“No centro de Tondela, vila muito arborizada, de
aspecto fresco e lavado, o Caramulo aparecia na sinalização da rota. Voltaram à
esquerda, pelo ramal que apontava ao Campo de Besteiros e à Estância. Notando a
leveza do fato, Ramiro cobriu-se com a gabardina e aconchegou-se mais no seu
canto”.
…
“- Está a ver, lá no cimo? É o Caramulo. O prédio
maior, ao centro, é o Grande Sanatório. Existem muitos outros, mas o Grande tem
melhores condições. Vai sentir-se lá bem”.
…
“Divisava-se ao alto, talvez a uma légua em linha
recta, velada por névoa ténue que não permitia destrinça de pormenores”.
…
“ Do Campo de Besteiros, na falda da serra daquela
banda de nascente, a Estância sugeria curioso presépio, e viam-se agora
perfeitamente as moradias e os sanatórios escalonados até quase ao topo da
montanha, cujos cerros austeros e caprichosos lhe formavam imponente moldura.
Belo cenário!”.
…
“Coado por novelões de nuvens dispersas até aos cumes
da serra, o sol, froixo e deslarado, não depunha em favor do Verão, que o
calendário anunciava para daí a uma semana.
Engoiado na gabardina, Ramiro admirou primeiro a
empena sóbria do santuário e voltou-se depois na direcção de Besteiros,
lançando a vista pelo horizonte distante: uma interminável sucessão de
discretos povoados sobressaiam da verdura dos pinhais que em largos retalhos se
estendiam até à Estrela, levando qual fantasma entre o céu e a terra, como se
atestasse ao infinito a grandiosidade telúrica e aos olhos dele, enfermo e
desterrado, a mesquinhez da dimensão humana”.
Estes excertos fazem parte de uma crónica romanceada
sobre o Caramulo, de autoria de António Passos Coelho, escritor transmontano.
Narrativa deslumbrante (em 522 páginas) sobre os tempos em que a serra do
Caramulo, outrora o pulmão de Portugal, era procurada por quem padecia de males
respiratórios. Era aí que se curavam os doentes da tísica. E o primeiro
sanatório entrou em funcionamento em 1922.
A narrativa de A. Passos Coelho, conta-nos a história
de Ramiro que procura o Caramulo para se curar da tísica. Acaba por se formar
em Medicina, e é nesse sanatório da serra que se apaixona por Marta. Uma
história empolgante.
Quem hoje vai ao Caramulo, já não encontra o Paraíso
que Ramiro e Marta encontraram. Encontra um silêncio desolador, o ar
contaminado e o negro em vez do verde.
Casas queimadas sobressaem no longínquo horizonte, e a
cada passo se tropeça com animais mortos.
É uma dor de alma! Quem conheceu o verde do Caramulo,
hoje parece viver no “dia depois”.
Armando Palavras



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