terça-feira, 3 de março de 2026

Crónica do quotidiano

JORGE  GOLIAS 


Um ponto prévio de quem agora escreve uma crónica é a recusa de ajuda do copilot da IA. Tenho a sensação de assédio e, pior ainda, de me parecer que ao recusar vou ser penalizado em algum ponto do percurso da escrita. A ciência a entrar em casa da bruxaria!

Avanço então com alguma timidez tentando passar despercebido e, assim, hoje, vou medir bem tudo o que escreverei, relendo o texto, não vá sair algo que não quis.

Hoje devia falar da guerra a não ser que me isole do espaço público onde se promovem sessões contínuas dos bombardeamentos e incompetentes estilhaços que caem por todo o lado. Já deixei transparecer que não vou falar da guerra. Melhor dizendo, não vou falar mais da guerra, porque só poderia falar mal.

Hoje, aqui, é dia da senhora ucraniana fazer a barrela da semana. A Nádia já anda por aqui exibindo a sua competência há uns bons 15 anos. Às vezes até demais como, por exemplo naquela dobragem das meias que ficam em novelo, mas que depois me estragam a escolha, pois viradas do avesso e dobradas não se percebe o que está lá dentro. A arte da dobra é tão bem apanhada, lembrando-me esta prática na infância, que eu deixo ficar assim, mas, quando guardo sempre descubro uma ponta para bem identificar. Isto são algumas das singularidades de um dono de casa!

Durante os primeiros anos aqui em casa a Nádia, casada com um russo, foi partindo tudo o que estava à mão de semear. E semeou cacos por muitos lados, ajudando a limpar as demasias da decoração. Apanhava os cacos, punha-os à vista, e saía de fininho sem dizer nada. Não dizia, mas também não escondia. Eu apreciava a prática e nem colava os cacos, aliviando a carga, ou melhor, abatendo à carga! Agora, que já não há nada à mão para partir, a Nádia, que faz tudo bem menos arrumar com alguma estética os objectos, afinal não duradouros, que por aí ainda pululam, deixa-os todos zangados uns com os outros e aí, como diria a prima brasileira, aí entro eu para alinhar as peças em exposição. Peças que, em boa maioria, me tapam livros, cuja vista eu bem gostaria de privilegiar.

Os livros não são objectos passivos, estão sempre a interpelar-nos, a sugerir uma visita, ainda que rápida, e eu respeito essa chamada e com frequência abro um ou outro e consulto as páginas que marquei com uma pequena dobra e leio os sublinhados a lápis. Depois, assim, aproveito muitas ideias para estas crónicas. Tenho para mim que numa biblioteca os livros dialogam uns com os outros, sobretudo pela calada da noite, tal como num museu os objectos de arte se cortejam ou se criticam. Os curadores falam em diálogo entre as peças. Será verosímil que grandes autores já desaparecidos, que em vida se amaram ou odiaram, continuem um qualquer diálogo, de livro para livro, no silêncio de uma biblioteca, na calada da noite? E que outros oiçam e interajam estabelecendo-se uma babel de línguas num espaço que guarda memórias e histórias de todas as línguas e de todos os países e de todos os nomes?

Jorge Luís Borges escreveu sobre algo parecido em Ficções – A Biblioteca de Babel, onde elegeu o livro-chave, algo parecido com o algoritmo-mestre, e onde criou uma biblioteca de desenho hexagonal e de muitos pisos, enfim, mas não pôs os livros/autores em diálogo improvável, mas inventável. Esta ocorreu-me por causa da Nádia.

Onde isto veio parar? Começou pela guerra, introduziu a Nádia, e acabou perdido numa biblioteca imaginária.

Vou fechar este texto, esperando que o copilot não tenha nada a ver com este desvio da realidade, aqui trocada pela imersão na mais pura ficção literária.

CNX2MAR26JG85

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