segunda-feira, 21 de setembro de 2026

“E JÁ NÃO HAVIA ROSAS” – FERNANDO CALADO


Leonel  Dias


“ Contigo irei a Freixo de Espada à Cinta, mergulhar fundo no abismo do Penedo Durão e pressentir a dança dos abutres que cruzam os céus num voo largo e solene. Encontrar os teus olhos no rio de ouro da Congida. E tu serás a pureza da flor da amendoeira. Ao fim da tarde iremos beber vinho no milagre dos Montes Ermos e saciar a sede no sumo da laranja doce. ” (Pág. 26).

“ … por favor deixem-me sonhar! … fecho o computador. Fica a inquietação metafísica e a saudade – Não sei se hoje já te disse uma coisa bonita: já há rosas… e logo, ao entardecer, vou-te levar a mais bonita que houver no meu quintal. Agora o teu sorriso é branco. “ (Final da Obra – Pág. 94)

Esta publicação de 2013, empréstimo do lagoaceiro (El)Miro Barbeiro, um fã como eu da escrita de Fernando Calado, é uma magnífica Obra de prosa poética composta de memórias, afetos e, sobretudo, amizade, localizada no Nordeste transmontano.

O Livro – que apenas é pequeno no tamanho – lê-se num sopro e está repleto de recordações e episódios do quotidiano, tornando a leitura da mesma obrigatória, repto que deixo aos membros do Grupo "Amigos de Lagoaça", em particular, e aos transmontanos no geral.

A Obra retrata uma relação profunda de amizade entre o narrador e uma Mulher que, em determinado momento, inesperadamente, parte sem que antes lhe peça que, quando florescessem as rosas no seu quintal, lhe levasse uma e lhe dissesse uma coisa bonita.

Partindo dessa perda, o Autor viaja pela memória e pelas paisagens transmontanas como forma de manter presente a Amiga que partiu, procurando ultrapassar esse sentimento de perda.

A rosa funciona no Livro como um símbolo da beleza, do afeto e da memória da Amiga permanecendo até ao momento final, quando o autor cumpre a promessa, depositando a rosa do seu quintal na campa da Amiga.

Numa leitura pessoal interpreto “E já não havia rosas” como uma homenagem às Mulheres pela sensibilidade, dignidade e capacidade de sofrimento e, simultaneamente, a denúncia da violência doméstica perpetuada sobre as Mulheres e a denúncia daquilo que a violência destrói.

Sem comentários:

Enviar um comentário

“E JÁ NÃO HAVIA ROSAS” – FERNANDO CALADO

Leonel  Dias “ Contigo irei a Freixo de Espada à Cinta, mergulhar fundo no abismo do Penedo Durão e pressentir a dança dos abutres que cru...

Os mais lidos