Parabéns
Jorge e que passe feliz na boa companhia da Isabel e da Família.
Abraço
amigo,
JG85
A Descoberta do
Mar
A maioria dos que cresceram no NE
transmontano nos anos 50/60 só muito tardiamente descobriu o mar. Eu e mais
três dos meus colegas do secundário em Vila Real, um dia, partimos à aventura.
Eram eles o João Rocha, o Zé Eugénio e o Rui Jácome. Estávamos na Avenida
Carvalho Araújo quando passou um camião com um carro acidentado em cima, a
caminho do Porto. Lembrei-me de que conhecia o guarda da PVT do posto de saída
da cidade, o da Junqueira, e que ele era amigo do meu pai. Perguntei aos outros
se queriam ir descobrir o Porto, pois podia ser uma oportunidade única. Somos
todos da mesma idade, portanto, estávamos no ano 58, o das eleições do General
Humberto Delgado vs Almirante Tomás, que o primeiro ganhou, mas não só não tomou
posse como teve de fugir. Tínhamos, portanto, 17 anos!
A miragem de conhecer o Porto
venceu todos os medos e receios de partir para a grande cidade, praticamente
sem dinheiro. Uns trocos no bolso, mas amigos no Porto: o Jorge Costa e o Manel
Pavão. Então telefonei para o posto da PVT e pedi ao agente que nos arranjasse
boleia no camião que iria passar por lá. E, assim, alguma meia hora depois,
estávamos nós a caminho da Junqueira, de táxi, para apanhar o camião.
A viagem foi uma festa, que
naquele tempo não considerávamos de risco. Chegados ao Porto e tomados de
emoção de irmos descobrir uma grande cidade apeámos ainda fora de portas por
causa da polícia e lá fomos a butes a caminho do centro e de uma cabina
telefónica para avisar os colegas que precisávamos de cama e de comida. Eis
senão quando, numa rua empedrada e com linha de eléctrico, em lomba, sentimos
um grande ruído. Parámos e ficamos à cuca.
E lá surgiu o grande monstro de
ferro com aquele ruído de ferro contra ferro que nos feria os ouvidos de uma
maneira inusitada. Aquele ruído, aos ouvidos virgens de um provinciano, era
impressionante. O Zé Eugénio, que ficou mais emocionado do que os outros,
exclamou: olha, olha, olha…um eléctrico!! E ali ficámos pasmados a ver a
máquina infernal devorar a ladeira de uma ruela periférica do Porto.
Pronto, lá aboletámos nas casas
dos antigos colegas do Colégio de Mirandela, e no dia seguinte partimos à
descoberta do mar, que só conhecíamos de fotografia e do cinema. Ah, já me
esquecia de que uma vez em Mirandela, o Joaquim Pêra, que vivia no Porto,
apareceu com umas calças de terylene manchadas de água do mar. E como ficámos a
admirar aquelas calças que já tinham visto e tocado o mar! A vista do mar foi
então a segunda descoberta daquela jornada que acaba por dar o nome à crónica.
Depois destas descobertas a que mais me marcou a seguir foi a bela mesa de bilhar do Café Embaixador, ao fundo da Avenida dos Aliados, de tabelas aquecidas, um luxo que eu não tinha em Vila Real.
O Porto é uma cidade acolhedora,
as pessoas recebem com alegria e em festa. Mas algo havia ali, e há, que nós
não gostávamos! Nem devia escrever isto! Era aquela pronúncia do Norte! Chegávamos
a dizer que as miúdas eram lindas até abrirem a boca!
CNX06ABR26JG85
Nota – Esta crónica é a minha
prenda de aniversário para o amigo Jorge Joaquim Lage


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