da Península Ibérica (IBMWP), a cada família é atribuída uma pontuação de acordo com o grau de tolerância a alterações das condições ambientais. O rio Olo é habitado por vários macroinvertebrados com a máxima valorização. Estes organismos permitem conhecer a saúde de um rio e o impacte das actividades humanas nesse ecossistema.”
As águas cristalinas e oxigenadas do rio Olo são o território ideal para cerca de duzentas espécies de macroinvertebrados que ali passam parte da sua vida. O rio tem sido utilizado como modelo biológico para testar indicadores de qualidade da água.
Em meados do século XX, o uso de bioindicadores começou a ganhar relevância e o repertório de seres vivos aptos para essa tarefa tem vindo a aumentar e a abranger cada vez mais ecossistemas aquáticos e terrestres. No ciclo de vida dos macroinvertebrados do rio Olo, ficam impressas marcas de alterações químicas, mudanças de temperatura, de substrato, de luminosidade, de velocidade da corrente ou de competição. Se forem avaliadas populações e distribuições geográficas, o conhecimento de um rio ou ribeiro pode ainda ser mais profundo.
Com o seu grupo de investigação na UTAD, Simone Varandas tem testado bioindicadores em sistemas fluviais, procurando organismos cuja sensibilidade a modificações ambientais possa ser medida. Estes microinvertebrados apresentam várias vantagens, dada a sua adaptação a diversas escalas espaciais e níveis de perturbação.
 

Melro-de-água, espécie comum nas margens do rio Olo.


Ao longe, no meio de uma cascata, identifico um melro-de-água com alimento no bico. Como um bom pisteiro, sigo os sinais de actividade da ave, pois a sua presença é sinónimo de larvas aquáticas indicadoras de ecossistemas aquáticos de boa qualidade. A diferença nestes cursos de água é que os organismos intolerantes à degradação ambiental são substituídos pelos tolerantes. Embora muitas aves se alimentem de insectos aquáticos, nenhuma atinge a performance deste melro, que mergulha nas correntes fortes e caça petiscos suculentos.
Continuando a descodificação da paisagem como um crítico de arte numa galeria, sei que o alimento no bico do melro significa normalmente que existem crias para alimentar no ninho. Na época de reprodução, este passeriforme pode capturar centenas de larvas de primeira qualidade. A abundância define o sucesso da criação, mas também das condições biológicas para as larvas no rio. Além de aves, muitos répteis, anfíbios e alguns mamíferos, como a toupeira-de-água, também optam por este menu.
Alguns destes seres alienígenas são tão pequenos que só através de imagens ampliadas no LCD da câmara fotográfica consigo ver as delicadas estruturas do seu corpo.
Na mão, tenho a larva de uma efémera. Colorida, de movimentos graciosos e olhos grandes, a sua fisionomia parece um desenho futurista. Quando emergir da água, apenas terá uma missão: reproduzir-se. A sua fase aérea é tão curta que dura apenas algumas horas, pelo que não possui sequer aparelho digestivo.
Algumas brânquias, que parecem penas, são tão ramificadas e desenhadas que sugerem outra função para além de respiração – o encantamento nupcial. A aparência é cativante e o movimento ritmado e sincronizado das brânquias para captar o oxigénio é surpreendente.
Simone Varandas mostra uma tina de plástico branco e aponta para a quantidade de criaturas agitadas acabadas de capturar. “A diversidade destes seres é tão grande que certamente haverá aqui algumas espécies novas para a ciência.” Esta é uma nova fronteira do conhecimento.
Uma amostra dos exóticos invertebrados de um único curso de água durante a fase larvar. É atribuída uma classificação a cada um destes seres subaquáticos em função da sua utilidade como bioindicador. Muitos vivem pouco mais de 24 horas após a sua metamorfose.
Enquanto me afasto deste mundo liliputiano, regressando à superfície, tento não perder noção do valor que estes animais têm para o nosso mundo.  As criaturas bizarras e sensíveis, fáceis de recolher, dão informações alargadas do passado, do presente e do futuro de cada rio que colonizam. No fundo, voltamos sempre à variação do mesmo tema – a imensidão do que falta apreender sobre o mundo natural.
No prefácio ao livro “Micro”, que deixou incompleto, o escritor Michael Crichton lembrou a obsessão que o perseguiu durante toda a sua obra, bem patente no célebre “Parque Jurássico”: “A mais importante lição a retirar da experiência directa é o facto de o mundo natural, com todos os seus elementos e interconexões, representar um sistema complexo cujo comportamento não conseguimos compreender nem prever. É-nos negado esse controlo. E sê-lo-á sempre.” 

 Sobre as galerias da Serra dos Passos, consultar este site:

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