domingo, 28 de abril de 2013

A Mascote


 “Os soldados fuzilaram a minha mãe. Enfiaram a baioneta no meu irmão e na minha irmã. Gritei e depois mordi a mão para me controlar”



No silêncio da noite, os nazis entraram na sua casa. A mãe escondeu-os debaixo da saia, a ele (com cerca de seis anos) ao irmão mais novo e à irmã ainda bebé. Foi açoitada com bastões, destruíram-lhe a casa, mas aguentou em silêncio para proteger os filhos. Depois de os soldados saírem, a chorar baixinho, cantava para os pequenos adormecerem. E disse: “Vamos morrer todos amanhã” (p. 55). O pai, guardador de porcos numa pequena aldeia da Bielorrússia, perto de Minsk, havia morrido. A mãe dera-lhe instruções para o dia seguinte, mas ele, quando acordou noite dentro, levantou-se, foi ao quarto onde a mãe e os irmãos dormiam, deu-lhes um beijo na testa de despedida e saiu. Chovia. Encharcado, passou a noite numa vala comum. De manhã subiu a uma árvore e de lá, mordendo a mão para não gritar, viu os irmãos, a mãe, alguns familiares e amigos serem mortos sem piedade. Vagueou pela floresta. Para se defender dos lobos, de noite, subia às árvores e prendia-se entre os ramos. Naquele ambiente gelado viveu algum tempo.
Foi salvo da morte certa por um soldado letão (o sargento Kulis) das unidades de extermínio das SS, que o poupou, sabendo que se tratava de um judeu. Deu-lhe um nome letão e um uniforme do reguimento.
Foi transformado na mascote dos nazis, e na sua curta vida de mascote (cerca de 3 anos), além do sargento Kulis, tiveram influência o comandante Lobe e a família Dzenis (a quem tratava como tios). Testemunhou as atrocidades cometidas sobre as populações indefesas. Em 1944 foi entregue a uma família letã e, cinco anos depois, chegou à Austrália. Não se lembra do seu verdadeiro nome. Não sabe quem eram a sua mãe, pai e irmãos, não se lembra dos seus nomes.
Alex Kurzem manteve a sua história em segredo durante 50 anos. Contou-a a seu filho, Mark Kurzem, que a passou a livro em 2007, com tradução portuguesa da Guerra e Paz em 2009.
Nesta temática existem dois clássicos: o de Primo Lévi e o de Anne Frank. Mas são inúmeras as histórias extraordinárias vividas por judeus que tiveram a sorte de se salvar do Holocausto. Podemos citar a de Elie Wiesel (Prémio Nobel), ou a de Chil Rajchman (Sou o último Judeu). Na ficção (que bem poderia pertencer à realidade) ocorre-nos O Rapaz do Pijama às Riscas, já transportada para filme. Mas esta de Kurzem é uma história soberba, das mais comoventes sobre esta temática; que nos toca a alma. Um relato de sobrevivência notável.
Armando Palavras





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