O mais negro desta história de papalvos ou papa-votos é que
alguns dos imigrantes vivaços (dos quase dois milhões trabalham 350 mil)
descobriram uma forma de receber sem trabalhar «ad eternum» e vêem-se às
dezenas nos cafés, tascas e deambulando pelas ruas, na hora de trabalho, cigarro
na mão, calção e chinela, dizendo alguns que nos vêm «colonizá». A história que
conto ocorreu numa aldeia do Interior e diz-nos que a atribuição facilitista do
rendimento mínimo é prejudicial a muitos que o recebem. Ao receberem sem
trabalhar é para os indigentes promoção social e o reverso da medalha, bem
cedinho, os cafés virarem tascas ou tabernas e: - saia um copo de vinho
(ou cerveja)! Os ventres masculinos salientes dos excessos. Farrapos humanos. Mas,
o Zarra quer conquistar uma fêmea pela música popular e instalou na carroça uma
coluna de som que, de goelas bem abertas, vai assinalando a sua passagem, ruas
da aldeia fora. Uns tempos atrás, o Zarra entrou, à tardinha, no café, fazendo
equilibrismo devido á instabilidade permanente do piso e paredes,
provocando-lhe um desequilíbrio constante, como se quase trauteasse um «vira» ou
um malhão, desajeitados. Lá foi conseguindo chegar-se ao balcão, sempre em contorções
de corpo e pediu um copo de tinto. Quando se apercebeu que havia mais gente no
café e era o alvo dos olhares, foi oferecendo cervejas e copos de vinho. Uns
aceitavam, outros negavam, deixando-o num movimentado monólogo pastoso. Às
tantas, vai cambaleando e arrastando-se até à porta de saída, fazendo pequenas
estações para angariar clientela para o seu discurso azorrado. Presa ao portão
esperava-o a «Rola», avantajada e paciente mula espigarça, fazendo contas à
vida com a aproximação contorcida do dono. Ao soltar a rédea do portão segue atrás
do Zarra, iniciando a marcha com contorcidos constantes de corpo. A descida
acentuada prognosticava um caminhar até à loije da besta sem sobressaltos, que foi
desconfiando por o dono não a montar e ir à pata. O Zarra ia empurrando as
pernas calçada abaixo e uns cem metros à frente, encostou-se à soleira da casa que
foi da Fana Grila por a ver mais baixa e menos movediça. A Rola estancou, mas, atacada
pelos moscardos, no focinho e nas «brilhas», abanava a cabeça, resfolgava
quanto podia e atirava para o ar uns pinotes a afugentar as ferroadas
impiedosas. O Zarra habituado à mansidão da Rola e vendo o chão em constantes
oscilações, capazes de lhe provocarem uma odrada, achou que todo o mal que o
cercava era obra da mula que ia denunciando os incómodos e o cansaço e queria
chegar ao curral. O Zarra iniciou de seguida um diálogo arrastado e ameaçador: –
Rola! está quieta e faz o que te digo, porque me estás a deixar virado. A Rola
fita-o de mansinho e paciente. Mas os olhos toldados dos muitos copos, viam nela,
alguma ameaça que terá recebido doutros de maus fígados, e avisa-a: – Rola! Ouve
o que te digo!... Está quieta ou queres apanhar com um sacho nos cornos e
adormeces já aqui? Entretanto passa um jovem de motorizada, vendo que é
mais um espectáculo deste jovem borracho, parou à distância, assistindo ao
monólogo ameaçador do Zarra com a Rola, rindo-se até mais não. Por fim, achou
que já tinha gozado o suficiente, arrancou, na velha zundap, rua abaixo. O Zarra
agastado com o que lhe pareciam ser as constantes diabruras da Rola, nem se
apercebeu da assistência ou esta não o cativava, continuando em tom ameaçador: -
Rola faz o que te digo, porque já não estou em mim!... Queres levar com uma
sachola nos cornos e veres escorrer sangue? Queres!... O triste e burlesco
espectáculo durou longos minutos até que a inclinação da descida o empurra rua
abaixo para mais uma estação circense quando assomasse à Praça do povoado.
Talvez o Zarra tenha dormido na «loije» da Rola até que a carraspana lhe
apartasse. Outro dia o Zarra, sentindo-se muito maltratado pela bebida, engendrou
um plano para passar junto ao ponto crítico, o Café do Carlão, sem que ninguém
o descobrisse. Então, carrega a mula com uma carga de palha e feno e deixa um
espaço, no meio da tosca carroça, onde se encafua, escondendo-se dos olhares
zombeteiros do seu pequeno mundo. À noitinha lá vem a Rola, com a carga na
carroça, rua abaixo, e o Zarra nem vê-lo. Os rapazes desconfiaram de vir só a
mula e a carga e barraram-lhe o caminho, para verem o que se passava com o Zarra.
E descobrem umas botas no meio da palha e com elas o dono, apeando-o com grande
algazarra da rapaziada. Furioso com o escabeche e sem palavras, averba para si mais
uma derrota, culpando a mula por ter estacado quando os marmanjões lhe saíram à
frente. Nos dias seguintes não se falava noutro assunto que não fosse a mula rua
abaixo e o Zarra a sair do meio da carga, onde se escondera.
segunda-feira, 13 de outubro de 2025
A Rola e o Zarra
JORGE LAGE
A Rola e o Zarra –O subsídio de reinserção social, ao ser instituído, teve um cunho bom, só
que os legisladores em vez de gizarem bem a quem e quando se deve atribuir,
deixaram um dique aberto para os muitos indigentes, gerando grande falta de
mão-de-obra no mundo rural e urbano e também injustiças sociais. Não está certo
que uns trabalhem e outros vivam da pedinchice, décadas e mais décadas, à custa
dos que trabalham.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
IGREJA DE SÃO JOÃO DE LOBRIGOS - A ARTE DA TALHA SANTA MARTA DE PENAGUIÃO
Por MARIA da GRAÇA Em finais de Seiscentos era abadia da apresentação dos Marqueses de Arronches, passando a ser apresentada pelo Duque de ...
.jpg)

Sem comentários:
Enviar um comentário