quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pedaços da História - em busca das origens

 

PREFÁCIO

No seguimento das nossas conversas e tendo em conta a sua pronta disponibilidade, remeto para sua análise e posterior emissão de PREFÁCIO, o livro em anexo o qual, em princípio, terá o título PEDAÇOS DA HISTÓRIA. Foi este o desafio que o Elmiro Barbeiro me fez, no passado dia 6 de dezembro, a que acrescentou, em telefonema posterior: O título não é definitivo, se quiser pode sugerir outro… Lido o livro, a hesitação do autor ficou resolvida: em minha opinião, PEDAÇOS DA HISTÓRIA – histórias vividas e História investigada – é um título ajustado ao espírito e à letra da obra. Tudo o que eu pudesse sugerir não a beneficiaria… e duvido que o autor consiga encontrar um título mais adequado à trama e ao fio da narrativa.


Passo, pois, ao miolo, destacando as três secções que me dizem mais: Setúbal, Angola e a visita às origens. Explico-me: nado e Criado na chamada Península de Setúbal, tudo o que o autor escreve sobre as emoções do jovem e ingénuo Manuel Bugalho, confrontado com a imponência da Serra da Arrábida, o azul do mar, o bulício das ruas da cidade velha – na altura, as novas  urbanizações ainda não existiam – coincide com o que eu próprio experimentei, aos sete anos, quando aterrei em Setúbal para assistir ao juramento de bandeira do meu irmão, no Regimento de Infantaria 11. Para um menino da aldeia, era o meu caso em 1952, o encontro com a cidade foi um deslumbramento! E o apelo foi tão grande que, na adolescência, as praias do Portinho, da Figueirinha e de Troia foram sempre a primeira escolha nos verões quentes daqueles anos da década de 60… quando o Manuel Bugalho também por ali andava. Os almoços, meus e dos meus amigos, é que não eram nos sítios de que fala o livro. Vindos de Troia, atacávamos o Lúcio, um modesto restaurante encostado ao Mercado do Livramento com mesas longas onde já estavam cestos de pão, jarros de vinho tinto, pequenos alguidares de barro com batatas acabadas de cozer e frascos com azeite e vinagre… as sardinhas e as saladas chegariam à medida que os clientes ocupassem os lugares nos bancos corridos – tudo ao molho e fé em Deus! À saída, o Lúcio pegava no lápis e no bloco de notas, perguntava a cada um o que tinha comido e fingia fazer uma soma que, milagrosamente, dava sempre vinte escudos… pouco mais que o preço de uma sopa e uma bifana nos dias de hoje.

Sobre Angola, a história é outra…

Testemunha do drama vivido pelos portugueses forçados a abandonarem precipitadamente as suas casas e as suas vidas nas colónias africanas  e participante, por razões profissionais, num dos programas desenhados para a integração dos retornados nacionais, vivi, à minha escala, a tragédia da descolonização – gente desenraizada, revoltada e completamente perdida era despejada diariamente no Aeroporto de Lisboa e ali ficava à espera de uma ajuda incerta. Rever as fotografias daquele amontoado de famílias, sentadas ou deitadas no chão, sem a mínima ideia do que as esperava é, ainda hoje, uma experiência de partir o coração. É por isso que não me canso de afirmar que ter conseguido promover a absorção de quase dez por cento da população, em situação de emergência, de penúria financeira e com a anarquia do PREC em pano de fundo, foi uma proeza à altura da gesta dos Descobrimentos… se é que não foi um milagre da Padroeira de Portugal. O impacto dos acontecimentos despertou o meu interesse para tudo quando se relacione com a descolonização e por todos os relatos dos protagonistas, sob a forma de depoimentos, artigos de jornal ou livros, um interesse que, acrescente-se, me conduziu ao conhecimento do que era a vida dos brancos em Angola e Moçambique, antes e depois de se iniciarem as lutas pela independência, até à ponte aérea… que lhes salvou as vidas, mas fez perder os haveres. Sobre um e outro tema, tenho a informação recolhida ao longo de cinquenta anos, mas insuficiente para compreender a dimensão dos dramas vividos por aqueles portugueses. Por esta singela razão, a história contada pelo judeu Ezequiel Pereira, mesmo ficcionada, foi mais uma peça para compor um puzzle que precisa de muito mais até que a imagem fique definida nos contornos e nas cores de uma paisagem complexa. 

E os relatos do judeu Ezequiel Pereira conduziram-me à minha terceira área de interesse: a vida dos judeus em Portugal até à ordem de expulsão, à conversão forçada e às perseguições aos convertidos por parte do pior que, em todas as épocas, abundou na sociedade portuguesa: a mesquinhez e a bufaria que levaram tanta gente às fogueiras da Inquisição. O incómodo causado pelos comportamentos da hora do lobo – aquela em que o medo leva os homens a esquecerem tudo o que a civilização conseguiu – ampliou um interesse nascido na busca de explicação para o que terá levado um povo tradicionalmente cordato às barbaridades das lutas liberais, quando vizinhos, amigos e parentes se mataram uns aos outros, só porque os outros eram partidários de um rei diferente. Isso e o facto de também eu ter nascido sardento e com cabelos ruivos herdados do meu avô – um Celta puro, ruivo de fogo e com a cara e os braços cobertos de sardas. Quem sabe se descendente de judeus…

Estes três capítulos – Setúbal/Arrábida, Angola/colonos/guerra e visita às origens/perseguição aos judeus – seriam suficientes para captar o meu interesse, mas esta é a consequência de preferências que pouco interessarão aos leitores. Mais importantes são os factos narrados, mesmo se de forma ficcionada, o ritmo da narrativa e o cuidado do autor para se documentar e ser rigoroso na evocação dos factos históricos que povoam as páginas do livro. Tive oportunidade de confirmar esse zelo em dois aspectos que conheço razoavelmente: a história do Convento da Arrábida e do Palácio da Comenda.

Um belo livro de poesia que o autor publicou há uns anos revelou o do seu amor às origens: Trás-os-Montes, Freixo de Espada à Cinta, Lagoaça. Como se isso não bastasse, as alheiras de Carviçais com que tenho sido brindado fazem prova definitiva da sua ligação à terra. Alheiras que, como é geralmente sabido, foram a invenção dos judeus convertidos para demonstrar a adesão aos costumes cristãos: as suas casas, como as demais, exibiam o fumeiro! Só que os enchidos não eram confecionados com carne de porco. A leitura dos poemas, muitos deles de cariz autobiográfico, preparou-me para ler uma obra com acento etnográfico, à maneira de Ferreira de Castro, Aquilino ou Namora – que seria sempre interessante, pelo menos para os amantes de História, Geografia, Antropologia e Sociologia – mas tive a boa surpresa de descobrir a veia ficcionista do autor, patente numa história bem construída, com uma narrative fluida e onde, a par da descrição objetiva do contexto das vivências, emerge a fina sensibilidade do Elmiro Barbeiro. Por todas as razões, um livro que merece ser lido com atenção. 

Filipe Pinhal

Filipe Pinhal nasceu em Sesimbra, em 1946. Em 1970, licenciou-se em Finanças no ISCEF. Enquanto cumpria serviço militar na Armada – 1970 a 1973 – foi docente no ISCEF, lecionando às cadeiras de Matemáticas Gerais. Em 1973, iniciou funções bancárias no Banco da Agricultura, passando, sucessivamente pelo Ministério do Comércio Interno, no VI Governo Provisório e pelo Ministério das Finanças, nos I e II Governos Constitucionais. Entre 1978 e 1985, exerceu funções de administração no Montepio Geral e na Parempresa, e de direção na Caixa Geral de Depósitos. Em 1986, ingressou no Banco Comercial Português, onde exerceu funções de direção, entre 1986 e 1988, e de administração, entre 1988 e 2008, com cargos de administrador, vice-presidente e presidente, 31.8.2007 a 15.1.2008. Reformou-se em 15 de janeiro de 2008.Na atualidade é administrador da empresa Veritas Educatio – Educação e Serviços, SA, detentora do colégio internacional Saint Dominic’s.

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