segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Raimundo Lulo, um homem para o nosso tempo


AIRES A. NASCIMENTO  in: Jornal Público

Intelectual e místico, viveu retirado do mundo, mas escreveu nada menos que cerca de 250 obras.

A Catalunha de hoje tem sido notícia por motivos políticos. Deveria sê-lo também pelo 7º centenário de um dos seus homens mais ilustres, Raimundo Lulo, de seu nome: é esta, de facto, a forma do nome com melhor integração na nossa língua, que assenta na forma latina, Raymundus Lullus, usada por ele; nada obsta, porém que optemos pela forma catalã, Ramon Llull, que adopta a norma ortográfica posta em vigor em 1934, com as respectivas palatais.


Personalidade maior do século XIII, Raimundo Lulo (c. 1232-1315) é nome que merece destaque, pelo que evoca na cultura ocidental, feita de diversidades nos vários tempos da sua história e feita de aprendizagens de convívios que não são imediatos. Cultivou ele a língua das suas gentes, não esqueceu a língua de cultura que era o latim, aprendeu também o árabe, empenhou-se em atitudes novas de superação de tensões culturais e atendeu a relações de aproximação entre comunidades desavindas, por diferenças religiosas, que ele revia na leitura dos seus textos.
Foram diversos e múltiplos os seus interesses científicos e por isso o seu nome consta de disciplinas diversas: lógica e metafísica, gramática e retórica, geometria e aritmética, física e química, antropologia, medicina e cirurgia, direito, política e até tácticas militares. Dotado de espírito multímodo, serve-se de várias formas e estilos: modos sentenciosos, formulações catequéticas, exposições e demonstrações, textos imaginativos: na novela Blanquerna, em construção imaginosa, lança o seu herói na superação de sucessivas situações: homem casado, ermita, monge, bispo, arcebispo, cardeal e papa, que, depõe a tiara pontifícia para acabar os seus dias entregue ao ideal franciscano de união mística com Deus. Não é autobiográfica a sequência, mas reflecte ideais lulianos e deixa entrever os passos que empreendeu.
Nasceu na Ilha de Mallorca, por 1232, e morreu na Ilha de Cabrera (também nas Baleares) a 30 de Junho de 1315; mereceu ser beatificado e figurar no calendário litúrgico local, no dia 27 de Novembro. O seu percurso foi movimentado: da ilha de origem passa a Montpellier e à região do Rossilhão, vai a Roma várias vezes, passa por diversos pontos do Mediterrâneo, procura a África e acaba por ser espancado em Bugia (Tunísia), sendo expulso, quase sem vida, depois de, pela terceira vez ter procurado discutir amigavelmente as razões da fé que propunha. Singular, da sua parte (contrariamente à prática da apologética consagrada), era servir-se das fontes árabes e procurar nelas a verdade acessível à razão humana por métodos de racionalidade compreensiva.
Singular foi também a sua acção, pois trabalhou sempre por conta própria, sem o apoio de grupo organizado. Entregou-se apaixonadamente a trabalhar na conversão dos ismaelitas, dedicando-se por esse motivo ao estudo do árabe a fim conhecer os seus textos na língua de origem: tendo comprado um escravo muçulmano que lhe servia de mestre de língua, correu risco de morte, pois ele atentou contra a sua vida.
Com o mesmo objectivo apostólico, interessou-se pela Escola que os dominicanos mantinham em Paris e pretendeu entrar nela como aluno, mas foi dissuadido de o fazer por Raimundo de Penaforte, dominicano, que já tinha sido responsável por aqueles Estudos e servira de penitenciário papal. Por conta própria, abriu, em Miramar, Mallorca, uma Escola, em que acolhia discípulos para aprenderem línguas com o intuito de se prepararem para a pregação dedicada aos islamitas.
Preocupação sua era ultrapassar os métodos apologéticos tradicionais e seguir novos rumos com aprofundamento dos textos religiosos em busca da verdade. Foi essa atitude sempre entendida como prática intercultural de abertura a tradições diferentes (judeus e islamitas). Sincero no culto cristão e respeitador dos outros, sem apelo à conversão, animava-o a busca a verdade, disposto a aceitá-la onde a encontrasse. Sem modos apologéticos, firmados em autoridades, intentou caminhos de diálogo, ultrapassando as contradições encontradas na leitura de fontes. Determinado em assegurar firmeza nos seus argumentos, congeminou uma Ars Magna de argumentação que permitisse chegar a uma verdade incontestada. Não esqueceu que não basta saber para crer, pois postulava a “iluminação”.


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