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| COSTA PEREIRA |
Os biscoitos eram uns pães negros, feitos de farinha
de trigo, que os marinheiros, no tempo das Descobertas, levavam nas caravelas
para se alimentarem. Quando da descoberta, ou do inicio do povoamento, chegaram
à Terceira os primeiros colonos, uma das surpresas foi encontrarem o solo
coberto de fragmentos de rocha com a cor e feitio do biscoito. Perante o fenómeno até deram o nome de "Mistério
Negro" a uma das principais elevações montanhosas da ilha, e a designação
de "biscoitos" a todo o tipo de rocha vulcânica. A última freguesia
do concelho da Praia da Vitória que, no sentido da costa Norte e no percurso à
volta da ilha, vai confrontar com o de Angra do Heroísmo, na freguesia dos
Altares, tomou a designação de Biscoitos para
si, topónimo cuja origem fica conhecida . É um lugar digno de ser visitado que
foi " tornado freguesia em meados do
séc. XVI, e desde logo um local de
veraneio das populações da ilha". Com igreja antiga, consagrada a São
Pedro, tem desde a década de 60 do passado século, mais outro templo, de
moderna arquitectura, dedicado ao Imaculado Coração de Maria. Famosa pelo seu
"verdelho" cuja história localmente pode e dever ser apreciada no
didáctico Museu do Vinho, da família Brum, a freguesia dos Biscoitos, com 1.425
habitantes, para além do vinho, tem actualmente na agro-pecuária e na produção
de boa fruta um verdadeiro tesouro rural. Também no domínio da pesca, o porto
dos Biscoitos é considerado o mais importante da costa Norte da ilha, e junto
dele vai "crescendo uma das mais
agradáveis e conhecidas zonas balneares com
diversas áreas de banho aproveitadas entre as rochas (de biscoitos), formando
belas piscinas naturais".
Isto, ao que se diz, em prejuízo da vinha do "verdelho", cuja cepa se
crê, em relação à do "americano", ser a mais antiga introduzida pelos
povoadores na ilha, que está sendo ameaçada pela desenfreada procura de
terrenos para construção, pondo em risco a cultura desse vinho nos locais a
urbanizar. Ao mesmo tempo que vem descaracterizar a paisagem mais típica da
freguesia e da ilha Terceira. Como o verdelho, também, quanto a nós, a produção
do "americano", o vinho de
cheiro, por tão afamado no tempero gastronómico da ilha, devia ser
autorizado comercializar, ainda que só para aquele específico fim. É um assunto
a ponderar por parte de quem de direito.
E finalmente, para encurtar distância, vamos subir
daqui pela Canada do Caldeira com destino a Angra, a fim de nos despedirmos da,
ainda agora, mais portuguesa terra açoriana, se tivermos em atenção o facto de
nos arredores da cidade se situar o palácio e o Gabinete do Ministro da
Republica. São uns 18 km. de boa estrada que, de norte para sul e rompendo pela
florestada encosta do vulcânico Mistério
Negro, vamos percorrer, atravessando por entre os picos Gordo (622m) e do
Fogo (519m), o coração montanhoso da ilha. Aqui no interior do
"sertão" predomina o gado bravo
ou de touradas e que nada tem a ver com o gado
de trabalho típico do Ramo Grande
- uma raça bovina muito corpulenta e rústica, de cor avermelhada, em alguns
casos sarapintada de malhas amareladas ou brancas, a fazer lembrar a raça
barrosã e mirandesa -, nem tão pouco com o gado
leiteiro que a certas horas do dia invade estradas e caminhos da ilha em
direcção aos postos de ordenha mecânica, e ao qual os açorianos pacientemente
dão a prioridade de circulação, como aliás o fazem na cidade ou povoações, em
relação aos peões e viaturas circulantes, num rigoroso respeito e cumprimento
pelas regras do trânsito. Neste aspecto, os continentais têm muito que aprender
com os terceirenses, em termos de educação e civismo. Em Angra, o momento de
partir aproxima-se. Há que aprontar as malas e pela bem delineada via rápida
que separa o "miradouro da Memória" do "miradouro do
Facho", após um percurso de cerca de 24km, atempadamente chegar ao
Aeroporto das Lages. Depois, em vez de barco, "embarcar" em seguro
avião da TAP- Air Portugal de regresso à capital, Lisboa. Mas antes saudar uma
população hospitaleira, laboriosa, ordeira , alegre e feliz que ao longo dos
séculos se tem sabido adaptar à evolução das técnicas e às circunstâncias daí
resultantes. Parcela geográfica que com as demais forma o arquipélago açoriano,
desde 1976 designado por Região Autónoma dos Açores, a ilha Terceira que outrora
foi cerealífera, depois produtora de pastel, de vinho e de laranja é hoje um
potencial económico na área da agro-pecuária e lacticínios, com cerca de
100.000 vacas leiteiras a pastarem. Também na actividade pesqueira foi e é muito importante, mas já o foi mais antes
de ser proibida a faina baleeira, onde no Negrito (Angra) teve grande impacto.
Quanto a praias, como poucas são as de areia fina, o problema daquelas com
"areia de quilo ou de quilos" está resolvido mediante um inteligente
aproveitamento dos espaços côncavos que na superfície rochosa, ao longo da
orla, o mar moldou e alimenta, transformando esses locais em convidativas zonas
de banho e lazer (as afamadas piscinas naturais) ao serviço do turismo
balnear. É este, prezados leitores, o
esboço feito à volta de um pedaço de Portugal suspenso no alto mar, que dou por
concluído, convidando quem poder a deslocar-se até lá para ver, apreciar e confirmar in loco. ()
Bibliografia:
Açores
Natureza Viva (Guia), da Clássica
Publicações - Ponta Delegada.
Terceira, de José
António Graça Vieira, da Clássica Publicações- Ponta Delegada.
Portugal no
Mundo (Séculos XII-XV), das Selecções
do Readers Digest
Desdobráveis, da Direcção Reçãogional
de Turismo dos Açores - Delegação de
Turismo da Terceira
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