A Ponte
de Pedra - Na minha
infância e juventude, usufrui imenso do rio Tuela, junto à Ponte de Pedra, na
Torre de Dona Chama. Nos domingos quentes de verão, após a missa, costumávamos
ir para o rio fazer piquenique na sombra das árvores. A minha mãe fazia um
grande farnel de comida e por lá ficávamos até ao final da tarde. Estendia-se
uma manta de trapos no chão, onde nos deitávamos à fresca; e outra, onde se
colocava uma toalha de mesa e a comida. Entre mergulhos, aproveitávamos para
conviver com as pessoas que lá estavam. Eram dias bem passados que lembro com
ternura. Quando tinha sete anos, no dia da Festa do Divino Senhor dos Passos de
Torre de Dona Chama (realiza-se no fim de semana seguinte à festa de
Mirandela), eu e o meu primo Luís fizemos a primeira comunhão. Fomos comer para
a Ponte de Pedra. À tarde, andava no meio do rio dentro de uma câmara de ar,
não tinha ainda uma boia, a explorar tudo. Deu-me na ideia de ver se tinha pé.
Fui escorregando pela câmara de ar até desaparecer. Alguém deu pela minha falta
e deu o alerta. Estava lá um senhor da GNR que me encontrou e prestou os
primeiros socorros. Muita água deitei fora. Devo a vida a esse senhor, que
passei a cumprimentar afetuosamente sempre que me cruzava com ele. Mais tarde -
aí pelos quinze ou dezasseis anos -, passei a ir com o Farrusco, ao fim do dia,
para o rio. Ia numa motorizada, Zundapp XF 17, que conduzia com mestria,
oferecida pelo meu pai - o Ti Iriberto das motas e bicicletas. O cão, sentado
no meio das minhas pernas e com as patas dianteiras no depósito da gasolina, ia
feliz e contente. Era um cão de pequeno porte, todo preto e com uma risca
branca no pescoço que parecia uma gravata. As orelhas arrebitavam com o vento,
e eu ia devagar para que ele não caísse. Tinha-lhe imensa afeição.
Ganhei algum juízo… o certo é que nunca
caí. Para vos contextualizar, sobre este ícone da vila de Torre de Dona Chama,
vou contar-vos do atual estado desta ponte, por onde pouca água corre no verão
– tudo muda com o passar do tempo. A Ponte de Pedra, Monumento Nacional desde
1982, é uma das pontes romanas mais bem conservadas do país, e a sua construção
é do século III. Esta ponte, em matéria de zelo, deixa muito a desejar. A
Infraestruturas de Portugal, IP não procede à limpeza e desmatação da vegetação,
com a regularidade devida. Tendo em conta que passa pela ponte a Estrada
Nacional 206, é a esta entidade estatal que cabe cuidar do Monumento Nacional.
Pois… Cansada de vê-la cheia de silvas e arbustos, a pulularem pelas juntas,
colocando em perigo a estrutura da ponte, e conhecendo a inércia da Junta de
Freguesia de Torre de Dona Chama, resolvi, em 2023 e 2024, pedir a intervenção
da entidade responsável – Infraestruturas de Portugal, IP. Fizeram a desmatação
e a vistoria à estrutura da ponte, tal como lhes havia solicitado, factos
comprovados por fotografias e vídeos que fui recebendo. Este ano, decidi que
era tempo de outros (Junta de Freguesia de Torre de Dona Chama e/ou Câmara
Municipal de Mirandela) agirem. Ninguém fez nada. Lá continua a ponte cravejada
de vegetação, que rebenta a cada ano após a primavera, para descontentamento de
quem lhe tem apreço. O município de Mirandela tem apenas dois Monumentos
Nacionais:
1 - Ponte de Pedra sobre o rio Tuela,
Torre de Dona Chama; 2 - Ponte sobre o rio Tua (também conhecida como Ponte
Velha), Mirandela.
Seria pedir muito que, as entidades com
responsabilidades autárquicas, zelassem pelo bom estado de conservação dos seus
Monumentos Nacionais? Nem em ano eleitoral foram capazes de pedir a limpeza da
ponte de Torre de Dona Chama. Tudo isto me entristece, faz-me pensar que os
Monumentos Nacionais só são apreciados por visitantes e alguns filhos da terra.
Teresa
Ferreira
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| Jorge Lage Notícias de Mirandela 31/10/XXV, p.12 |
Nota:
A flamulense e mirandelense, Teresa Ferreira, retoma a colaboração com o
Notícias de Mirandela esperando que este velho jornal regional continue a levar
longe os ecos de um concelho que vem perdendo protagonismo regional. Um jornal
não deve ser quinta de ninguém e honra seja feita ao Jerónimo Pinto, procurando
dar voz às vozes do nosso concelho. Tanto mais que a Teresa Ferreira, quadro superior
da administração central, nasceu na Torre Dona Chama, uma pequena vila da qual
Mirandela quase nunca quis saber, a não ser, no dizer de seus conterrâneos,
para desviar pequenos ou médios projectos industriais, convencendo os
empreendedores a investirem em Mirandela, em vez de o fazerem na Torre. Por
mais que alguns «colonizadores» da urbe mirandelense queiram apenas desenvolver
Mirandela esquecendo o restante concelho, estão a ser coveiros da mítica «Terra
Quente», com condições ímpares para se afirmar no contexto regional e que tem
desbaratado. Um concelho tem que se desenvolver como um corpo são. O que se tem
visto é Mirandela definhar, enquanto Bragança e Vila Real souberam crescer e
desenvolver-se. Já vai longe o consulado autárquico, que proclamava que
«Mirandela não precisava de Doutores, mas de tractores». Os doutores ou
engenheiros são a massa crítica para se projectar o desenvolvimento de uma
região. Mas se Mirandela até tem receio de criar «um conselho municipal
consultivo cultural», quão incómoda não será gente empreendedora e com visão
estratégica de desenvolvimento municipal ou regional? A última página do NM fica
mais enriquecida com a participação de Teresa Ferreira e os leitores podem, também,
ajudar a ir melhorando, para bem de todos.
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