segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Auschwitz - 80 anos...


 Helena Ferro de Gouveia

@camalees

Antes de ser enforcado, Rudolf Hoess, o comandante do campo de concentração de Auschwitz, disse que muitas vezes sentia os joelhos fraquejar quando tinha de empurrar crianças a chorar, implorando, para as câmaras de gás. "Senti-me contudo envergonhado desta minha fraqueza quando falei com Adolf Eichmann. Ele explicou-me que especialmente as crianças tinham de ser mortas primeiro; onde estava a lógica de matar uma geração de pessoas mais velhas deixando as mais novas vivas que se podiam tornar numa geração de possíveis vingadores dos seus pais e constituir uma nova célula biológica para a ressurgência do seu povo".

A 11 de Abril de de 1961 iniciou-se em Jerusalém,o Processo Eichmann, que acabaria com a condenação de Adolf Eichmann à morte. Depois  de Nuremberga este seria um dos marcos fulcrais do “Geschichtsaufarbeitung”(“tratar o passado”, “confrontá-lo”) germânico, mas também israelita.

Eichmann, o burocrata, o organizador da Endlösung, a solução final, a partir da sua secretária,  coordenadou a perseguição, o sequestro e a deportação de milhares de judeus, marcados para morrer nos campos de concentração. Eichmann conhecia o destino dos prisioneiros. Assistiu às execuções nas câmaras de gás, chegando a considerá-las “desumanas”, não para as vítimas, e sim para os carrascos. Após o final da guerra fugiu para Argentina onde seria capturado pela Mossad e apresentado a julgamento. Agora uma exposição em Berlim, na Topografia do Terror, analisa a "banalidade do mal" , o perfeccionismo burocrático do assassino. Porque Auschwitz foi ontem.

Escreveu Sophia que “Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar”… continuamos a faze-lo.

Neste dia da memória da Shoah o foco são os judeus exterminados.

“Os números, como diz Saramago, são das menos exactas coisas que há no mundo. Contudo, aqui os números perdem a noção dos zeros que lhes colocamos para dar escala. São muitos os zeros, e foram muitas as pessoas”, diz numa bela reflexão Paulo Mendes Pinto.


Não há nada comparável ao Holocausto. Tenham a decência de o respeitar e respeitar as vítimas, as que foram fuziladas em valas comuns, as que morreram nos guetos, nos vagões de gado, as que foram gaseadas, as que morreram de tifo ou em experiências médicas. Seis milhões perante o silêncio cúmplice do mundo.

Naquele dia 11 de Abril de 1945 dois homens descem do Jeep e contemplam a inscrição em letras de ferro forjado na entrada de Buchenwald: “Jedem das Seine”. Cinismo feito de ferro, falar de igualdade num local onde só existia, para os deportados, igualdade perante a morte. Não se sabe o que esses dois homens pensaram naquele momento histórico. O da libertação.  Conhecem-se os seus nomes: Egon W. Fleck e Edward A. Tenenbaum. Os primeiros americanos que entraram no campo de concentração são, numa magnífica ironia histórica, dois combatentes judeus de ascendência alemã recente.

O episódio foi recordado, sessenta e cinco anos mais tarde, em Abril de 2010, por um sobrevivente, pelo preso 44904. Na altura era um jovem de 22 anos que trazia ao peito um triângulo vermelho com a letra S, Spanier (espanhol), estampada a negro.

Com a morte de Jorge Semprún desapareceu uma memória da barbárie moderna, uma memória do século XX. Desapareceu o grande escritor, mas temos o privilégio de ficar com a obra - A Longa Viagem , A Escrita ou a Vida -  que nos recordará sempre que da Weimar de Schiller e de Goethe a Buchenwald distam apenas um punhado de metros.

Am Israel Chai



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