sábado, 29 de novembro de 2025

A Ponte de Pedra

 

A Ponte de Pedra - Na minha infância e juventude, usufrui imenso do rio Tuela, junto à Ponte de Pedra, na Torre de Dona Chama. Nos domingos quentes de verão, após a missa, costumávamos ir para o rio fazer piquenique na sombra das árvores. A minha mãe fazia um grande farnel de comida e por lá ficávamos até ao final da tarde. Estendia-se uma manta de trapos no chão, onde nos deitávamos à fresca; e outra, onde se colocava uma toalha de mesa e a comida. Entre mergulhos, aproveitávamos para conviver com as pessoas que lá estavam. Eram dias bem passados que lembro com ternura. Quando tinha sete anos, no dia da Festa do Divino Senhor dos Passos de Torre de Dona Chama (realiza-se no fim de semana seguinte à festa de Mirandela), eu e o meu primo Luís fizemos a primeira comunhão. Fomos comer para a Ponte de Pedra. À tarde, andava no meio do rio dentro de uma câmara de ar, não tinha ainda uma boia, a explorar tudo. Deu-me na ideia de ver se tinha pé. Fui escorregando pela câmara de ar até desaparecer. Alguém deu pela minha falta e deu o alerta. Estava lá um senhor da GNR que me encontrou e prestou os primeiros socorros. Muita água deitei fora. Devo a vida a esse senhor, que passei a cumprimentar afetuosamente sempre que me cruzava com ele. Mais tarde - aí pelos quinze ou dezasseis anos -, passei a ir com o Farrusco, ao fim do dia, para o rio. Ia numa motorizada, Zundapp XF 17, que conduzia com mestria, oferecida pelo meu pai - o Ti Iriberto das motas e bicicletas. O cão, sentado no meio das minhas pernas e com as patas dianteiras no depósito da gasolina, ia feliz e contente. Era um cão de pequeno porte, todo preto e com uma risca branca no pescoço que parecia uma gravata. As orelhas arrebitavam com o vento, e eu ia devagar para que ele não caísse. Tinha-lhe imensa afeição. 
Ganhei algum juízo… o certo é que nunca caí. Para vos contextualizar, sobre este ícone da vila de Torre de Dona Chama, vou contar-vos do atual estado desta ponte, por onde pouca água corre no verão – tudo muda com o passar do tempo. A Ponte de Pedra, Monumento Nacional desde 1982, é uma das pontes romanas mais bem conservadas do país, e a sua construção é do século III. Esta ponte, em matéria de zelo, deixa muito a desejar. A Infraestruturas de Portugal, IP não procede à limpeza e desmatação da vegetação, com a regularidade devida. Tendo em conta que passa pela ponte a Estrada Nacional 206, é a esta entidade estatal que cabe cuidar do Monumento Nacional. Pois… Cansada de vê-la cheia de silvas e arbustos, a pulularem pelas juntas, colocando em perigo a estrutura da ponte, e conhecendo a inércia da Junta de Freguesia de Torre de Dona Chama, resolvi, em 2023 e 2024, pedir a intervenção da entidade responsável – Infraestruturas de Portugal, IP. Fizeram a desmatação e a vistoria à estrutura da ponte, tal como lhes havia solicitado, factos comprovados por fotografias e vídeos que fui recebendo. Este ano, decidi que era tempo de outros (Junta de Freguesia de Torre de Dona Chama e/ou Câmara Municipal de Mirandela) agirem. Ninguém fez nada. Lá continua a ponte cravejada de vegetação, que rebenta a cada ano após a primavera, para descontentamento de quem lhe tem apreço. O município de Mirandela tem apenas dois Monumentos Nacionais:

1 - Ponte de Pedra sobre o rio Tuela, Torre de Dona Chama; 2 - Ponte sobre o rio Tua (também conhecida como Ponte Velha), Mirandela.

Seria pedir muito que, as entidades com responsabilidades autárquicas, zelassem pelo bom estado de conservação dos seus Monumentos Nacionais? Nem em ano eleitoral foram capazes de pedir a limpeza da ponte de Torre de Dona Chama. Tudo isto me entristece, faz-me pensar que os Monumentos Nacionais só são apreciados por visitantes e alguns filhos da terra.

Teresa Ferreira

 

Jorge Lage

Notícias de Mirandela
31/10/XXV, p.12
Nota: A flamulense e mirandelense, Teresa Ferreira, retoma a colaboração com o Notícias de Mirandela esperando que este velho jornal regional continue a levar longe os ecos de um concelho que vem perdendo protagonismo regional. Um jornal não deve ser quinta de ninguém e honra seja feita ao Jerónimo Pinto, procurando dar voz às vozes do nosso concelho. Tanto mais que a Teresa Ferreira, quadro superior da administração central, nasceu na Torre Dona Chama, uma pequena vila da qual Mirandela quase nunca quis saber, a não ser, no dizer de seus conterrâneos, para desviar pequenos ou médios projectos industriais, convencendo os empreendedores a investirem em Mirandela, em vez de o fazerem na Torre. Por mais que alguns «colonizadores» da urbe mirandelense queiram apenas desenvolver Mirandela esquecendo o restante concelho, estão a ser coveiros da mítica «Terra Quente», com condições ímpares para se afirmar no contexto regional e que tem desbaratado. Um concelho tem que se desenvolver como um corpo são. O que se tem visto é Mirandela definhar, enquanto Bragança e Vila Real souberam crescer e desenvolver-se. Já vai longe o consulado autárquico, que proclamava que «Mirandela não precisava de Doutores, mas de tractores». Os doutores ou engenheiros são a massa crítica para se projectar o desenvolvimento de uma região. Mas se Mirandela até tem receio de criar «um conselho municipal consultivo cultural», quão incómoda não será gente empreendedora e com visão estratégica de desenvolvimento municipal ou regional? A última página do NM fica mais enriquecida com a participação de Teresa Ferreira e os leitores podem, também, ajudar a ir melhorando, para bem de todos.

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