quinta-feira, 2 de outubro de 2025

MONTALEGRE 50 Anos de Liberdade História Viva do Concelho

JORGE  GOLIAS
 

MONTALEGRE

50 Anos de Liberdade

História Viva do Concelho


"Quem Somos e Donde Viemos", e assim fica completo o conjunto capitular desta monumental obra de 416 páginas, de capa dura, papel couché, magnífico design do próprio autor, destacando-se em primeira impressão visual a excelência de muitas das suas fotos. O autor, Domingos Chaves, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais é um ilustre barrosão, com um excepcional percurso profissional, recheado de reconhecimentos oficiais, director de A Barrosana e meu amigo, dando-me nesta obra um lugar de destaque pelo meu papel no 25 de Abril de 1974. Depois desta declaração de interesses, já posso dizer/escrever que para um capitão de abril esta obra é um cântico celestial de uma Saga Histórica que, com um poema dedicado, Custódio Montes, abre esta celebração.

Domingos Chaves fez então a junção feliz entre esta data abrilista, o seu significado nacional e a sua incidência em Terras de Barroso. E dá início a esta longa viagem pela História com a Civilização Celta, que aqui deixou marcas indeléveis, talvez mais fortes do que em outras partes do território transmontano. E inscreve bem duas marcas fortes desta civilização: a não existência de memória escrita, mas tão só oral, e o papel das mulheres na sociedade. Depois anuncia a chegada dos romanos que nos marcaram, sobretudo com o Direito e a Língua, mas também a Cultura, a Cidadania e as Comunicações viárias.


Leva-nos depois por uma longa viagem pela Idade Média até à formação da nacionalidade e, logo a seguir, sem perder muito tempo, apresenta-nos a formação das Terras de Barroso, datando-a de 1273 em foral de D. Afonso III. Em "Uma Estória que vem de Longe" vai apresentando as Terras de Barroso, voltando à Civilização Celta para datar as mais remotas origens culturais - a cultura castreja. Volta também a convocar os romanos lembrando-nos o que mais somos - latinos!

O Rei fundador - D. Afonso Henriques - tem aqui um lugar principal e, com naturalidade, nos surge João Barroso da Fonte, seu historiador mais creditado, que o autor aqui celebra com um dos mais ilustres cidadãos de Barroso.

A História continua-se aqui com todos os seus capítulos mais importantes, sempre em busca da perspectiva das marcas deste território, com reporte de episódios pitorescos como a história da Ponte de Misarela, o último enforcado em Montalegre, para assim chegar à apresentação quase triunfante da cultura barrosã - A Terra e a Gente - nos séculos XIX e XX.

Assim se foi a Monarquia e chegou a República, não sem antes se referir alguns actores locais no episódio da incursão das tropas de Paiva Couceiro poe Sendim que, como nos conta Domingos Chaves, já nos tinha sido relatada por outros ilustres barrosões como Bento da Cruz, António Chaves, Barroso da Fonte e Domingos Baptista que, juntos, subscreveram a obra "República e Incursões Monárquicas". Como conheço todas estas histórias que me foram contadas por António Chaves e algumas na literatura de Bento da Cruz, destaco destes registos a história do Padre guerrilheiro, Domingos Pereira, monárquico, que os barrosões celebram, não pelos seus ideais anti-republicanos, mas pelo seu carácter, coragem e pela dignidade com que viveu, valores, afinal, tão caros aos transmontanos.

E assim se chega ao período negro da História - a Ditadura. E como foi durante esta que sobreveio a la Guerra Mundial, 1914-1918, o autor publica aqui os nomes de todos os militares que nela se envolveram, dando-lhes visibilidade histórica e quadro de honra. Vem então a era de Salazar, mas também aqui há barrosões que se distinguiram, como Bento Gonçalves, que foi secretário-geral do PC e que, preso, viria a morrer na prisão do Tarrafal.

Relata a seguir um episódio decorrido em 1946 em consequência da Guerra Civil de Espanha que acabou em 1939 que ficou conhecido como a Batalha de Cambedo. Bento da Cruz fez o relato minucioso em "Guerrilheiros antifranquistas em TOM". Também eu, em Dez 2006, quando este episódio completou 60 anos, publiquei um texto no NM a dar conta do que se passou, replicando uma notícia desse dia da TSF.

Surge depois mais um episódio que se fixou no imaginário dos barrosões, o do assalto em Parafita à carreira Braga-Chaves, maliciosamente atribuído aos guerrilheiros galegos.

Mais um herói para esta galeria que Domingos Chaves elencou surge agora na figura do Tenente Seixas, da Guarda-Fiscal, por ter desafiado a PIDE e o Regime de Salazar, ao salvar centenas de refugiados espanhóis que fugiam da guerra civil. Reporta depois o autor alguns dos crimes da Ditadura, com destaque para o assassinato do Gen Humberto Delgado e entra depois na análise da política da Junta de colonização interna, citando as aldeias-jardim de Montalegre, com o foco na colonização dos baldios que eram considerados um grande sustento económico das classe mais pobres, concluindo pelo "grande fracasso da propaganda salazarista". Com idêntico ponto de vista histórico se situam também as barragens de TOM que retalharam os rios em benefício das grandes cidades e sem proveito específicos dos territórios intervencionados.

No capítulo As Origens e Tradições das Terras do Barroso é referido que a palavra Barroso foi pela primeira vez citada num documento galego de 1100 "que indica o Barroso servir de termo à villa de Tourém". E logo Tourém que nos fascina por ser aquele troço viril metido em terras de Espanha!

São agora referidas as tradições de Barroso como a matança do porco, o boi do povo, o forno do povo, o fumeiro, as chegas de bois e a vida muito difícil num território que se caracterizava por ter nove meses de Inverno e três de Inferno.

Surge agora outra figura pública ilustre, o Dr. Victor Branco, o último presidente da Câmara eleito na 1a República, porque depois do 28 de Maio de 1926, com a Ditadura deixou de haver eleição sendo feitas nomeações pelo Regime.

Para melhor caracterizar a rudeza da vida no território o autor convoca agora dois escritores e dois livros, Ferreira de Castro com Terra Fria e Bento da Cruz com O Lobo Guerrilheiro.

Surge depois a história do Volfrâmio das minas da Borralha: "O tempo em que o volfrâmio da Borralha era vendido aos nazis e pago com o ouro roubado aos países ocupados". O chamado ouro nazi encheu assim os cofres do Regime.

Temas com a Saúde e a Educação estão aqui inscritos e abordados respectivamente por João Damião e por Abel Moutinho, mais dois nomes históricos da Região.

Domingos Chaves presta agora homenagem ao Colégio de Montalegre nas pessoas da Dra. Margarida e do Dr. Américo Canedo, citando o Colégio como "A Escola que abriu Novos Mundo ao Mundo", e aproveita para também homenagear um seu distinto aluno, o Dr. António Chaves, com publicação de uma foto feliz. Esta recordatória foi-me muito prazerosa porque este Ilustre barrosão era um dos meus melhores amigos.

Já em tempo de meia publicação surge a Guerra Colonial que o autor inicia com uma precisão histórica: os primeiros incidentes graves com nativos não foram os muito citados de Angola, mas sim os de São Tomé e Príncipe, em Fevereiro de 1953, em que foram mortos centenas de nativos no que ficou conhecido como o Massacre de Batepá.

Esta guerra do nosso tempo, decorreu de 1961 a 1974, em três frentes, mobilizou mais de 1 milhão de portugueses, com custos humanos só do nosso lado de cerca de 9000 mortos, 30 mil feridos e 140 mil com stresse pós-traumáticos e que absorveu quase 45% do PIB português. Era, assim, uma das razões do nosso atraso e da nossa pobreza. O autor compila dados muito importantes para se perceber a extensão deste mau período da nossa história e termina a exposição, uma vez mais com o quadro de honra dos heróis barrosões que tombaram nesta guerra.

Aqui tenho de dizer que poucas terras terão tido esta iniciativa de registar para a História os nomes dos que tanto merecem ser lembrados e que as mais das vezes ficam na penumbra ou na sombra da nossa memória colectiva.

O salazarismo e o caetanismo desfilam agora por estas páginas, onde se dá Emigração - a fuga em massa para o estrangeiro fugindo da miséria e da fome e se inicia a desertificação das terras, que ainda hoje penaliza toda a região transmontana.

Outro rosto da luta contra a ditadura foi o de José Maria de Freitas, apoiante de Humberto Delgado, que sofreu diversas perseguições até à expropriação da sua própria casa!

E agora surge a Revolução dos capitães, da qual Domingos Chaves reporta o início na Guiné-Bissau, citando os nomes dos três primeiros capitães de abril a iniciar a Conspiração.

Descreve depois a Operação Fim de Regime, que teve o nome de código de "Viragem Histórica" e cuja figura principal foi Salgueiro Maia, meu camarada e amigo com o qual convivi na Guiné-Bissau. Elenca na página 231 os principais capitães de abril:

No Continente: Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Vasco Lourenço, Garcia dos Santos, Franco Charais, Vítor Alves, Vítor Crespo, Luís Macedo, Melo Antunes, Martins Guerreiro, Costa Neves, Pereira Pinto, Pinto Soares, Sousa e Castro, Diniz de Almeida e Marques Júnior.

Em Angola - Pezarat Correia; Em Moçambique - Aniceto Afonso e na Guiné - Jorge Golias.

Faz depois o relato de quatro barrosões na Revolução. São eles: Fernando Giesteira, que morreu às balas da PIDE, apenas com 18 anos na única acção do sangue do dia 25 de Abril. A seu lado estava Domingos Chaves, o autor desta obra. João Milosas que faleceu prematuramente e Alcéu Afonso, Presidente da Junta de Freguesia de Gralhas.

Na página 240 o autor apresenta uma tabela comparativa de como era o Portugal antes e depois do 25 de Abril, de grande valor pedagógico.

A seguir dá destaque ao ilustre barrosão Dr. António Chaves com um texto do próprio e ao seu jeito, em que logo começa por introduzir Bento da Cruz corno brilhante escritor. O texto leva o título "Concelho de Montalegre- Um território ímpar..", matéria de que António Chaves muito sabia e muito queria que se soubesse. Eu próprio tive de ler e de ouvir muito sobre o Barroso para o poder acompanhar nos seus escritos e nas suas elaborações.

Corno testemunho do passado e como reactivação do futuro apresenta-nos a seguir o Ecomuseu do Barroso, destacando o papel de António Martinho Baptista e de Fernando Pessoa na sua expansão para fora do Parque Nacional Peneda-Gerês.

O dialecto não podia faltar numa região tão bem descrita por Bento da Cruz. Agora foi Rui Guimarães, um professor da UTAD que pôs a descoberto o falar próprio do Barroso, em que 43% dos termos falados são comuns à Galiza. Este dialecto muito perto do português medieval, preserva assim a nossa raiz linguística, ao contrário do mirandês que tem raiz lionesa.

Continuam a desfilar por esta passadeira da História barrosã marcas culturais como os Motes de Gralhas que eram, no fundo cantiga de escárnio e maldizer, as capas de burel, cujas origens remontam ao séc- XI, e a capucha domingueira. Mas também o mítico e muito celebrado Dia das Bruxas, numa Sexta-Feira, 13, que tem como personagem principal o Padre Lourenço Fortes e que é uma boa contribuição para a economia local.

Na História dos povos o reconhecimento dos melhores é um capítulo obrigatório e aqui também essa regra não escrita se cumpre. Nesta Galeria de ilustres cidadãos barrosões constam os seguintes grande nomes:

António Lourenço Fontes, padre (1940), o Homem que colocou Montalegre no mapa, símbolo da região e da Liberdade. Bento Gonçalves da Cruz (1925-2015), pastor, médico e escritor premiado. João Barroso da Fonte (1939), um homem de causas, escritor, historiador e o decano dos jornalistas. António Carneiro Chaves (1943-2024), economista, empresário e escritor que presidiu à ALTM. Custódio Pinto Montes (1944), pastor, Juiz Conselheiro jubilado, cantor e poeta. José Dias Baptista (1941), professor e historiador. António Lopes Amador, padre (1928-2006), com destacada carreira militar, orador e benfeitor. João Maria Calvão da Silva (1952-2018), advogado, doutorado, com excepcional carreira na administração pública. Júlio Baptista dos Santos (1938-2021), empresário que se fez do nada e benfeitor dos mais necessitados. Júlio Alberto Carneiro Pereira (1953-2024), brilhante carreira judicial atingindo o topo da carreira como Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

E chega o tempo da política local fixada na galeria dos Presidentes de Câmara: Carvalho de Moura (1976-1989), Joaquim Pires (1990-1998), Fernando Rodrigues (1999-2013), Orlando Alves (2013-2022) e Fátima Fernandes (2022-2025), o primeiro do PSD e todos os outros do PS.

Domingos Chaves relata a seguir e com muito detalhe o que foi o desenvolvimento económico da Região ao longo dos últimos 50 anos, o tempo da Liberdade e da Democracia, que esta obra também celebra. Aqui ficam inscritas as conquistas feitas nas mais diversas áreas como a Saúde, a Agricultura (ênfase na famosa batata de Montalegre), o Gado barrosão, as Infraestruturas e a celebrada Gastronomia barrosã.

Descreve a seguir a estrutura administrativa do Concelho com as suas 25 freguesias que, aliás, merecem do autor magníficas sínteses descritivas.

Esta longa viagem pela História deste concelho está a chegar ao fim. Deixo aqui um desafio aos barrosões para que leiam esta obra, que tem tudo para ser um sucesso duradouro com interesse imediato para todos, velhos e novos, e mesmo até para os não naturais, mas que por razões várias acabaram por se interessar por mais saber sobre este território que atrai quem mais dele se aproxima, por todas as razões: pela natureza que lhe foi tão pródiga, pela História que chega a ser encantatória, pela Literatura, das melhor de TMAD e, sobretudo, pelas pessoas. Por mim falo, nestes últimos 15 anos da minha vida alguns dos meus melhores amigos foram/são barrosões.

Domingos Chaves não acaba o seu relato sem apresentar o Retrato Saciai do Concelho, sustentado nos Censos 2021. A principal conclusão é a perda de população (-11,7%), que se verifica em toda a região transmontana. Residem no Concelho 9279 habitantes, dos quais 4466 são homens e 4813 mulheres. Há 1% de estrangeiros. O peso dos idosos (461 por cada 100 jovens) é superior ao da média nacional, tal como na população activa de 56,4%.

E termina esta monumental obra com um apontamento de luta contra o lítio no concelho, apresentando a actual presidente, Dra Fátima Fernandes, como a líder que “tudo fará para que a exploração não venha para aqui”.

O autor teve ainda a feliz ideia de entrevistar a presidente do município, apresentando-a como a Presidente do Cinquentenário do 25 de Abril. Como capitão de abril, permito-me destacar dentre a excelência de muitas respostas, aquela que me toca mais profundamente:

Qual o feito militar que mais admira? - 25 de Abril de 1974 pela generosidade e desprendimento de quem o fez.

A minha vénia senhora Presidente!

E mais uma vénia para o autor desta grandiosa obra, Dr. Domingos Chaves, de que poucas terras se poderão orgulhar de possuir.

 

Carnaxide em 2 de Julho de 2025

Jorge Sales Golias

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