quarta-feira, 25 de julho de 2012

Retomando Raymond Aron

O século XX foi o de Raymond Aron (1905-1983). E as áreas intelectuais onde este soberbo pensador se distinguiu foram diversas: filósofo, sociólogo, professor universitário, politólogo e jornalista.
Hoje retomamo-lo em duas das suas obras: A Republica Imperial e Memórias.
N’A Republica Imperial, publicada em 1974, o seu cepticismo é muito mais abrangente do que o actual “pântano” ideológico europeu.
Ao analisar a politica externa dos Estados Unidos da América segundo a acção politica dos estados por um lado, e o mercado mundial, por outro. Para Aron, a autonomia da política (que é sempre local) e a interdependência da economia (que é global), coexistem em tensão permanente, sempre em paridade, nunca numa lógica de supremacia da economia.
Ou seja, nenhum sistema económico global pode controlar a vontade politica dos estados. O contrário é que é verdade. A globalização, diz-nos Aron, é uma construção política dos estados. E recorda que foi a politica externa dos EUA a partir de 1945, com o Plano Marshall e com instituições internacionais (FMI, Banco Mundial, GATT) que construiu o mercado global, criando assim uma ordem internacional que permitiu um crescimento económico mundial sem precedentes. Foi segundo esta ideia que surgiu o título do livro: Republica imperial.
Esta acção inédita viria criar paradoxos que se começaram a verificar já na década de 70 do século de Aron, mas que só agora se verificam em pleno.
Se por um lado Washington concebeu uma Europa unificada como uma barreira contra o comunismo, por outro, uma Europa unificada transformar-se-ia num competidor forte em relação à economia americana. Contudo, era essencial que a então URSS não progredisse pela Europa e isso foi conseguido com o mercado mundial e com a integração europeia. [Seria profícuo e pertinente, para este escrito, recordar o conceito Kantiano de humanidade[1], a concepção hegeliana da história universal, ou os conceitos de humanidade e cidadania mundial, de Karl Jaspers[2]. Ficamo-nos, por agora, com Aron].
Nas suas “Memórias”, Raymond Aron retoma estas ideias, com detalhes pessoais. Felizmente (e finalmente) foram publicadas em Portugal no ano de 2007.
Em quase 650 páginas o desassombrado e intransigente defensor da liberdade, passa em revista quase um século.
Amigo de Sartre, começa por abraçar as ideias de esquerda, mas a experiência adquirida na Alemanha como professor durante seis anos, antes da Segunda Guerra, e o período de ocupação nazi em França (nesse período refugiou-se em Londres), provocaram-lhe no espírito uma reflexão tremenda. Rompendo com as ideias de esquerda, tornou-se um crítico acérrimo do totalitarismo[3] e do regime soviético. Não foi de modas quando se tornou também um critico feroz dos franceses seguidores do marxismo, opondo-se, em última análise, às ideologias. Inventor da expressão “Guerra-fria”, não hesitou em condenar o “Maio de 68”, tornando-se um liberal, defensor da sociedade industrial do Ocidente, e das relações da Europa com a América. Corajoso e verdadeiro, nem sequer omite nestas “memórias” que foi apoiado pela CIA.
A Portugal dedica cerca de quatro páginas. Onde conta pequenos episódios: a troca de cartas com Salazar (que resultou na libertação de um preso politico), o pedido que lhe fizeram para ajudar o dr. Mário Soares, e algumas questões do período revolucionário. São estas quatro páginas que se publicam abaixo. E foi por elas que o retomámos.
Armando Palavras





[1] Na verdade, a Europa, como Kant previra, ditou as suas leis aos outros continentes.
[2] Para Jaspers, politicamente, a nova e frágil unidade do género humano deriva do domínio técnico sobre a Terra.
[3] Como Hanaah Arendt.

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