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| CLARA PINTO CORREIA |
Estava
no seu auge. Era, na verdade, uma princesa. Na ciência, na literatura, na
beleza, no doce sorriso que contagiava…
Dizem
as notícias de hoje que apareceu morta, sozinha, em sua casa, mergulhada na
mais confrangedora solidão. As reações das elites culturais e políticas não se
fazem esperar. A galera socialite aproveita para se mostrar. É o costume.
Pergunto
eu: e quanta dessa gente não assobiou para o lado quando, há meses, numa
entrevista de grande divulgação, mostrava ela a sua desilusão com a vida,
passando pela ordem de despejo, sozinha, sem emprego, sem recursos financeiros,
a recorrer à Segurança Social, a dar explicações para sobreviver…?
Para
homenageá-la, apenas posso recomendar o seu inesquecível romance “Adeus,
princesa”, onde a emoção e sensibilidade da história dizem bem da personalidade
de quem o escreveu.
FONTE:
https://www.diariodetrasosmontes.com/cronica/adeus-princesa#google_vignette


IN ADEUS PRINCESA - (1985 ) de Clara Pinto Correia
ResponderEliminar... , __ Os jovens, meu amigo, a gente sabe lá o que é que ali vai. Encostam-se às paredes, e pronto. Não estudam, não trabalham. Põem-se naqueles bandos, sem iniciativa, sem alegria. A gente compreende algumas coisas, que é difícil arranjar emprego, e tudo isso que se está sempre falando, mas não chega para explicar. Não querem fazer nada. Não sei o que é que lhes interessa. Ficam vivendo à custa dos pais, homens e mulheres feitos, vegetando, deixando passar o tempo, pedindo dinheiro, cada vez mais dinheiro... compram carros novos, vão para as discotecas, não passam de ano. E votam sempre na direita. O meu amigo se calha está pensando que eu sou muito reacionário, mas garanto-lhe que sempre fui um homem de espírito aberto. Sempre procurei compreender e acompanhar os fenómenos do meu tempo. Só que isto já não me parece compreensível.
Foi o fotógrafo quem primeiro se pôs em pé, a olhar explicitamente para o relógio, obrigando Joaquim Peixoto a abrir outra página do bloco para que Teófilo Sampaio lhe indicasse por favor alguns contactos. Diz-contactos. O estagiário sentia-se extremamente inseguro, pressentindo-se risível, ao pronunciar terminologias da gíria. Teófilo Sampaio insistia para que falassem com o chefe Larguinho. Passem pela esquadra que ele vos recebe. É um homem cordial. E o pai da pequena, se ele quis falar, é um contacto importante. O pobre homem passou por aqui ontem e estava muito chocado, como calculam. Em qualquer altura o encontram no Centro de Trabalho de Baleizão ... ...
(...)
Infeliz mente estes rapazecos dos subsídios são ainda os que votam na "Direita"... , sabem lá eles o que é trabalhar...
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