segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O Martim Moniz é a nova terra dos amanhãs que cantam


Se quem procura Portugal para viver e trabalhar não tem de perceber que no país para o qual imigra há uma cultura que deve ser respeitada, vai integrar-se em quê?

26 jan. 2025, 00:2074

  • HELENA MATOS - OBSERVADOR

A violação duma mulher no Martim Moniz veio lembrar-nos que o Martim Moniz se tornou na nova terra dos amanhãs que cantam, só que agora os agentes da revolução já não são os operários mas sim as comunidades. E na terra dos amanhãs de agora, como nos dos amanhãs do passado, a realidade, para os activistas, pode ser e deve ser filtrada pela ideologia. Feito este aviso prévio, entende-se melhor o que por aí se disse e escreveu sobre “a italiana” e os seus agressores apátridas.

Ora estudante, ora jovem, ora universitária, mas invariavelmente italiana, uma mulher foi notícia por, alegadamente, ter sido violada por dois ou três homens. Houve também quem optasse por outra abordagem: a italiana, afirmavam, teria sido abordada por dois ou três homens que, quem sabe, lhe teriam perguntado pelas horas ou se queria conversar com eles. Note-se que, mesmo antes de serem conhecidos os resultados dos exames médicos que viriam a confirmar a violação, já se sabia que a jovem sofrera agressões na cabeça e no peito, o que em português vai muito para lá do significado de “abordagem”.

Rapidamente os exames médicos confirmaram a violação, que por isso deixou de ser “alegada violação” ou “abordagem”. A italiana, que também podia ser estudante italiana, jovem italiana ou universitária italiana, deixou então de “alegar ter sido violada” e passou a violada. Mas italiana, claro.

Já os dois ou três homens que lhe bateram, a violaram e roubaram, esses, ora eram apresentados como indivíduos, ora como alegados agressores. Sobre a sua nacionalidade nem uma palavra, o que não deixa de ser um gritante contraste com o que entretanto acontecia à vítima, invariavelmente identificada como italiana. Num enviesado, mas comum processo, de escolha de identificação por nacionalidades, enquanto a vítima era identificada pela sua nacionalidade os agressores mantinham-se apátridas, mediaticamente falando.

Como era mais que inevitável, a não referência à nacionalidade dos violadores acabou a chamar a atenção exactamente para essa omissão e para o que ela costuma significar: os autores dos crimes são estrangeiros mas não quaisquer estrangeiros. Porque, ao mesmo tempo que se consideram banais títulos como “O alemão violador da Serra do Gerês em prisão preventiva” ou “Inglês detido por violar turista em rua de Albufeira“, escreve-se com pinças, ou quase não se escreve, qualquer referência à sua nacionalidade quando o autor dos crimes integra, ou acha-se que pode vir a integrar, aquela parte da humanidade que agora a esquerda vê como possíveis substitutos do operariado na luta já não de classes mas sim de comunidades, através da qual aspira corroer as sociedades que já foram mais livres do Ocidente.

Ora não só aos olhos do cidadão comum o inglês que violou uma turista em Albufeira é tão criminoso quanto o nepalês que violou uma colega de trabalho em Silves, como esse cidadão percebe que não se escreve ou comenta igualmente um caso ou outro. E esse enviesamento está a ser fatal para aquilo que é essencial à sociedade como a conhecemos: a confiança.

Não estou a dizer que a criminalidade aumente significativamente por causa dos imigrantes. (Mas também não é necessário massacrar os números como fez o director da PJ para o afirma.r Obviamente o número de estrangeiros entre a população prisional não é tão irrelevante quanto Luís Neves quis fazer crer num exercício mais contraproducente que esclarecedor). Estou a dizer que há imigrantes que cometem crimes ou, o que não é socialmente menos grave, que, não cometendo crimes, têm comportamentos que os residentes nas áreas onde eles se concentram entendem como desadequados ou agressivos. Se nos podemos queixar dos desacatos provocados pelos ingleses meio despidos e bêbedos nas ruas do Algarve, porque temos de ficar calados perante os imigrantes do Bangladesh que se enfrentam de facas e barras de ferro na mão no Porto ou em Lisboa?

Ah, já sei, temos o problema da extrema-direita. Do fazer a conversa da extrema-direita. Do estar a dar força à extrema-direita… Se a estupidez pagasse imposto, a humanidade estava rica com este dogma que entrou na cabeça de muita gente, sobretudo daqueles que, pela sua posição privilegiada, não se confrontam com os problemas que já não negam mas cuja denúncia dizem ir favorecer a extrema-direita. Um dos espécimes que anda por aí a propalar esta tese é a agora eurodeputada Ana Catarina Mendes, ex-ministra socialista e responsável por boa parte da política migratória portuguesa (ou mais precisamente pela sua ausência) nos governos de António Costa.

Ao comentar as declarações de Pedro Nuno Santos sobre a imigração, na entrevista que este deu ao Expresso, nomeadamente quando afirmou “Quem procura Portugal para viver e trabalhar, obviamente, percebe, ou tem de perceber, que há uma partilha de um modo de vida, uma cultura que deve ser respeitada”, Ana Catarina Mendes afirmou  “Vejo com pena a aproximação ao discurso da direita e da extrema direita.” O norte dos socialistas e esquerdistas como Ana Catarina Mendes deixou de ser o socialismo mas sim a extrema-direita. Não interessa a realidade, o que lhes interessa é o que diz a extrema-direita ou aqueles que a cada momento as suas cabecinhas identificam como extrema-direita. Isto não é política, é auto-mutilação!

Durante anos, pessoas como Ana Catarina Mendes garantiam que os imigrantes vinham para Portugal para se integrar, que tínhamos de nos mobilizar para os acolher e integrar e agora exaltam-se porque alguém diz o óbvio: “Quem procura Portugal para viver e trabalhar, obviamente, percebe, ou tem de perceber, que há uma partilha de um modo de vida, uma cultura que deve ser respeitada”

Então se quem procura Portugal para viver e trabalhar, não tem de perceber que no país para o qual imigra há uma cultura que deve ser respeitada, vai integrar-se em quê? Se calhar o modelo que defendem afinal não é o da integração mas sim o dos territórios perdidos da República a que os clones de Ana Catarina Mendes conduziram a França. Ana Catarina Mendes, e já agora também Marta Temido, que veio dizer-se “desconfortável” com algumas palavras de Pedro Nuno Santos sobre a imigração, podem aproveitar as viagens obrigatórias dos eurodeputados a Estrasburgo para observar ao vivo e em directo como esta táctica aniquilou os socialistas franceses, tornou a França ingovernável e, claro, fez crescer a extrema-direita como esta nunca tinha sonhado.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Os mais lidos