Um ponto prévio de quem agora escreve uma crónica é a recusa
de ajuda do copilot da IA. Tenho a sensação de assédio e, pior ainda, de me
parecer que ao recusar vou ser penalizado em algum ponto do percurso da
escrita. A ciência a entrar em casa da bruxaria!
Avanço então com alguma timidez tentando passar despercebido
e, assim, hoje, vou medir bem tudo o que escreverei, relendo o texto, não vá
sair algo que não quis.
Hoje devia falar da guerra a não ser que me isole do espaço
público onde se promovem sessões contínuas dos bombardeamentos e incompetentes
estilhaços que caem por todo o lado. Já deixei transparecer que não vou falar
da guerra. Melhor dizendo, não vou falar mais da guerra, porque só poderia
falar mal.
Hoje, aqui, é dia da senhora ucraniana fazer a barrela da
semana. A Nádia já anda por aqui exibindo a sua competência há uns bons 15 anos.
Às vezes até demais como, por exemplo naquela dobragem das meias que ficam em
novelo, mas que depois me estragam a escolha, pois viradas do avesso e dobradas
não se percebe o que está lá dentro. A arte da dobra é tão bem apanhada, lembrando-me
esta prática na infância, que eu deixo ficar assim, mas, quando guardo sempre
descubro uma ponta para bem identificar. Isto são algumas das singularidades de
um dono de casa!
Durante os primeiros anos aqui em casa a Nádia, casada com um
russo, foi partindo tudo o que estava à mão de semear. E semeou cacos por
muitos lados, ajudando a limpar as demasias da decoração. Apanhava os cacos,
punha-os à vista, e saía de fininho sem dizer nada. Não dizia, mas também não
escondia. Eu apreciava a prática e nem colava os cacos, aliviando a carga, ou
melhor, abatendo à carga! Agora, que já não há nada à mão para partir, a Nádia,
que faz tudo bem menos arrumar com alguma estética os objectos, afinal não
duradouros, que por aí ainda pululam, deixa-os todos zangados uns com os outros
e aí, como diria a prima brasileira, aí entro eu para alinhar as peças em
exposição. Peças que, em boa maioria, me tapam livros, cuja vista eu bem
gostaria de privilegiar.
Os livros não são objectos passivos, estão sempre a
interpelar-nos, a sugerir uma visita, ainda que rápida, e eu respeito essa
chamada e com frequência abro um ou outro e consulto as páginas que marquei com
uma pequena dobra e leio os sublinhados a lápis. Depois, assim, aproveito
muitas ideias para estas crónicas. Tenho para mim que numa biblioteca os livros
dialogam uns com os outros, sobretudo pela calada da noite, tal como num museu
os objectos de arte se cortejam ou se criticam. Os curadores falam em diálogo
entre as peças. Será verosímil que grandes autores já desaparecidos, que em
vida se amaram ou odiaram, continuem um qualquer diálogo, de livro para livro,
no silêncio de uma biblioteca, na calada da noite? E que outros oiçam e
interajam estabelecendo-se uma babel de línguas num espaço que guarda memórias
e histórias de todas as línguas e de todos os países e de todos os nomes?
Jorge Luís Borges escreveu sobre algo parecido em Ficções
– A Biblioteca de Babel, onde elegeu o livro-chave, algo parecido com o
algoritmo-mestre, e onde criou uma biblioteca de desenho hexagonal e de muitos
pisos, enfim, mas não pôs os livros/autores em diálogo improvável, mas
inventável. Esta ocorreu-me por causa da Nádia.
Onde isto veio parar? Começou pela guerra, introduziu a
Nádia, e acabou perdido numa biblioteca imaginária.
Vou fechar este texto, esperando que o copilot não
tenha nada a ver com este desvio da realidade, aqui trocada pela imersão na mais
pura ficção literária.
CNX2MAR26JG85

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