“Esta direcção do PS é uma deriva
esquerdista”
Nuno Sá Lourenço e São José Almeida
07/11/2015 - - Entrevista do jornal
Público
Álvaro Beleza está na linha da frente na
crítica a António Costa e ao acordo que tem sido negociado por este com a
direcção do BE e do PCP. E lembra que “o PS só ganhou eleições, até hoje, ao
centro”.
Ao lado de Francisco Assis, Álvaro Beleza
desafia António Costa e opõe-se ao acordo de esquerda, pelo momento e a pressa
com que é feito. P ara debater a situação do PS, organizou com Assis o debate
com militantes na Mealhada sexta-feira à noite. E prepara-se para sábado à tarde
e domingo à noite ir dizer o que pensa nas reuniões da Comissão Nacional e da
Comissão Política do PS. A começar por que considera que sem o PS ter ganho
eleições, o acordo à esquerda “politicamente é” legítimo, assim como
“juridicamente” e “constitucionalmente”, mas sustenta que “eticamente não é”,
embora reconheça que “a ética não dá votos”.
PÚBLICO: Em que é que falhou António
Costa?
Álvaro Beleza: Não é uma questão de
falhar. Nós temos uma divergência de opinião em relação ao rumo seguido desde 4
de Outubro. O que eu disse a 4 de Outubro é que tinham que se tirar ilações do
resultado eleitoral. Um líder que se candidata à direcção do partido por causa
de uma vitória por pouco e que perde por muito tem que tirar as devidas
ilações. E acho que não foram tiradas. Isto é, o partido devia ter entrado em
reflexão, Costa devia ter posto o seu lugar à disposição e deviam ter sido
convocadas eleições. Não quer dizer que Costa não pudesse recandidatar-se para
continuar líder, mas era assim que as coisas deviam ter sido feitas, do ponto
de vista da ética republicana.
Costa convocou um Congresso.
Só que, entretanto, tomou uma opção que,
ainda por cima, vai ao arrepio da tradição e da história do PS.
Devia ter ficado em gestão?
A partir do momento em que há uma direcção
eleita para ganhar eleições, com uma maioria absoluta, e que perde eleições,
essa direcção fica em gestão.
Na moção às “primárias”, na do Congresso e
no programa eleitoral, Costa defendeu a abertura do PS à esquerda?
Rejeitaram o arco de governação, isso
percebe-se, sim. Mas nunca escreveu que, se perdesse, iria tentar este acordo à
esquerda. Em Portugal, a questão da confiança dos eleitores na política, não
tem a ver com o que é escrito. Tem que ver com a palavra, com convenções não
escritas. O regime português é semipresidencial. Não é um regime parlamentar
como as monarquias parlamentares do Norte da Europa e da Espanha. Em Portugal,
criou-se um sistema eleitoral em que os partidos, mesmo não ganhando com
maioria, acabassem a governar.
Mas o presidencialismo do regime centra-se
no Presidente, não no primeiro-ministro.
No sistema parlamentar português, até
hoje, quem ganhou foi quem teve mais votos, mesmo sem maioria absoluta. Essa
regra, havendo agora um Governo de esquerda, liderado por um partido que
perdeu, é quebrada. E essa regra é uma expectativa que as pessoas têm. Por
isso, é que os debates entre candidatos a primeiro-ministro são a dois e não a
quatro.
Estas negociações defraudam o voto?
Acho que é preciso ter cuidado e
autocontrolo com as expectativas das pessoas e com as convenções entretanto
criadas. Para se mudar uma convenção estabelecida, que não está escrita, tem
que se ter um motivo de força maior.
Qual era o caminho que devia ter sido
seguido?
No PS, discutir-se a liderança. Depois,
não ir para o Governo não tendo ganho as eleições. E, então, até se podia
construir um acordo à esquerda. Não fecho a porta a um entendimento à esquerda.
O que defendo é que estas coisas têm de ser feitas de uma forma sensata,
prudente e correcta. Correcta do ponto de vista ético e inteligente do ponto de
vista estratégico. Este Governo passou a ser de minoria. Portanto, o PS
viabilizaria um Governo que ficaria dependente do PS. Seria um Governo refém do
PS. E a prazo, evidentemente. Se no prazo de um ano, esse Governo não mudasse
de rumo, continuando com políticas austeritárias, ultraliberais, é evidente que
o PS tinha um ano para construir uma alternativa com os partidos à sua
esquerda. Mas essa seria uma alternativa mais sólida, mais consistente. Não é
fácil, em 15 dias, fazer um acordo que não foi feito em 40 anos. Até por causa
das expectativas dos vários eleitorados. A não ser que se queira fazer como
Alexis Tsipras, que mentiu ao eleitorado. Foi eleito a dizer que ia impor
outras medidas à senhora Merkel e à troika e depois teve que ajoelhar, fazendo
tudo o que lhe mandavam. E teve de correr com gente do seu partido, provocando
uma cisão no Syriza. Isso é enganar o eleitorado. Estou a partir do pressuposto
de que o PS não pode enganar o eleitorado, que tem de ser coerente e que tem de
ser correcto do ponto de vista ético e inteligente do ponto de vista
estratégico. É melhor ter um Governo de direita refém do PS do que ter um
Governo do PS que perdeu as eleições, que parece ter enorme vontade de poder e
que está refém dos nossos adversários.
Suportar parlamentarmente a coligação não
tem o risco de levar à pasokização do PS?
Não. Em Portugal não vai ver o
desaparecimento de um grande partido político. Esse risco não existe. O PS, o
PCP ou o PSD, estes três grandes estão de tal forma dentro da sociedade
portuguesa que nunca desaparecerão. Em Portugal não se confirmaram fenómenos de
palhaços como em Itália, ou de partidos da cerveja. É verdade que temos o Bloco
de Esquerda, mas está para a República portuguesa como uma jota da República. É
um partido jovem, que teve uma dupla interessante no seu início, com Francisco
Louçã e Miguel Portas, e que agora foi substituída por outra dupla jovem e
interessante, com Mariana Mortágua e Catarina Martins. A grande revelação da
política portuguesa é Mariana Mortágua. Faz-me lembrar o Cristiano Ronaldo no
Euro 2004. Muito jovem, mas prometendo já muito futuro. Mas o mais prudente
para o PS era este caminho de manter este Governo a prazo para depois construir
as condições da alternativa. Aí o eleitorado perceberia melhor.
Mas Francisco Assis não diz isso. Ele
identifica este acordo como um risco para o PS e para o país.
Eu penso como Francisco Assis no sentido
em que negociar um acordo à esquerda numa posição de fragilidade.
Mas a questão não é a forma como Assis
olha para o PCP e BE, o chamado abraço de urso?
E há um risco. Fazendo o acordo agora
estamos numa posição mais frágil do que daqui a um ano. Sempre. Porque não
ganhámos as eleições. E a partir do momento em que estamos nessa posição
frágil, estamos nós dependentes deles e não eles de nós. É evidente que é o PS
que fica refém. Não estou a ver como é que se constrói um Governo europeu,
social-democrata, progressista, reformista, com dois partidos que defendem
sempre mais despesa, o incumprimento do défice e do Tratado Orçamental. Isto é
não ter boas contas públicas.
Mas esse problema não se manteria daqui a
um ano?
Não sei. Porque quanto mais forte é a
posição do PS, mais fraca é a posição negocial dos partidos à nossa esquerda. E
a posição do PS hoje é mais fraca porque há uma parte do eleitorado do PS que
foi surpreendida por este processo. O PS, assim, aliena o centro. Em
contrapartida, se a coligação continuasse com más políticas, com políticas
impopulares, de destruição do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, o
PS tinha mais argumentos e credibilidade pública para impor um acordo ao PCP e
BE. Hoje, o PS está numa posição frágil nestas negociações porque esses dois
partidos acham que o PS quer o poder de qualquer maneira. Eu prefiro um Governo
da direita refém do PS, do que um Governo PS refém da esquerda radical.
Este processo negocial não tem nenhum
mérito?
É inédito, é verdade. É o mérito destas
conversas. Mas esse mérito não pode camuflar todos os riscos que existem.
Primeiro, há o risco dos princípios, dos valores e da ética. Em suma, o risco
da confiança. Segundo, há o risco do abraço de urso da esquerda radical ao PS.
O BE pode ocupar o lugar do PS. Este BE da Catarina Martins, do discurso mais
moderado, mais ao centro, mais responsável. Foi o que aconteceu na Grécia.
O acordo não tem a vantagem de amarrar ou
conter essa esquerda?
Não acredito que o PCP aceite ser
engolido. Nem isso seria bom para o regime português. Eu tenho muitas dúvidas
sobre uma tentativa táctica de engolir o PCP, à francesa. Porque o eleitorado
do PC francês, depois deste desaparecer, passou para a extrema-direita.
Prefere o PCP a Marine Le Pen?
Claro que sim. O PCP tornou-se num partido
trabalhista e nacionalista. Na sua essência já não é um partido leninista. Já
não é internacionalista, já usa a palavra patriota.
Já usava com Cunhal.
É sindicalista. O PS português não é como
o PSOE espanhol ou o Partido Trabalhista inglês, que eram partidos criados a
partir dos sindicatos. O PS é o partido do centro-esquerda, criado por quadros,
intelectuais. Da social-democracia europeia é o PS mais à direita. Não podemos
esquecer que num congresso, o José Sócrates derrotou o Manuel Alegre, que era a
ala esquerda do PS. E depois ganhou uma maioria absoluta. O PS só ganhou
eleições, até hoje, ao centro. Nunca ganhou à esquerda. Era isso que esta
direcção tinha de perceber: que o PS perdeu porque fez um discurso radical à
esquerda. O António Costa não é um perigoso radical de esquerda, mas fez o
discurso à esquerda, a dizer “Vamos correr com eles!” Não se pode ser poder só
para “correr com eles”.
Esse discurso não resulta dos quatro anos
de um Governo visto como ultraliberal?
Este Governo foi o mais liberal de
Portugal. E isso clarificou as águas. E também perdeu o centro. Passaram de
mais de 50% para 38%. O problema do PS é que parte desse centro foi votar no
BE. Foi mais moderada a Catarina Martins, no estilo e no tom, do que, às vezes,
o PS. Como é que isto é possível?
O actual momento pode levar a uma cisão no
partido?
Não.
O seu discurso define muito bem a
diferença dentro do PS entre uma ala em que o senhor e Francisco Assis estão
representados e a ala da actual direcção.
Eu e Francisco Assis estamos onde sempre
esteve o PS de Mário Soares, de Guterres, de Sócrates e de Seguro. Um PS onde
ele sempre esteve, no centro-esquerda. E esta direcção do PS é uma deriva
esquerdista.
Isso pode levar a uma ruptura interna?
Não. Sempre houve estas diferenças. Às
vezes a ala mais à esquerda esteve no poder e outras não. Infelizmente, a ala
mais à esquerda, Vitor Constâncio, Jorge Sampaio, Ferro Rodrigues e António
Costa nunca foram Governo. Isso é que é curioso, sempre que a ala esquerda
esteve no poder nunca foi Governo.
Isso é a linhagem do ex-Secretariado, os
descendentes de Salgado Zenha. Vivemos uma continuação do confronto
Zenha-Soares?
É. António Costa esteve com Jorge Sampaio.
É a primeira vez que a ala esquerda do partido poderá ser Governo, curiosamente
depois de ter perdido eleições. O que não é muito simpático para eles.
Considera politicamente legítimo um
partido que perde eleições ser Governo?
Politicamente é, juridicamente é,
constitucionalmente é, eticamente não é. Mas a ética não dá votos.
A política não devia ser uma obediência da
ética?
Devia. O António Costa revelar-se-ia um
grande estadista, não é um grande político, é um grande estadista, se tendo a
chance de poder ser primeiro-ministro depois de perder eleições, com o apoio de
partidos à esquerda, não a aceitasse a bem dos valores da ética e esperasse
pela vez de ou ganhar eleições ou de este governo cometer erros graves. Isso
sim era ter visão de Estado. É aquela diferença que Churchill dizia haver entre
o grande político e o grande estadista: o político pensa na próxima eleição, no
poder a curto prazo, o estadista pensa na próxima geração.
Por mais de uma vez utilizou a expressão
“casa da esquerda” como objectivo geral de posicionamento do PS no espectro
político. Quer engolir o eleitorado do PCP e do BE?
Não, não é engolir o eleitorado. Essa,
para mim, é a grande vantagem dessas conversas à esquerda, é que as diferenças
entre dirigentes do BE e a ala esquerda do PS é mínima e, portanto, acredito
que é possível construir com o BE e com o Livre, que essas franjas à nossa
esquerda venham para o PS. Eu sempre defendi isso, que o PS abra as portas a
esses sectores e que se crie um grande partido da esquerda. Com o PCP acho
impossível e até nem acho desejável.
Mas isso pode ser o resultado final destas
negociações, no caso de correrem bem. Basta ver o que António Costa fez na
Câmara de Lisboa com o Sá Fernandes.
Certo. Mas eu sou coerente. Sendo da ala
moderada do PS, sempre defendi e continuo a defender isso.
Este processo pode resultar nisso.
Algo de positivo haverá. Eu tento sempre
ver o lado positivo das coisas, sou um optimista. E faço a política por ideias
e de boa-fé. Aliás, esta é das primeiras vezes que há um confronto de ideias no
PS não pessoal. Nem eu nem o Assis temos problemas pessoais, até temos amigos
na direcção do PS. É só programático. Isso é saudável. Tanto que nas comissões
políticas o ambiente tem sido muito cordato, apesar das diferenças serem muito
claras. Eu não estou a lutar para ser o poder no PS. Estou a lutar para que o
PS seja a casa da esquerda democrática portuguesa, tenha várias sensibilidades
e tendências no seu seio, que possam conviver e que sejam uma alternativa a um
bloco à direita. O que acho também é que o PS para ganhar eleições tem de ser
centrista, o que não quer dizer que, em alturas em que não as ganhe, quando
está na oposição, não sejam boas alturas para construir a casa da esquerda.
Isto não pode ser feito tudo de uma vez. E tem de haver tempo.
Este processo não tem tempo?
Estamos a fazer uma tentativa de fazer uma
coligação à esquerda quando o PS perdeu, à pressa e uma coisa que não é bonita
de se fazer.
O PCP e o BE evoluíram na forma como
encaram o poder?
O PCP não evoluiu. Se há característica
que tem é a coerência. O PCP é contra a entrada de Portugal na União Europeia,
contra a moeda única e é verdadeiramente o partido nacionalista hoje em dia.
Isto é uma fronteira muito difícil de ultrapassar, nós somos o partido europeu
por excelência.
Aceitaram sentar-se à mesa com o PS e
conversar.
Certo. Com o BE as diferenças são muito
menores, apesar do BE contrariar o Tratado Europeu dentro do PS também há
figuras a dizer quase a mesma coisa. O Pedro Nuno Santos, o João Galamba, a
Catarina Martins e a Mariana Mortágua têm muito mais em comum do que o que os
diferencia. Isto sem drama. Eu gosto deles todos, admiro-os. Até porque o BE é
mais jovem, mais moderno, mais cosmopolita, mais urbano, mais europeu nos
costumes. O PCP é um partido muito conservador e muito rural.
Ainda é revolucionário?
Não. O PCP, para mim, é um partido
conservador, nacionalista, mas trabalhista, amigo dos trabalhadores e muitos
deles, vê-se que é gente do trabalho, humilde, que passaram dificuldades. Toda
a gente tem respeito pelos comunistas. Mas são o que são. E são uma família e
têm uma história. É mais do que um partido. É quase uma religião. Basta ver a
Festa do Avante!
O que é um bom acordo?
Para garantir e evitar riscos, têm de
estar no Governo o PCP e o BE. Não é ficarem de bancada a deixarem o PS sozinho
a governar. Já o disse na Comissão Política do PS. Nós na Saúde e na Educação é
fácil entendermo-nos com eles, na Economia e Finanças é que não. E é isso que
me preocupa. É que no acordo parece que só se fala em Economia e Finanças. Em
Economia e Finanças não há conversa, porque o PS não pode ter uma agenda no
Governo próxima do PCP, o PS tem que ser amigo das empresas, do investimento
estrangeiro, do investimento nacional.
Mas Economia e Finanças é o que está a ser
acordado.
O que é fácil acordar, facílimo, é para o
PCP a pasta da Segurança Social ou da Saúde. E dar ao BE a Educação e a
Cultura. Até gostava de estar enganado e que pudesse ser um bom Governo. Já
ouvi notícias de que iam aumentar o IRC, o programa defende é não continuar a
descer o IRC, aumentar o IRC é dizer ao investimento estrangeiro: vai-te
embora, é uma irresponsabilidade. O bom acordo só pode ser um acordo em que o
programa económico e financeiro é o do Mário Centeno, cedendo na TSU e nas leis
laborais - eu já tinha criticado a TSU no partido. E comprometendo-os na
Segurança Social e na Educação. Mas sou clarinho. A Educação não pode ser para
o PCP, o PCP já há muitos anos que controla o Ministério da Educação através do
Sindicato dos Professores. Eu acho que a tentativa do PCP para fazer um acordo
de Governo tem dois objectivos: infiltrar o aparelho de Estado e impedir a
privatização dos transportes públicos, que é a sua base sindical. Como sabem eu
defendo que o Estado tem de estar na Saúde, na Educação, na Segurança Social, mas
não acho que os transportes públicos tenham de ser do Estado. O Estado não vai
poder estar em tudo, não vai ter dinheiro.
Sempre defendeu um SNS público, universal
e tendencialmente gratuito. Não faz mais sentido essa defesa com a esquerda, em
vez da direita?
Mas é preciso dizer, já agora, que as
políticas à direita na Saúde não começaram com este Governo. Começaram com o
PS. Eu sou contra as Parcerias Público-Privadas. Na Saúde, o PS criou um
sistema em que grupos privados gerem hospitais públicos. E isso, eu sou contra.
O que não quero é um Governo à esquerda para continuar uma política de
meias-tintas. O que eu não posso acreditar, nem aceitar, é que possa haver um
acordo em que, na área económico-financeira cede ao PCP e BE e na Saúde e
Educação se continue com esta coisa, à boa maneira portuguesa, do Estado a
financiar escolas privadas e o sistema privado de Saúde, através da ADSE e
afins. Podemos fazer um Governo à esquerda mas com políticas de esquerda na
Saúde, na Educação, Segurança Social e mais ao centro na Economia e nas
Finanças. Eu sou um socialista liberal. Em 1990, fiz uma lista ao Congresso do
PS que se chamava Ala Socialista Liberal, inspirada num senhor chamado Norberto
Bobbio, que na altura nenhum dirigente do PS conhecia. Ir buscar o melhor do
socialismo democrático e o melhor do liberalismo político. Foi essa a
antecâmara da terceira via. Só depois é que surgiram o [Tony] Blair e o
[António] Guterres. Guterres inspirou-se em John Rawls e o Blair inspirou-se em
Anthony Giddens, que também era terceira via. Eu sou o que era em 1990. E acho
que é isso que o PS sempre foi. O PS sempre foi, verdadeiramente um partido
socialista liberal.
Acha que a marcação da Comissão Nacional
para sábado foi para esvaziar o almoço da corrente alternativa?
Existe aquele ditado do “não acredito em
bruxas, mas que as há, há”. Mas isso é o menos importante. Não há aqui partidos
paralelos. Pedimos mais debate mas também já disse que não basta uma Comissão
Nacional. Tem de haver um referendo. E estou a admitir já que perderia o
referendo. Não tenho dúvidas que a maior parte do PS quer ir para o Governo. É
um partido de Governo e a tendência natural é querer ir para o Governo. Só que
esquecem que ser Governo a qualquer custo pode ter um custo muito maior a
seguir. Pode-nos prejudicar para muitos anos. Esse é o meu medo, o medo da
vacina. Mas as pessoas estão inebriadas, estão cheias de vontade, parecem
adolescentes com o poder. Eu, como já tenho alguns cabelos brancos, talvez seja
mais prudente.

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