quinta-feira, 5 de setembro de 2013

CARAMULO: o dia depois do Inferno






“No centro de Tondela, vila muito arborizada, de aspecto fresco e lavado, o Caramulo aparecia na sinalização da rota. Voltaram à esquerda, pelo ramal que apontava ao Campo de Besteiros e à Estância. Notando a leveza do fato, Ramiro cobriu-se com a gabardina e aconchegou-se mais no seu canto”.
“- Está a ver, lá no cimo? É o Caramulo. O prédio maior, ao centro, é o Grande Sanatório. Existem muitos outros, mas o Grande tem melhores condições. Vai sentir-se lá bem”.
“Divisava-se ao alto, talvez a uma légua em linha recta, velada por névoa ténue que não permitia destrinça de pormenores”.
“ Do Campo de Besteiros, na falda da serra daquela banda de nascente, a Estância sugeria curioso presépio, e viam-se agora perfeitamente as moradias e os sanatórios escalonados até quase ao topo da montanha, cujos cerros austeros e caprichosos lhe formavam imponente moldura. Belo cenário!”.
“Coado por novelões de nuvens dispersas até aos cumes da serra, o sol, froixo e deslarado, não depunha em favor do Verão, que o calendário anunciava para daí a uma semana.
Engoiado na gabardina, Ramiro admirou primeiro a empena sóbria do santuário e voltou-se depois na direcção de Besteiros, lançando a vista pelo horizonte distante: uma interminável sucessão de discretos povoados sobressaiam da verdura dos pinhais que em largos retalhos se estendiam até à Estrela, levando qual fantasma entre o céu e a terra, como se atestasse ao infinito a grandiosidade telúrica e aos olhos dele, enfermo e desterrado, a mesquinhez da dimensão humana”.


 

Estes excertos fazem parte de uma crónica romanceada sobre o Caramulo, de autoria de António Passos Coelho, escritor transmontano. Narrativa deslumbrante (em 522 páginas) sobre os tempos em que a serra do Caramulo, outrora o pulmão de Portugal, era procurada por quem padecia de males respiratórios. Era aí que se curavam os doentes da tísica. E o primeiro sanatório entrou em funcionamento em 1922.
A narrativa de A. Passos Coelho, conta-nos a história de Ramiro que procura o Caramulo para se curar da tísica. Acaba por se formar em Medicina, e é nesse sanatório da serra que se apaixona por Marta. Uma história empolgante.




Quem hoje vai ao Caramulo, já não encontra o Paraíso que Ramiro e Marta encontraram. Encontra um silêncio desolador, o ar contaminado e o negro em vez do verde.
Casas queimadas sobressaem no longínquo horizonte, e a cada passo se tropeça com animais mortos.
É uma dor de alma! Quem conheceu o verde do Caramulo, hoje parece viver no “dia depois”.
Armando Palavras



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