![]() |
| Vasco Pulido Valente - Jornal Público |
Vinte e cinco anos depois da
queda do Muro, o romantismo político voltou. Para ficar
A gente vária e geralmente
analfabeta que manda na televisão e nos jornais decidiu que o debate entre o
dr. António Costa e Passos Coelho seria decisivo para a campanha e,
naturalmente, para a eleição. Claro que não foi. Foi um espectáculo no Museu da
Electricidade, caótico e repetitivo, que não “esclareceu” ninguém.
Cada um dos candidatos
representou a personagem que lhe estava destinada – António Costa a de chefe
popular com um programa debaixo do braço e de quando em quando uma ocasional
berraria; e Passos Coelho a de estadista paciente e sereno que mete na ordem um
secretário de Estado incómodo. Os portugueses parece que gostaram mais de Costa
do que de Coelho, porque detestam a autoridade e gostam de lhe assobiar às
canelas do outro lado da rua.
Do essencial não se falou.
António Costa não se permitiu explicar com que dinheiro vai emendar as
desgraças do seu pobre país – ponto que também não interessou aos jornalistas
que alegadamente “dirigiam” o debate. E Passos Coelho também não se deu à
excessiva franqueza de nos confessar o que se propunha fazer do país nos
próximos quatro anos. Nada disto espanta. Os portugueses só têm uma pergunta na
cabeça: vamos ficar pior com o dr. Costa ou com Passos Coelho? Pelas cenas do
Museu da Electricidade, ficou a impressão de que o público que gosta de
engenharia social (e Costa levou rolos de papel com os planos todos) simpatizou
mais com a aventura tradicional da esquerda: a de partir alegremente com um
mapa errado para sítio incerto. Em compensação, a horrenda espécie de criaturas
que não se mete em sarilhos sem contar o dinheiro muito provavelmente preferiu
Passos.
Acabado este intermédio, que
pouco se distinguiu do concerto de uma banda qualquer, a zaragata irá
continuar. Os candidatos e a sua tropa pregarão a sua mezinha, insultarão o
próximo e, jurando que não prometem, continuarão como de costume a prometer,
perante a indiferença do cidadão comum. O grosso do eleitorado ficará em casa,
olhando com indiferença o desvario do pequeno bando que nos quer governar. Nós,
por acaso, sabemos que o protectorado de Bruxelas não acabou e que uma crise
nos mercados financeiros pode arruinar num minuto os mais perfeitos sonhos de
homens e de ratos. Vinte e cinco anos depois da queda do Muro, o romantismo
político voltou. Para ficar.

Sem comentários:
Enviar um comentário