quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Barroso da Fonte a propósito de José Sócrates - Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele




Barroso da Fonte
Estribado na minha longa carreira de jornalista que em 61 anos de exercício permanente me deu algumas satisfações em troca de muitas  arrelias e não poucos desenganos, vou  de encontro àquilo que acabo de ler no JN de 31 de Julho último, na página 4. «José Sócrates suspeito no caso Monte Branco? A notícia que faz capa da revista «Sábado», irritou solenemente o ex-primeiro ministro, que correu para a RTP1 para dar a sua versão e expressar indignação. Quando chegou aos estúdios da televisão pública, já a Procuradoria-Geral da República tinha emitido um comunicado no intuito de garantir a «tranquilidade pública: esclarece-se que José Sócrates não está a ser investigado nem se encontra entre os arguidos no Processo Monte Branco».
  Avisado pela obrigação de ler as 6 páginas da Revista Sábado, da mesma data, para ajuizar da pressa que a televisão pública teve em privilegiar o cidadão em causa, escancarando-lhe os holofotes e altifalantes e desrespeitando a sequência da programação, reparei na página 7 da revista que «José Sócrates não quis comentar à Sábado o facto de ser um dos suspeitos no caso Monte Branco».
  Sabem os jornalistas profissionais que são sérios, isentos e respeitadores da deontologia informativa que, quando um órgão de comunicação social edita uma notícia que refere directamente pessoas ou instituições públicas ou privadas, acerca de temática que tem a ver com o carácter dos visados, devem os jornalistas fazer tudo por tudo, para obterem e publicarem  a versão daqueles no órgão, onde são visados. Sempre que possível na mesma página, com igual relevo e acerca do mesmo contexto. Caso o visado não possa ser contactado ou não queira dar qualquer explicação, assiste-lhe o direito de resposta na edição seguinte para o que dispõe de igual espaço, igual relevo, idêntico grafismo e, gratuitamente, a não ser que a resposta ultrapasse o espaço onde saiu a notícia que o ofendeu. Nesse caso terá que pagar o espaço a mais, ao preço da publicidade do Diário da República.  Ora, José Sócrates, a crer na Sábado, não quis comentar a suspeita que lhe era imputada na capa e repetida na página 40. A afirmação contida no título não passava de uma pergunta. E perguntar não ofende. Com qualquer outro cidadão – e os casos congéneres repetem-se todos os dias, em todos os órgãos e com todo o tipo de pessoas -  esse tratamento vip não teria acontecido.
 O ex-primeiro ministro, uma vez que se negou a comentar a insinuação, nesse número da revista, dispunha da Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) que foi aprovada no seu Governo, para exigir que a Sábado lhe concedesse as mesmas seis páginas, mais a capa da revista para se explicar. A esse dever se chama o direito de resposta. Mas não esperou a televisão pública por esse direito que deveria ser exercido na Sábado e não na RTP. Doravante qualquer cidadão ofendido pode exigir esse direito à RTP1: escancarar os ecrãs e os microfones, para se inocentar. Foi, declaradamente, um uso e um abuso insólito, tendencioso e a merecer sanção disciplinar contra a televisão pública.
 Também a  própria Procuradoria-Geral da República fez logo saber, que José Sócrates não só não estava a ser investigado, como nem sequer era suspeito na Rede do Monte Branco. E que o fazia «no intuito de garantir a «tranquilidade pública». Pergunta-se: esse cuidado existe para com qualquer cidadão – e são milhares por esse país fora -  ou apenas para com o cidadão José Sócrates?
 Quem anda atento ao que se passa em Portugal com a Justiça, ainda se recorda daquele artigo que Marinho e Pinto publicou no JN, em 17 de Junho de 2013,  sobre Noronha Nascimento: «é daquelas pessoas que não olha a meios para atingir os fins». Esse artigo intitulado «A mulher de César», reportava-se à decisão de, na qualidade de Presidente do Supremo Tribunal de Justiça «ter mandado destruir as escutas de José Sócrates no Processo Face Oculta». Marinho Pinto relaciona essa decisão com o facto de «José Sócrates ter arranjado um emprego, num organismo do Estado, ao filho de Noronha Nascimento». Basta consultar a imprensa dessa data. E não consta que Marinho Pinto fosse desmentido ou responsabilizado...
Há mais, muito mais, em torno deste tipo de atitudes singulares que tendem sempre para o mesmo lado: proteger os graúdos, em detrimento dos miúdos, o que se lamenta em democracia.
Invoco a minha qualidade de Jornalista profissional, com 61 anos de luta porfiada, antes e depois do 25 de Abril de 1974, para me indignar contra a RTP e contra o favoritismo, protagonizado numa afronta aos direitos e deveres, que são universais e devem ser exercidos, com equidade, oportunidade e bom senso. Enquanto esses direitos não forem democraticamente alterados, a RTP não pode, nem deve branquear uns e acusar outros, em situações idênticas. Já bastou o maior escândalo nos últimos anos da actual direcção de programas da RTP: convidar esse mesmo político para comentador residente, em espaço nobre da televisão pública . Essa benesse mediática, declaradamente ostensiva, visivelmente capciosa e, tremendamente, anti-democrática,  constituiu uma afronta ao normal exercício do direito de formar e de informar. Essa afronta prossegue.
 É por estas e por outras que a democracia agoniza, que a república apodrece e a política fede.
                                                                                     Barroso da Fonte


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