PREFÁCIO
No seguimento das nossas conversas e tendo em conta a sua pronta disponibilidade, remeto para sua análise e posterior emissão de PREFÁCIO, o livro em anexo o qual, em princípio, terá o título PEDAÇOS DA HISTÓRIA. Foi este o desafio que o Elmiro Barbeiro me fez, no passado dia 6 de dezembro, a que acrescentou, em telefonema posterior: O título não é definitivo, se quiser pode sugerir outro… Lido o livro, a hesitação do autor ficou resolvida: em minha opinião, PEDAÇOS DA HISTÓRIA – histórias vividas e História investigada – é um título ajustado ao espírito e à letra da obra. Tudo o que eu pudesse sugerir não a beneficiaria… e duvido que o autor consiga encontrar um título mais adequado à trama e ao fio da narrativa.
Sobre Angola, a história é outra…
Testemunha do drama vivido pelos portugueses forçados a abandonarem precipitadamente as suas casas e as suas vidas nas colónias africanas e participante, por razões profissionais, num dos programas desenhados para a integração dos retornados nacionais, vivi, à minha escala, a tragédia da descolonização – gente desenraizada, revoltada e completamente perdida era despejada diariamente no Aeroporto de Lisboa e ali ficava à espera de uma ajuda incerta. Rever as fotografias daquele amontoado de famílias, sentadas ou deitadas no chão, sem a mínima ideia do que as esperava é, ainda hoje, uma experiência de partir o coração. É por isso que não me canso de afirmar que ter conseguido promover a absorção de quase dez por cento da população, em situação de emergência, de penúria financeira e com a anarquia do PREC em pano de fundo, foi uma proeza à altura da gesta dos Descobrimentos… se é que não foi um milagre da Padroeira de Portugal. O impacto dos acontecimentos despertou o meu interesse para tudo quando se relacione com a descolonização e por todos os relatos dos protagonistas, sob a forma de depoimentos, artigos de jornal ou livros, um interesse que, acrescente-se, me conduziu ao conhecimento do que era a vida dos brancos em Angola e Moçambique, antes e depois de se iniciarem as lutas pela independência, até à ponte aérea… que lhes salvou as vidas, mas fez perder os haveres. Sobre um e outro tema, tenho a informação recolhida ao longo de cinquenta anos, mas insuficiente para compreender a dimensão dos dramas vividos por aqueles portugueses. Por esta singela razão, a história contada pelo judeu Ezequiel Pereira, mesmo ficcionada, foi mais uma peça para compor um puzzle que precisa de muito mais até que a imagem fique definida nos contornos e nas cores de uma paisagem complexa.
E os relatos do judeu Ezequiel Pereira conduziram-me à minha terceira área de interesse: a vida dos judeus em Portugal até à ordem de expulsão, à conversão forçada e às perseguições aos convertidos por parte do pior que, em todas as épocas, abundou na sociedade portuguesa: a mesquinhez e a bufaria que levaram tanta gente às fogueiras da Inquisição. O incómodo causado pelos comportamentos da hora do lobo – aquela em que o medo leva os homens a esquecerem tudo o que a civilização conseguiu – ampliou um interesse nascido na busca de explicação para o que terá levado um povo tradicionalmente cordato às barbaridades das lutas liberais, quando vizinhos, amigos e parentes se mataram uns aos outros, só porque os outros eram partidários de um rei diferente. Isso e o facto de também eu ter nascido sardento e com cabelos ruivos herdados do meu avô – um Celta puro, ruivo de fogo e com a cara e os braços cobertos de sardas. Quem sabe se descendente de judeus…
Estes três capítulos – Setúbal/Arrábida, Angola/colonos/guerra e visita às origens/perseguição aos judeus – seriam suficientes para captar o meu interesse, mas esta é a consequência de preferências que pouco interessarão aos leitores. Mais importantes são os factos narrados, mesmo se de forma ficcionada, o ritmo da narrativa e o cuidado do autor para se documentar e ser rigoroso na evocação dos factos históricos que povoam as páginas do livro. Tive oportunidade de confirmar esse zelo em dois aspectos que conheço razoavelmente: a história do Convento da Arrábida e do Palácio da Comenda.
Um belo livro de poesia que o autor publicou há uns anos revelou o do seu amor às origens: Trás-os-Montes, Freixo de Espada à Cinta, Lagoaça. Como se isso não bastasse, as alheiras de Carviçais com que tenho sido brindado fazem prova definitiva da sua ligação à terra. Alheiras que, como é geralmente sabido, foram a invenção dos judeus convertidos para demonstrar a adesão aos costumes cristãos: as suas casas, como as demais, exibiam o fumeiro! Só que os enchidos não eram confecionados com carne de porco. A leitura dos poemas, muitos deles de cariz autobiográfico, preparou-me para ler uma obra com acento etnográfico, à maneira de Ferreira de Castro, Aquilino ou Namora – que seria sempre interessante, pelo menos para os amantes de História, Geografia, Antropologia e Sociologia – mas tive a boa surpresa de descobrir a veia ficcionista do autor, patente numa história bem construída, com uma narrative fluida e onde, a par da descrição objetiva do contexto das vivências, emerge a fina sensibilidade do Elmiro Barbeiro. Por todas as razões, um livro que merece ser lido com atenção.
Filipe Pinhal

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