quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Almeida Santos


 OPINIÃO

FRANCISCO ASSIS - in: Jornal Público

O muito que Almeida Santos fez ao longo destas quatro décadas que já leva a II República outorgam-lhe um lugar de superior proeminência na história contemporânea portuguesa.
São várias as razões que me compelem, nesta hora triste, a evocar a tão recente memória de António de Almeida Santos. O profundo apreço pelo homem, o respeito pelo cidadão excepcional que ele foi, a admiração pelo intelectual que como poucos fundia o brilho da forma com a solidez da substância, a insuperável consideração pelo político nas suas múltiplas dimensões de parlamentar, de legislador, de governante.
A excepcionalidade de Almeida Santos revelou-se bem cedo. Ainda estudante destacou-se pelo brilho de uma inteligência que já então denunciava uma simultânea propensão para a especulação teorética, para a precisão analítica e para a arte oratória. Saído de Coimbra com uma elevadíssima classificação e com o devido reconhecimento dos seus professores e colegas estava naturalmente destinado a uma superior carreira como jurisconsulto. Não desmereceu essa expectativa mas recusou confinar-se a tal percurso. Amava demasiado a liberdade para condescender acriticamente com a ditadura. Foi para Moçambique e aí lutou corajosamente pelos valores da república e da democracia, fontes de inspiração de toda a sua vida pública. Em 1974 instalou-se em Lisboa e iniciou um período de intensa intervenção política que só terminaria no domingo passado. O muito que fez ao longo destas quatro décadas que já leva a II República outorgam-lhe um lugar de superior proeminência na história contemporânea portuguesa. Os seus biógrafos, que não haverão de faltar, se encarregarão de sublinhar a importância do seu legado político.
Tive o privilégio de conhecer e de conviver amiúde com Almeida Santos nos últimos trinta anos da sua vida. Privei com ele quase diariamente durante o período em que exerceu as funções de Presidente da Assembleia da República. Desse contacto próximo ficaram-me extraordinárias recordações que se resumem numa imagem simples: a de um homem bom e generoso animado por uma inteligência superior, profundamente dedicado aos interesses do seu país sem abdicação de uma vida própria. A grandeza, contudo, produz sempre o efeito secundário de apoucar os pequenos. Quando assim sucedia, e sucedeu várias vezes, Almeida Santos dava provas de uma nobreza de carácter ímpar. Quantas vezes o não vi apiedado com o destino de quem não merecia a sua atenção, disposto a ajudar quem qualquer outro ignoraria. Era assim a sua natureza.
Há, por muito que tentemos esconjurá-lo, algo de desesperante na finitude do homem. António de Almeida Santos, que sempre tratei com o formalismo adequado como Dr. Almeida Santos, deixa-me uma grande saudade. Saudade de um ídolo, saudade de um mestre, saudade de um amigo. Adeus, Sr. Doutor, o Senhor era mesmo, sob diversos pontos de vista, o melhor de nós todos.

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