05/11/2015
Considero mais
adequado ao interesse nacional a existência de uma solução governativa em que a
direita fique dependente das posições do PS a uma outra em que o PS se torne
refém dos humores, caprichos, estratégias e tacticismos dos partidos da
extrema-esquerda.
Sempre que ouço falar no fim do centro
político regresso a Norberto Bobbio. Como já aqui várias vezes referi, este
filósofo político italiano, reconhecendo embora a pertinência teórica e
analítica da díade esquerda/direita, atribui contudo análoga importância à
oposição entre a moderação e o extremismo. Na sua conhecida obra que se
intitula justamente Direita e Esquerda, o eminente professor da Universidade de
Turim afirma o seguinte: “Numa primeira abordagem, vê-se que a díade
extremismo/moderantismo tem muito pouco a ver com a natureza das ideias
professadas, e que antes se refere à sua radicalização e, consequentemente, às
diversas estratégias para as fazer valer na prática. A ciência explica porque é
que revolucionários (de esquerda) e contrarrevolucionários (de direita) podem
ter certos autores em comum: têm-nos não enquanto de direita ou de esquerda mas
enquanto extremistas, respectivamente de direita e de esquerda que, como tal,
se distinguem dos moderados de direita e de esquerda. O facto de o critério que
estabelece a distinção entre direita e esquerda ser diferente do que estabelece
a distinção entre extremistas e moderados implica que ideologias opostas possam
encontrar pontos de convergência e de acordo nas suas franjas extremas, embora
permaneçam bem distintas quanto aos seus programas e aos seus objectivos
últimos, de que depende apenas a sua colocação numa das partes da díade ou na
outra” (Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política,
Lisboa, Editorial Presença, 1995, p. 44). Estas palavras remetem-nos para um
aspecto essencial do debate político contemporâneo e ajudam-nos a interpretar a
presente circunstância histórica europeia. Bobbio não identifica a
extrema-esquerda com a extrema-direita do ponto de vista doutrinário, mas antes
aponta com precisão o motivo pelo qual não raras vezes essas duas orientações
convergem no plano da política concreta. Esse motivo radica num fundo comum de
natureza antiliberal e até mesmo antidemocrático. Para os extremistas, a
moderação, enquanto exercício da prudência, do reformismo e do gradualismo,
constitui sempre uma forma de traição e uma manifestação de mediocridade.
Quando, no Parlamento Europeu, os
deputados da Frente Nacional de Marine Le Pen e os deputados da
extrema-esquerda coincidem nas suas votações é isso mesmo que está em causa.
Claro que eu não confundo uma deputada como Marisa Matias - por quem tenho
genuína admiração - com os próceres da extrema-direita europeia. Tudo os afasta
no domínio da representação do mundo, da concepção antropológica e do modelo de
sociedade. A razão pela qual convergem demasiado amiúde nas suas votações
resulta precisamente desse extremismo fundado na já referida desconfiança face
à dimensão liberal da democracia. Se no domínio europeu tudo isto se torna mais
evidente é justamente porque este projecto representa, como nenhum outro na
história, a consagração dos princípios e valores inspiradores do regime
demo-liberal.
O perigo maior que neste momento se coloca
no horizonte da União Europeia é o da possibilidade do triunfo do extremismo
face àquilo que Bobbio designou por moderantismo. Esse perigo é infelizmente
bem real. Qual a sua verdadeira origem? Na minha opinião são duas as fontes de
que promana tal ameaça: por um lado, a parcial dissolução do Estado-Providência
em resultado da abertura ao fenómeno da globalização; por outro, a crescente
infantilização das sociedades democráticas com a consequente degradação do
princípio da responsabilidade individual. Curiosamente, um e outro motivo vão a
par e contribuem para o surgimento de um niilismo que fomenta o sucesso das
posições extremistas.
Perante tal situação, que nada augura de
bom, impõe-se a necessidade de reconstrução do centro político, quer na sua
vertente de esquerda, quer na sua vertente de direita. Não é tarefa fácil e há
vários sistemas políticos e eleitorais, como é o caso do francês, que em nada
favorecem a consecução de tal desiderato. Tudo o que remeta para uma
sobrevalorização da dicotomia esquerda/direita em relação à dicotomia extremismo/moderantismo
prejudica a obtenção dos compromissos indispensáveis à consolidação do
património fundador das democracias ocidentais. Infelizmente é isso que tem
vindo a suceder em diversas situações.


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