A saúde dos velhos de Trás-os-Montes!... – Quando há mais de três décadas a Domingas, da minha aldeia, que tinha de fazer hemodiálise por insuficiência renal, me disse que não lhe transplantavam um rim, por ser velha, mexeu com o meu interior ao ponto de nunca mais me largar esta sentença cruel. Sempre que visitava a minha aldeia tentava saber como ia a saúde da Domingas. Queixava-se-me das más condições em que, por vezes, a transportavam a Chaves, para o tratamento, em carroçaria fechada, «como se fosse gado em vagão fechado», de um lado para o outro nas curvas. Aquilo, dizia, não é forma de transportar gente e muito menos doentes. Depois, foi criada uma unidade de tratamento de hemodialisados em Mirandela e melhorou o seu pedregoso calvário. Mas, fui sempre perseguido pelas palavras duras, como facas de aço apontadas ao corpo do maior sofrimento, «não lhe transplantavam um rim, por ser velha». Durante mais de duas décadas a Domingas carregou, no seu calvário, este contrapeso esmagador dentro de si, de velha para morrer, sem lhe diminuírem o sofrimento. Pelas minhas contas a Domingas finou-se bem mais de duas décadas (quase trinta anos) depois de «ser velha». Quando partiu para sempre, questionei-me se quando, andava na casa dos sessenta, seria assim tão velha que não justificasse, pelo menos, uma tentativa de encontrar um dador na família que lhe desse um rim para ter uma vida de qualidade durante bem mais de vinte anos que viveu em grande sofrimento? Quando se transplanta alguém com quarenta ou cinquenta anos não tem nenhuma caução de vida que lhe assegure que vai viver, dez, vinte ou trinta e alguém mais velho vai ter uma vida curta. Isto para falar duma situação que reporto com frequência de que fulano ou sicrano é velho e já não o operam, por exemplo, a uma fractura ou não lhe colocam uma prótese. Tem oitenta e tal anos e já não lhe fazem uma transfusão por ser velho. Isto se for mesmo como se ouve dizer parece que os velhos estamos a passar muito para trás dos cães, que já têm hospitais e clínicas para intervenções cirúrgicas e os donos recebem grande promoção social e benefícios fiscais por os perros serem intervencionados em cirurgias que se «esquecem» aos velhos. Nunca ouvi dizer a ninguém que não operou o cão por ser velho!... Vem isto a propósito que uma familiar velha de 81 anos, ter estado com uma fractura no fémur, de sábado a quarta-feira, e só terá sido operada depois da filha ter questionado com alguma impaciência porque é que a mãe não era operada. Igualmente para se debelar uma anemia muito grave será necessário mostrar impaciência e querer dar-se sangue à própria mãe. Mas, tudo muda de figura e atenções, para muito melhor, quando se sabe que a filha ocupa um cargo no tribunal Internacional de Haia. Assim, as informações vão-se ouvindo que os médicos espanhóis do nosso sistema público de saúde serão mais atenciosos com os nossos velhos do que alguns portugueses. Seja verdade ou mentira era bom que esses actos, omissos ou não, sejam corrigidos na opinião pública, porque há muitos velhos apavorados. Até lá, será justo perguntar para que sociedade caminhamos? E que tratamento esperam na velhice os que hoje assim procedem?

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