Depois de António Costa ter usurpado o
poder ao legítimo secretário-geral do PS, António José Seguro, Álvaro Beleza
numa entrevista posterior ao jornal i,
afirmava: “ António Costa representa o regresso de muito do que foi José Sócrates”
(pp. 24-27).
Não foi por acaso que referimos esta
passagem da entrevista. A forma como José Sócrates conquistou o poder em 2005 é
conhecida de todos. A sua governação teve derivas estalinistas, fundamentadas
na obra de Maquiavel (e Costa foi o seu braço direito). Há milhares de
portugueses ainda hoje a sofrerem as consequências dessa deriva, por terem sido
impedidos de prosperar e, nalguns casos, impedidos de expressarem as suas
opiniões.![]() |
Maquiavel |
Na verdade, na sua obra O Príncipe, Maquiavel reflectiu sobre a
fórmula da manutenção de um poder estável. E concluiu que toda a acção politica
deve estar orientada para a conquista e conservação do poder. Para atingir esse
fim, qualquer meio é válido. O príncipe não deve ser bondoso se a situação o
exigir, porque é necessário actuar de forma imoral com muito mais frequência do
que o contrário. Provocando a consternação dos seus contemporâneos, escreveu: “..um
príncipe, pelo menos aquele que aceder pela primeira vez ao poder, não deve
proceder de acordo com o que as pessoas consideram correcto, pois em muitas
ocasiões ver-se-á obrigado – a fim de assegurar o poder – a agir contra a
lealdade, a misericórdia, a compaixão e a religião”. Ou seja, o contrário
daquilo que a tradição atribui a um governante: as virtudes cardeais;
sabedoria, equidade, força e temperança.
O príncipe não deve preocupar-se com a
opinião do seu povo, deve dominar a arte da dissimulação, sabendo agir sem
escrúpulos, sendo hipócrita, sabendo mentir, negar e faltar à sua palavra. No campo da literatura o exemplo clássico
do príncipe que aprendeu esta lição é o do príncipe Henrique, personagem de
Henrique IV do drama histórico de Shakespeare.
Maquiavel conhecia pouco os Gregos, apenas
faz referências na sua obra a Aristóteles. Insiste mais nos romanos Tito
Lívio e Políbio.
Assim sendo, interessa saber como
Maquiavel se diferencia dos grandes mestres clássicos, designadamente de
Aristóteles e Platão.
Na verdade, no livro V da Politica,
Aristóteles aconselha os déspotas sobre os métodos destinados a manter o poder,
tema que aborda consistentemente no Capitulo XI. É frio e científico: morte aos
homens de espírito, espionagem, dividir para reinar, desconfiar dos apoiantes,
sem descurar desenvolver uma imagem que inspire louvor da parte dos cidadãos.
Contudo, há que diferenciar o politico
italiano de Platão e Aristóteles. Este deduz a Politica da Ética e aquele
afadiga-se na busca da justiça e do Estado que a realize [embora no Livro II da República, coloque na boca de Glaucon palavras de
pouca esperança no destino dos governantes justos, assumindo pessoalmente o uso
da mentira real, uma senda incoerente para que deste modo os cidadãos se
mantenham felizes com as circunstâncias do governo]. Já Maquiavel tem
como objectivo o triunfo, sem cuidar da origem e necessidade do Estado.
Julgamos que o politico italiano terá sido
seduzido por Sófocles. Pela sua impressionante tragédia, Filoctetes, e por um
dos seus três personagens principais: Ulisses
Quais são as ideias principais do
Príncipe? A conquista e conservação do poder a qualquer custo, sendo válido
qualquer meio.
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| Sófocles |
Perante a estranheza de Neoptólemo, que
considera uma desonra mentir para alcançar determinados fins, Ulisses
apressa-se a responder que não há desonra “se a mentira nos traz a salvação”
(v.109). E acrescenta depois da estupefacção de Neoptólemo: “Quando se age para
nosso interesse, não se deve hesitar” (v. 111). Quando Neoptólemo recusa aderir
ao plano, diz-lhe: “… entre os mortais, são as palavras, e não as acções, que
conduzem tudo” (v. 99). E dirige-lhe conselhos sub-reptícios: “Eu sei, meu
filho, que não é da tua natureza falar assim, nem tecer armadilhas. Mas tem
coragem, porque é agradável alcançar a vitória. Depois disto se verá outra vez
a nossa justiça. Agora põe-te ao meu dispor pelo curto espaço de um dia, para
agir sem escrúpulos: depois, durante o resto da vida, podem considerar-te o
mais honesto de todos os mortais” (vv. 79-85).
São palavras capciosas e sofísticas de
quem põe os seus interesses acima de tudo. Ele próprio se apresenta como a
pessoa que a circunstância exige (v. 1049). Sem escrúpulos de moral, justiça ou
honestidade. Apenas as circunstâncias do momento norteiam a sua actuação.
Ulisses é, assim, o símbolo do poder injusto e tirânico, que tritura e reduz
quem apanha no caminho e se lhe opõe. A vontade das pessoas não conta. São
obrigadas a obedecer e a submeter-se. Ulisses não recua perante a falsidade, a
traição e a violência. Para persuadir Filoctetes (Cujo abandono injusto na ilha
de Lemmos tinha sido, em parte, da sua responsabilidade), agiu traiçoeiramente,
pelo engano, pela mentira e pela intriga. A justificar todos os seus actos
invoca o interesse e a utilidade, chama a razão de Estado, (vv. 989-990). E
sabe explorar o desejo de fama do jovem Neoptólemo, demonstrando-lhe com
argumentação capciosa que só pela astúcia seria possível levar Filoctetes a
embarcar (vv. 107-116). É já Neoptólemo que conclui: “Temos então de o apanhar,
se assim é” (v. 116) e acrescenta: “Seja. Assim farei, pondo de lado qualquer
escrúpulo” (v.120).
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| Presidente da República Portuguesa |
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| Cícero no Senado Romano |
Quase 2300 anos após o escrito de
Sófocles, Edmund Burke dizia: “Aqueles que se embriagaram com o poder e se
aproveitaram dele, mesmo por um ano, nunca renunciarão a ele de livre vontade”.
Estaria Burke a profetizar os futuros
Costas?
Armando Palavras
Actualizado a 30 de Outubro.





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