Por Maria da Graça
A castanha está associada à castidade, por se refugiar no
ouriço com espinhos, até à altura em que está madura, e pronta para ser comida.
Segundo reza a tradição oral, em Carrazedo de Montenegro
(c. de Valpaços), o Juiz de Paz, Carolino Loques, dava como castigo, a alguns
réus, a obrigação de plantarem castanheiros, demonstrativo do valor social e de
árvore previdência que era o castanheiro.
Há décadas atrás os castanheiros eram procurados para
madeira que era bem paga, chegando a haver castanheiros que rendiam, então,
cento e cinquenta contos (750 euros).
Na primeira metade do século XX, em terras de Monforte de Rio Livre, quando as castanhas começavam a pingar, o regedor, ou cabo de polícia ou mais recentemente o presidente da junta de freguesia, avisava os castanhicultores de que, nesse dia à noite iria haver reunião na eira. Nessa reunião era perguntado em que dia queriam que se encerrassem os porcos no curral ou na loja. Nesse tempo (principalmente até final da primeira metade do século XX), os recos andavam em liberdade pelas ruas das aldeias e baldios próximos.
Outrora em Lebução (c. de Valpaços) as castanhas que
caíam nos caminhos ou locais públicos não podiam ser apanhadas a não ser pelo
dono ou por pessoa encarregue por ele. Só a junta de freguesia podia
autorizar essa apanha.
Não era válido o provébio «a castanha tem uma manha quem
a vê apanha-a», mas o gado que passasse no caminho podia comer a castanha, não
havendo forma de o proibir. Por isso, alguns pastores mais adiantados
(adiantados, sinónimo de abusadores ou atrevidos), passavam nos caminhos muito
cedo para que o gado comesse a castanha caída nessa noite.
É comummente aceite, em alguns locais, quando há uma só
castanha no ouriço, se semear não precisa de ser enxertado o novo pé. Em
Cossourado, c.de Paredes de Coura, acredita-se que se se cortar o
espigão (raiz mais aprumada) à raiz do castanheiro, quando ainda novo, o
castanheiro sai manso, como se fosse enxerto. Crença semelhante se tem com a
castanha do meio, que se semear, o castanheiro nascido desta, não precisa de
ser enxertado.
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No c. de Boticas, quando um castanheiro seca e do
tronco junto à terra saem rebentos, diz-se que o «pai está morto» e rebentam os
«filhotes».
Em Santa Marta do Alvão, c. de Vila Pouca de Aguiar,
faziam-se «rosairos» ou «terços». com as ronchas ou castanhas piladas que
ficavam aveladas, geralmente com dez castanhas cada um, sendo oferecidos ao
Menino Jesus, numa arrematação ou leilão do Dia de Reis.
As gentes de Lamego, por se terem livrado da praga da
lagarta que lhes destruía as culturas, terão ido em romaria cumprir promessa,
oferecer colares de castanhas, à Nossa Senhora da Lapa, como agradecimento. Os
colares de castanhas passaram a ser moeda de troca nesta devoção entre a
Senhora e os romeiros.
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In MEMÓRIAS DA MARIA CASTANHA
Jorge Lage -Mirandela

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