sábado, 22 de novembro de 2025

Um plano com aparência de um “plano de paz”

 Jorge Silva Carvalho   X

@JMJSCarvalho

1h

O documento que circula desde meados de novembro de 2025 – revelado inicialmente pela Reuters a 17 de novembro e confirmado por fontes do Kremlin ao Kommersant – sob a aparência de um “plano de paz” em 30 pontos entre a futura administração Trump e Moscovo, apresenta-se sob a forma de diplomacia, mas funciona como instrumento clássico de guerra psicológica. A sua divulgação pública resultou aparentemente de um leak russo, associado a Kiril Dmitriev, próximo do Kremlin e envolvido na redação do plano, o que reforça a leitura de que a própria fuga de informação foi concebida como ação de guerra psicológica destinada a moldar perceções e induzir hesitação no Ocidente. Prevê a cedência definitiva de Donetsk, Luhansk e Crimeia à Rússia, a divisão de Kherson e Zaporíjia pela linha da frente atual, a renúncia permanente da Ucrânia à NATO e um congelamento de 15-20 anos do estatuto das regiões ocupadas. Kiev nem sequer é parte signatária. A função primária deste texto não é abrir negociações reais, mas erodir a clareza decisional europeia e fraturar a vontade coletiva do Ocidente, inoculando dúvida sobre o custo da solidariedade e o próprio sentido da resistência ucraniana. Na guerra de informação contemporânea, a Rússia não precisa de convencer; basta induzir hesitação prolongada. Esta tática ganha tração graças a atores internos – a chamada Quinta Coluna – que já não se resumem a bots ou contas anónimas, mas abrangem um espetro ideológico surpreendentemente amplo. Entre os exemplos mais visíveis contam-se partidos como o AfD na Alemanha, o Rassemblement National em França, o Fidesz na Hungria ou setores da La France Insoumise e do PCP em Portugal. Relatórios recentes do European Council on Foreign Relations (outubro 2025), do Institute for Strategic Dialogue (novembro 2025) e da base de dados EUvsDisinfo documentam como estas forças, apesar das suas divergências internas, convergem na amplificação dos mesmos talking points do Kremlin: “negociação já”, “culpa da NATO”, “o Ocidente financia um regime corrupto”. Funcionam como amplificadores orgânicos que legitimam balões de ensaio russos em parlamentos nacionais e no Parlamento Europeu, devolvendo-os potenciados às redes sociais. O Kremlin explora ainda, com precisão cirúrgica, o escândalo de corrupção de alto nível que abalou o Ministério da Defesa ucraniano em novembro de 2025. A narrativa imediata – “o Ocidente financia corrupção” e “o grupo criminoso que lidera a Ucrânia” – é antiga e previsível. O que os propagandistas omitem é que o caso só veio a público graças a investigações jornalísticas ucranianas independentes e que as demissões foram imediatas.

Longe de revelar fraqueza, expõe a vitalidade democrática de um país em guerra – algo que o sistema russo, estruturalmente opaco, nunca permitiria. O objetivo estratégico permanece inalterado: ganhar tempo para reconstituir capacidades militares russas enquanto aprofunda as divisões euro-atlânticas. Cada semana que a Europa perde a discutir a “razoabilidade” de um acordo que exclui Kiev e consagra conquistas territoriais por direito de força é uma vitória para Moscovo. E se, como tudo indica, este plano reflete não apenas balões de ensaio russos mas posições reais da futura administração americana, o risco é ainda maior: Washington deixa de ser mero espectador e passa a coautor de uma estratégia que institucionaliza a hesitação ocidental como nova norma. Nesse cenário, o acordo não seria apenas tóxico por legitimar a conquista territorial, mas por transformar a própria política americana em catalisador da corrosão da coesão europeia. A paz justa e duradoura só pode assentar na restauração da soberania ucraniana. Qualquer outra “solução” que passe pela capitulação disfarçada de pragmatismo será apenas o resultado final de uma exaustão cognitiva – debates intermináveis, erosão da confiança pública, deslocamento da atenção mediática – e, em alguns casos, material. Tudo isto habilmente induzido ao longo de quatro anos de guerra.

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