FRANCISCO ASSIS 29/10/2015 - in: Jornal público
O PS, como já aqui o referi na semana
passada, não pode deixar-se aprisionar por compromissos impeditivos da
prossecução de uma acção reformista de que o país notoriamente carece.
1. A comunicação presidencial da semana
passada teve, entre outras, a consequência nefasta de consolidar a ideia de que
ao longo dos últimos 40 anos se viveu num regime de apartheid político com a
exclusão dos partidos situados à esquerda do PS. Com o apoio activo de alguns
sectores do Partido Socialista – nuns casos por pura má-fé, noutros por
manifesto desconhecimento da nossa história democrática – os partidos da
extrema-esquerda têm vindo a impor a tese segundo a qual foram objecto de uma
ostensiva marginalização parlamentar de carácter não democrático. Ora isso pura
e simplesmente não é verdade. E não só não é verdade, como constitui um
monumental embuste directamente filiado na tradição leninista e estalinista de
falsificação primária dos fenómenos históricos. Que aqueles que ainda hoje se
reconhecem nessa tradição política se dediquem a tais práticas não pode
constituir motivo de especial surpresa; que haja sectores do Partido Socialista
dispostos a aderir acriticamente a tal tipo de procedimentos e até a
participarem entusiasticamente neles já é razão para uma reacção indignada. O
conceito de “arco da governação” nunca teve, da parte de quantos perfilham os
princípios e valores de natureza demo-liberal, um significado ontológico ou
sequer normativo. Tão-pouco ele resultou de uma vontade premeditada de exclusão
de quem quer que fosse do debate político nacional. E de tal forma assim foi
que em bom rigor essa exclusão jamais se verificou. Senão vejamos: os deputados
do PCP e do Bloco de Esquerda – uns logo desde o início da Segunda República e
os outros mais recentemente – contribuíram para a tomada de decisões
parlamentares da maior relevância pública. Foram determinantes para derrubar
governos, concorreram para a aprovação de legislação de inegável importância,
participaram activamente no processo de fiscalização da acção executiva. Carece
por isso de qualquer fundamento a proclamação em voga de que esses partidos vão
agora ser resgatados a uma espécie de condição de clandestinidade parlamentar a
que estariam votados.
Ao longo destes 40 anos a extrema-esquerda
estabeleceu como verdade axiomática o princípio de que a direita começava na
sua própria fronteira e que, no fundo, não haveria substanciais diferenças
entre o PS, o PSD e o CDS-PP. Recordemos como fundamentavam tal afirmação. No
25 de Novembro, o PS, aliado à direita e a sectores conservadores das forças
armadas, tinha interrompido um processo revolucionário destinado à edificação
de uma verdadeira sociedade socialista; ao liderar o processo conducente à
adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, o PS desvelava a sua
genuína natureza de partido empenhado na consolidação de um modelo de sociedade
situado nos antípodas do modelo autoritário e colectivista preconizado pelos
seguidores da ortodoxia leninista pró-soviética; ao participar activamente em
sucessivos processos de revisão constitucional, visando a depuração da lei
fundamental de uma ganga pró-marxista manifestamente alheia aos caminhos
democraticamente escolhidos ao longo de sucessivos actos eleitorais, o PS foi
identificado com os adversários dos “valores de Abril”.
Perante tudo isto não é de espantar que a
extrema-esquerda nunca tenha votado senão contra todo e qualquer projecto de
Orçamento do Estado apresentado pelos vários governos socialistas e nunca tenha
manifestado a mais ligeira aproximação sempre que estiveram em causa votações
relacionadas com a adesão e participação de Portugal no projecto europeu. Bem
pelo contrário. Nessas ocasiões usaram de uma retórica extremista com o intuito
de apoucar as legítimas opções feitas pelo Partido Socialista. Fizeram-no
impiedosamente, atacando o esforço bem sucedido de construção e ampliação do
Estado social que constitui património da nossa democracia e factor de promoção
da liberdade e da igualdade. Como tal, só é possível extrair uma conclusão
séria: a extrema-esquerda parlamentar optou deliberadamente – com uma
legitimidade, de resto, inatacável – por um acantonamento político impeditivo
de qualquer participação não só na esfera estrita da governação, como no
horizonte mais vasto de definição das grandes prioridades nacionais. Não foi
excluída: auto-excluiu-se em nome da fidelidade a um modelo de regime e de
organização económica e social claramente repudiado pela maioria dos cidadãos
portugueses. Tentar inverter a situação releva de despudorado cinismo político.
Seria bom que alguns actuais deputados do Partido Socialista que andam por aí
levianamente a proferir barbaridades olhassem com mais rigor para a história do
partido que conjunturalmente representam.
![]() |
| Falsificação de fotografias na antiga União Soviética |
2. Há quem, mesmo reconhecendo todas estas
divergências passadas e não embarcando nesta operação de falsificação
histórica, saliente como muito positiva a possibilidade agora entreaberta de
celebração de um acordo governativo de incidência parlamentar entre os vários
partidos da esquerda. Um dos argumentos mais respeitáveis que têm sido
utilizados é o de que só com esta aliança será possível garantir a preservação
do Estado social, o qual se teria transformado num alvo prioritário a abater
por parte dos partidos da direita. Se no passado, em nome da defesa da
liberdade e da consolidação da democracia representativa, se justificara um
entendimento preferencial com esses partidos, agora, pelo contrário,
dever-se-ia privilegiar um diálogo à esquerda em nome do princípio premente da
igualdade. O argumento enferma pelo menos de duas insuficiências notórias. Desvaloriza
absolutamente a importância das divergências permanecentes à volta de questões
tão importantes como a política europeia e desconsidera a necessidade de
adopção de políticas económicas centradas na preocupação de atracção do
investimento e do estímulo à iniciativa empresarial. O PS, como já aqui o
referi na semana passada, não pode deixar-se aprisionar por compromissos
impeditivos da prossecução de uma acção reformista de que o país notoriamente
carece. Essa acção reformista tem de se manifestar desde logo no âmbito do
Estado social como condição necessária à sua salvaguarda. Basta recordar como a
extrema-esquerda reagiu aos ímpetos reformadores exibidos por Correia de Campos
e por Maria de Lurdes Rodrigues nas áreas da Saúde e da Educação para percebermos
o alcance desta afirmação. Como se sabe, ambos foram acusados de tenebrosos
intentos neoliberais, quando apenas visavam garantir a viabilidade e a
modernização do Estado social nas áreas que tutelavam. Nessa altura, pelo
menos, a separação de águas era clara.
No ambiente de crispação que estamos a
viver é difícil impor os pontos de vista de quem continua a pensar que é ao
centro que se podem alcançar os entendimentos verdadeiramente virtuosos de que
a sociedade portuguesa precisa. Não é isso, porém, razão para desistirmos de
lutar por aquilo que estamos convencidos ser o caminho mais correcto a trilhar
por um partido de centro-esquerda como é o Partido Socialista.
Comentário




Sem comentários:
Enviar um comentário