domingo, 12 de abril de 2026

Religiosidade nordestina à luz dos 900 anos de Portugal

 

Numa espécie de amêndoas de Páscoa, entre padrinhos e afilhados, recebi mais um doce livro da autoria do historiador Armando Palavras, que nasceu em Angola, em 17 de janeiro de 1960. Com um ano de idade, veio para Trás-os-Montes, mais propriamente para Lagoaça, no concelho de Freixo de Espada à Cinta.

Por receio de que - já nessa altura - surgisse alguma insurreição política, a família entendeu deixar os Dembos e regressar às origens da família, em Lagoaça. Os primeiros passos deu-os nessa fronteiriça ruralidade, onde experimentou a dureza dos tempos luso-galaicos que eram fases difíceis para ele, como para com quase todos os jovens da nossa geração. Nesses verdes anos frequentou as primeiras classes. E a família entendeu que Angola era um futuro longínquo, mas propício para aqueles que tivessem espírito de aventura. Por isso regressou a Luanda, capital desse império luso-africano, onde fez a 4ª classe enquanto se agravaram os acontecimentos políticos, principalmente na zona norte, onde a família se fixara e assumira sonhos de paz, de trabalho, de solidariedade e de justiça. Mas tudo correu mal. Os sonhos de paz e os auspícios que seduziam as comunidades da lusofonia, tiveram de suportar a mais dramática calamidade luso-africana.

Armando Palavras - e muitos milhares de cidadãos que se limitavam a comer o pão com o suor dos seus rostos, pelas razões nacionais e internacionais - viu-se bloqueado contra natura e, definitivamente, regressou às origens da Portugalidade.

Apesar da sua curta idade, o futuro Historiador profissional começou a prender-se às terras nortenhas que lhe deram matéria-prima e, a partir de Lagoaça, assumiu formas de inspiração para explorar os mistérios da natureza e da humanidade. Primeiramente buscou e rebuscou aquilo que o meio ambiente lhe propiciou e lhe garantiu, através da formação científica, qual seja o conhecimento da vida e das suas leis. Essa aprendizagem adveio-lhe pelo conhecimento dos usos e costumes para se integrar na sociedade. A essa exigência adicionou todos os saberes, regras e compromissos com a realidade. O instinto humano encontrou-o na filosofia, primeira ciência que os seres pensantes catalogaram como «mãe de todas as ciências».

Hoje, licenciado em Belas Artes (Pintura) e Doutorado em História da Arte, é investigador integrado do CITAD (Centro de Investigação em Território, Arquitectura e Design), financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Ao longo da sua carreira tem publicado artigos e ensaios, sobre arte setecentista, iconografia mariana, românico rural e a talha de igrejas periféricas, combinando investigação histórica e análise artística. Com recurso a documentação arquivística, iconográfica e iconológica, Armando Palavras examina, não apenas a estética da arte em talha, mas também o contexto social, cultural e económico em que os artífices setecentistas operavam. O seu trabalho de investigação tem sido fundamental para a compreensão da arte periférica do século XVIII em Portugal, revelando a interligação entre artistas itinerantes e comunidades locais, bem como a riqueza e diversidade da talha setecentista nas igrejas do norte do país.

O seu livro mais recente chama-se «A Arte da Talha em Terras de Penaguião - Século XVIII». Publicado em Março, com chancela  da editora 5Livros, nas suas 200 páginas aborda: Origens medievais; a Organização Administrativa Local em Setecentos; analisa os casos de 16 Igrejas de Santa Marta de Penaguião e Peso da Régua, e ainda 6 Capelas da região de Trás-os-Montes e Alto Douro.

A Arte da talha em terras de Penaguião


Armando Palavras enriquece este seu mais recente estudo com a qualidade e quantidade da ilustração física, desde a capa à contracapa. A crítica literária Júlia Serra, citada na página 199, escreveu que «Armando Palavras conjuga, através da escrita, a sua formação académica em Belas Artes e em História, dando ao leitor uma perspetiva tão profunda e credível que o transporta para o local, analisado e escalpelizado pelo especialista, fazendo-o reviver o ambiente temporal e despertando-lhe a contemplação mística do cenário».

«São conhecidos os intervenientes: os mestres, do oficiais, os magistrados, as testemunhas, os abonadores, os fiadores, as instituições contratantes, etc. Muitos artesãos desconhecidos renascem», lê-se na contracapa. As ruas setecentistas, os locais, tudo revive neste livro que prende o leitor do princípio ao fim.

Estes contributos científicos da religiosidade obscura e acumulada na região norte do país tem cada vez mais relevância, à medida em que nos aproximamos dos nove séculos do nascimento de Portugal.



                                                                                                             Barroso da Fonte


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