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| A. M. Pires Cabral |
O cristal da minha infância e da minha adolescência foi riscado por uma girândola de sarcasmos que dá pelo nome de A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro. Não da mesma maneira nas duas idades, claro está.
Na infância, porventura ainda mesmo
antes de saber ler, eram as ilustrações de Leal da Câmara que me grudavam ao
livro. Impressionavam-me ora pelo tenebroso (um papa a ser arrastado para a
cova por um esqueleto, a morte), ora pelo caricatural (um sujeito com uma perna
descomunal, comparada com a outra, que era normal).
Depois, com
o correr do tempo, fui deslocando as minhas atenções para o texto — sem que
nunca, aliás, deixasse de me impressionar com as ilustrações, algumas das
quais, a falar verdade, ainda hoje me perturbam.
O meu
romantismo adolescente deixou-se comover pelos trechos líricos, infelizmente
escassos, nomeadamente o célebre e celebrado passo de “Aos simples”:
Minha mãe, minha mãe, ai que saudade imensa (…)
Mas a
costela jacobina que me acompanha desde que me conheço deliciava-se era com os
motejos anti-clericais. O meu poema preferido veio a ser “O melro”. Também aí
havia, é certo, cintilações líricas que me emocionavam: a cena do envenenamento
dos filhotes engaiolados pela mãe, que só conhecia uma moeda de troca para a
liberdade do voo — a morte. Paralelamente, o poema punha-me com uma clareza
radiosa diante do absurdo do dogma do pecado original:
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da igreja. Estou vingado!
A Velhice do Padre Eterno foi, digamos, uma das minhas escolas
de livre pensamento, e ainda hoje o é, descontando-lhe todos os defeitos, todos
os exageros, todas as caricaturas, todos os passos em falso,
todo o fácil e gratuito bimbalhar de sinos e trovejar de cominações.
Qualquer livro, sendo ao
mesmo tempo o produto de uma época, é simultaneamente um objecto de pensamento
capaz de suportar as análises dos tempos subsequentes. Digo isto a propósito de
uma das novas tendências da crítica literária, a ecocrítica, que de alguma forma
é uma resposta às preocupações dos movimentos ambientalistas. Hoje, o poema “O
melro”, visto à luz da ecocrítica, pode considerar-se um verdadeiro hino à
biodiversidade, tanto em moda, culminando no momento catártico do
arrependimento do padre-cura:
Há em toda a miséria o mesmo pranto E em todo o
coração há um grito igual.
[…]
Só hoje sei que em toda a criatura,
Desde a mais bela à mais impura, Ou numa pomba ou numa
fera brava, Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!...
… … … … …
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava…
in: Tellus, nº 63
Grémio Literário Vila-Realense
Câmara Municipal de Vila Real



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