segunda-feira, 13 de outubro de 2025

A Rola e o Zarra

                                                                          
                                                                   

JORGE  LAGE


A Rola e o Zarra –O subsídio de reinserção social, ao ser instituído, teve um cunho bom, só que os legisladores em vez de gizarem bem a quem e quando se deve atribuir, deixaram um dique aberto para os muitos indigentes, gerando grande falta de mão-de-obra no mundo rural e urbano e também injustiças sociais. Não está certo que uns trabalhem e outros vivam da pedinchice, décadas e mais décadas, à custa dos que trabalham. 

O mais negro desta história de papalvos ou papa-votos é que alguns dos imigrantes vivaços (dos quase dois milhões trabalham 350 mil) descobriram uma forma de receber sem trabalhar «ad eternum» e vêem-se às dezenas nos cafés, tascas e deambulando pelas ruas, na hora de trabalho, cigarro na mão, calção e chinela, dizendo alguns que nos vêm «colonizá». A história que conto ocorreu numa aldeia do Interior e diz-nos que a atribuição facilitista do rendimento mínimo é prejudicial a muitos que o recebem. Ao receberem sem trabalhar é para os indigentes promoção social e o reverso da medalha, bem cedinho, os cafés virarem tascas ou tabernas e: - saia um copo de vinho (ou cerveja)! Os ventres masculinos salientes dos excessos. Farrapos humanos. Mas, o Zarra quer conquistar uma fêmea pela música popular e instalou na carroça uma coluna de som que, de goelas bem abertas, vai assinalando a sua passagem, ruas da aldeia fora. Uns tempos atrás, o Zarra entrou, à tardinha, no café, fazendo equilibrismo devido á instabilidade permanente do piso e paredes, provocando-lhe um desequilíbrio constante, como se quase trauteasse um «vira» ou um malhão, desajeitados. Lá foi conseguindo chegar-se ao balcão, sempre em contorções de corpo e pediu um copo de tinto. Quando se apercebeu que havia mais gente no café e era o alvo dos olhares, foi oferecendo cervejas e copos de vinho. Uns aceitavam, outros negavam, deixando-o num movimentado monólogo pastoso. Às tantas, vai cambaleando e arrastando-se até à porta de saída, fazendo pequenas estações para angariar clientela para o seu discurso azorrado. Presa ao portão esperava-o a «Rola», avantajada e paciente mula espigarça, fazendo contas à vida com a aproximação contorcida do dono. Ao soltar a rédea do portão segue atrás do Zarra, iniciando a marcha com contorcidos constantes de corpo. A descida acentuada prognosticava um caminhar até à loije da besta sem sobressaltos, que foi desconfiando por o dono não a montar e ir à pata. O Zarra ia empurrando as pernas calçada abaixo e uns cem metros à frente, encostou-se à soleira da casa que foi da Fana Grila por a ver mais baixa e menos movediça. A Rola estancou, mas, atacada pelos moscardos, no focinho e nas «brilhas», abanava a cabeça, resfolgava quanto podia e atirava para o ar uns pinotes a afugentar as ferroadas impiedosas. O Zarra habituado à mansidão da Rola e vendo o chão em constantes oscilações, capazes de lhe provocarem uma odrada, achou que todo o mal que o cercava era obra da mula que ia denunciando os incómodos e o cansaço e queria chegar ao curral. O Zarra iniciou de seguida um diálogo arrastado e ameaçador: – Rola! está quieta e faz o que te digo, porque me estás a deixar virado. A Rola fita-o de mansinho e paciente. Mas os olhos toldados dos muitos copos, viam nela, alguma ameaça que terá recebido doutros de maus fígados, e avisa-a: – Rola! Ouve o que te digo!... Está quieta ou queres apanhar com um sacho nos cornos e adormeces já aqui? Entretanto passa um jovem de motorizada, vendo que é mais um espectáculo deste jovem borracho, parou à distância, assistindo ao monólogo ameaçador do Zarra com a Rola, rindo-se até mais não. Por fim, achou que já tinha gozado o suficiente, arrancou, na velha zundap, rua abaixo. O Zarra agastado com o que lhe pareciam ser as constantes diabruras da Rola, nem se apercebeu da assistência ou esta não o cativava, continuando em tom ameaçador: - Rola faz o que te digo, porque já não estou em mim!... Queres levar com uma sachola nos cornos e veres escorrer sangue? Queres!... O triste e burlesco espectáculo durou longos minutos até que a inclinação da descida o empurra rua abaixo para mais uma estação circense quando assomasse à Praça do povoado. Talvez o Zarra tenha dormido na «loije» da Rola até que a carraspana lhe apartasse. Outro dia o Zarra, sentindo-se muito maltratado pela bebida, engendrou um plano para passar junto ao ponto crítico, o Café do Carlão, sem que ninguém o descobrisse. Então, carrega a mula com uma carga de palha e feno e deixa um espaço, no meio da tosca carroça, onde se encafua, escondendo-se dos olhares zombeteiros do seu pequeno mundo. À noitinha lá vem a Rola, com a carga na carroça, rua abaixo, e o Zarra nem vê-lo. Os rapazes desconfiaram de vir só a mula e a carga e barraram-lhe o caminho, para verem o que se passava com o Zarra. E descobrem umas botas no meio da palha e com elas o dono, apeando-o com grande algazarra da rapaziada. Furioso com o escabeche e sem palavras, averba para si mais uma derrota, culpando a mula por ter estacado quando os marmanjões lhe saíram à frente. Nos dias seguintes não se falava noutro assunto que não fosse a mula rua abaixo e o Zarra a sair do meio da carga, onde se escondera.


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