quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O Trilho - inédito de Abílio Bastos


Enviado por
Jorge Lage
 O Trilho

Partiu sem luar e a noite apagou-lhe o trilho.
Levava consigo retratos de tristes memórias,
Entrava num trem, não via ninguém, sentou-se a janela,
De  braços cruzados e olhos fechados, pintava uma tela
Com lindas flores de cravos amores, era o rosto dela.

A fome acordou-o e ele deixou o trem a noitinha.
A lua já esperava por ele, deitada ao longo da linha.
Ao raiar do dia, alguém lhe dizia:
- Bonjour monsieur! Il fait froid!
Era um menino lindo, filho do Padeiro de Condat...

Cheirava-lhe a pão, ao sol e ao chão ele prometia...
Deixar a idade nas ruas estreitinhas daquela cidade...
Num jardim com flores, numa ponte, num rio e num Pelourinho...
Numa igreja linda aberta para todos ao rés do caminho...

Mais tarde…

Regressou sem frio, sem medo, mas com tempestade.
Ao passar pelo rio encontrou a idade, saltaram pró mar
Numa onda gigante voou direito ao seu trilho.
Trazia nas asas o sol e pão para cada filho...

Partiu sem luar, mas a noite guardou-lhe o trilho.

(inédito de Abílio Bastos,  1970)


Nota: É um amigo meu, desde o momento que o conheci. Nasceu em Abadim - Cabeceiras de Basto e
 a sua história de vida é muito invulgar. Um destes dias fomos visitar uma exposição do Escultor Jorge 
Ulisses e o Abílio pegou numa das guitarras, obras-primas deste ilustre escultor, ajoelhou e cantou, pela
 primeira vez este poema para mim. Lembrei-me da adufeira de Idanha-a-Velha que fez o mesmo na 
Guarda. Um e outra de forma espontânea. O Abílio, em Agosto de 1969, partiu de Abadim a pé, com 
a saquita da roupa e uma côdea, até Vilar de Perdizes, onde o recebeu um passador da Gironda – 
Ourense, e o meteu no comboio em Ourense. O cansaço venceu-o e acordou na fronteira de Hendaye. 
Continuou no trem até Bordéus e chegou à «village» já noite. A cena do filho do padeiro, o regresso no 
ano a seguir e o salto até Nova Iorque onde, como sábio carpinteiro ganhou a vida e o pão para cada 
filho. Neste poema, com uma música de saudade, pretendo homenagear os nossos amigos emigrantes.
 Umas boas férias!

Jorge Lage – jorgelage@portugalmail.com – 05JUL2014





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