26 jan. 2025, 00:2074
- HELENA
MATOS - OBSERVADOR
A
violação duma mulher no Martim Moniz veio lembrar-nos que o Martim Moniz se
tornou na nova terra dos amanhãs que cantam, só que agora os agentes da
revolução já não são os operários mas sim as comunidades. E na terra dos
amanhãs de agora, como nos dos amanhãs do passado, a realidade, para os
activistas, pode ser e deve ser filtrada pela ideologia. Feito este aviso
prévio, entende-se melhor o que por aí se disse e escreveu sobre “a italiana” e
os seus agressores apátridas.
Ora
estudante, ora jovem, ora universitária, mas invariavelmente italiana, uma
mulher foi notícia por, alegadamente, ter sido violada por dois ou três homens.
Houve também quem optasse por outra abordagem: a italiana, afirmavam, teria
sido abordada por dois ou três homens que, quem sabe, lhe teriam perguntado
pelas horas ou se queria conversar com eles. Note-se que, mesmo antes de serem
conhecidos os resultados dos exames médicos que viriam a confirmar a violação,
já se sabia que a jovem sofrera agressões na cabeça e no peito, o que em
português vai muito para lá do significado de “abordagem”.
Rapidamente
os exames médicos confirmaram a violação, que por isso deixou de ser “alegada
violação” ou “abordagem”. A italiana, que também podia ser estudante italiana,
jovem italiana ou universitária italiana, deixou então de “alegar ter sido
violada” e passou a violada. Mas italiana, claro.
Já os
dois ou três homens que lhe bateram, a violaram e roubaram, esses, ora eram
apresentados como indivíduos, ora como alegados agressores. Sobre a sua
nacionalidade nem uma palavra, o que não deixa de ser um gritante contraste com
o que entretanto acontecia à vítima, invariavelmente identificada como
italiana. Num enviesado, mas comum processo, de escolha de identificação por
nacionalidades, enquanto a vítima era identificada pela sua nacionalidade os
agressores mantinham-se apátridas, mediaticamente falando.
Como era
mais que inevitável, a não referência à nacionalidade dos violadores acabou a
chamar a atenção exactamente para essa omissão e para o que ela costuma
significar: os autores dos crimes são estrangeiros mas não quaisquer
estrangeiros. Porque, ao mesmo tempo que se consideram banais títulos como “O alemão violador da Serra do Gerês em prisão preventiva” ou “Inglês detido por violar turista em rua de Albufeira“,
escreve-se com pinças, ou quase não se escreve, qualquer referência à sua
nacionalidade quando o autor dos crimes integra, ou acha-se que pode vir a
integrar, aquela parte da humanidade que agora a esquerda vê como possíveis
substitutos do operariado na luta já não de classes mas sim de comunidades,
através da qual aspira corroer as sociedades que já foram mais livres do
Ocidente.
Ora não
só aos olhos do cidadão comum o inglês que violou uma turista em Albufeira é
tão criminoso quanto o nepalês que violou uma colega de trabalho em Silves,
como esse cidadão percebe que não se escreve ou comenta igualmente um caso ou
outro. E esse enviesamento está a ser fatal para aquilo que é essencial à
sociedade como a conhecemos: a confiança.
Não estou
a dizer que a criminalidade aumente significativamente por causa dos
imigrantes. (Mas também não é necessário massacrar os números como fez o
director da PJ para o afirma.r Obviamente o número de estrangeiros entre a população prisional
não é tão irrelevante quanto Luís Neves quis fazer crer num
exercício mais contraproducente que esclarecedor). Estou a dizer que há
imigrantes que cometem crimes ou, o que não é socialmente menos grave, que, não
cometendo crimes, têm comportamentos que os residentes nas áreas onde eles se
concentram entendem como desadequados ou agressivos. Se nos podemos queixar dos
desacatos provocados pelos ingleses meio despidos e bêbedos nas ruas do Algarve, porque
temos de ficar calados perante os imigrantes do Bangladesh que se enfrentam de
facas e barras de ferro na mão no Porto ou em Lisboa?
Ah, já
sei, temos o problema da extrema-direita. Do fazer a conversa da
extrema-direita. Do estar a dar força à extrema-direita… Se a estupidez pagasse
imposto, a humanidade estava rica com este dogma que entrou na cabeça de muita
gente, sobretudo daqueles que, pela sua posição privilegiada, não se confrontam
com os problemas que já não negam mas cuja denúncia dizem ir favorecer a
extrema-direita. Um dos espécimes que anda por aí a propalar esta tese é a
agora eurodeputada Ana Catarina Mendes, ex-ministra socialista e responsável
por boa parte da política migratória portuguesa (ou mais precisamente pela sua
ausência) nos governos de António Costa.
Ao
comentar as declarações de Pedro Nuno Santos sobre a imigração, na entrevista
que este deu ao Expresso, nomeadamente quando afirmou “Quem procura Portugal para viver e trabalhar, obviamente,
percebe, ou tem de perceber, que há uma partilha de um modo de vida, uma
cultura que deve ser respeitada”, Ana Catarina Mendes
afirmou “Vejo com pena a aproximação ao discurso da direita e da extrema
direita.” O norte dos socialistas e esquerdistas como Ana Catarina
Mendes deixou de ser o socialismo mas sim a extrema-direita. Não interessa a
realidade, o que lhes interessa é o que diz a extrema-direita ou aqueles que a
cada momento as suas cabecinhas identificam como extrema-direita. Isto não é
política, é auto-mutilação!
Durante
anos, pessoas como Ana Catarina Mendes garantiam que os imigrantes vinham para
Portugal para se integrar, que tínhamos de nos mobilizar para os acolher e
integrar e agora exaltam-se porque alguém diz o óbvio: “Quem procura Portugal para viver e trabalhar, obviamente,
percebe, ou tem de perceber, que há uma partilha de um modo de vida, uma
cultura que deve ser respeitada”
Então se quem procura Portugal para viver e trabalhar, não tem de perceber que no país para o qual imigra há uma cultura que deve ser respeitada, vai integrar-se em quê? Se calhar o modelo que defendem afinal não é o da integração mas sim o dos territórios perdidos da República a que os clones de Ana Catarina Mendes conduziram a França. Ana Catarina Mendes, e já agora também Marta Temido, que veio dizer-se “desconfortável” com algumas palavras de Pedro Nuno Santos sobre a imigração, podem aproveitar as viagens obrigatórias dos eurodeputados a Estrasburgo para observar ao vivo e em directo como esta táctica aniquilou os socialistas franceses, tornou a França ingovernável e, claro, fez crescer a extrema-direita como esta nunca tinha sonhado.


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