Numa
espécie de amêndoas de Páscoa, entre padrinhos e afilhados, recebi mais
um doce livro da autoria do historiador Armando Palavras, que nasceu em Angola,
em 17 de janeiro de 1960. Com um ano de idade, veio para Trás-os-Montes, mais
propriamente para Lagoaça, no concelho de Freixo de Espada à Cinta.
Por
receio de que - já nessa altura - surgisse alguma insurreição política, a
família entendeu deixar os Dembos e regressar às origens da família, em
Lagoaça. Os primeiros passos deu-os nessa fronteiriça ruralidade, onde
experimentou a dureza dos tempos luso-galaicos que eram fases difíceis para
ele, como para com quase todos os jovens da nossa geração. Nesses verdes anos
frequentou as primeiras classes. E a família entendeu que Angola era um futuro
longínquo, mas propício para aqueles que tivessem espírito de aventura. Por
isso regressou a Luanda, capital desse império luso-africano, onde fez a 4ª
classe enquanto se agravaram os acontecimentos políticos, principalmente na
zona norte, onde a família se fixara e assumira sonhos de paz, de trabalho, de
solidariedade e de justiça. Mas tudo correu mal. Os sonhos de paz e os
auspícios que seduziam as comunidades da lusofonia, tiveram de suportar a mais
dramática calamidade luso-africana.
Armando
Palavras - e muitos milhares de cidadãos que se limitavam a comer o pão com o
suor dos seus rostos, pelas razões nacionais e internacionais - viu-se
bloqueado contra natura e, definitivamente, regressou às origens da
Portugalidade.
Apesar
da sua curta idade, o futuro Historiador profissional começou a prender-se às
terras nortenhas que lhe deram matéria-prima e, a partir de Lagoaça, assumiu
formas de inspiração para explorar os mistérios da natureza e da humanidade.
Primeiramente buscou e rebuscou aquilo que o meio ambiente lhe propiciou e lhe
garantiu, através da formação científica, qual seja o conhecimento da vida e
das suas leis. Essa aprendizagem adveio-lhe pelo conhecimento dos usos e
costumes para se integrar na sociedade. A essa exigência adicionou todos os
saberes, regras e compromissos com a realidade. O instinto humano encontrou-o
na filosofia, primeira ciência que os seres pensantes catalogaram como «mãe de
todas as ciências».
Hoje,
licenciado em Belas Artes (Pintura) e Doutorado em História da Arte, é
investigador integrado do CITAD (Centro de Investigação em Território,
Arquitectura e Design), financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia
(FCT). Ao longo da sua carreira tem publicado artigos e ensaios, sobre arte
setecentista, iconografia mariana, românico rural e a talha de igrejas
periféricas, combinando investigação histórica e análise artística. Com recurso
a documentação arquivística, iconográfica e iconológica, Armando Palavras
examina, não apenas a estética da arte em talha, mas também o contexto social,
cultural e económico em que os artífices setecentistas operavam. O seu trabalho
de investigação tem sido fundamental para a compreensão da arte periférica do
século XVIII em Portugal, revelando a interligação entre artistas itinerantes e
comunidades locais, bem como a riqueza e diversidade da talha setecentista nas
igrejas do norte do país.
O seu livro mais recente chama-se «A Arte da Talha em Terras de Penaguião - Século XVIII». Publicado em Março, com chancela da editora 5Livros, nas suas 200 páginas aborda: Origens medievais; a Organização Administrativa Local em Setecentos; analisa os casos de 16 Igrejas de Santa Marta de Penaguião e Peso da Régua, e ainda 6 Capelas da região de Trás-os-Montes e Alto Douro.
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Armando
Palavras enriquece este seu mais recente estudo com a qualidade e quantidade da
ilustração física, desde a capa à contracapa. A crítica literária Júlia Serra,
citada na página 199, escreveu que «Armando Palavras conjuga, através da
escrita, a sua formação académica em Belas Artes e em História, dando ao leitor
uma perspetiva tão profunda e credível que o transporta para o local, analisado
e escalpelizado pelo especialista, fazendo-o reviver o ambiente temporal e
despertando-lhe a contemplação mística do cenário».
«São
conhecidos os intervenientes: os mestres, do oficiais, os magistrados, as
testemunhas, os abonadores, os fiadores, as instituições contratantes, etc.
Muitos artesãos desconhecidos renascem», lê-se na contracapa. As ruas
setecentistas, os locais, tudo revive neste livro que prende o leitor do
princípio ao fim.
Estes
contributos científicos da religiosidade obscura e acumulada na região norte do
país tem cada vez mais relevância, à medida em que nos aproximamos dos nove
séculos do nascimento de Portugal.
Barroso da Fonte


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