terça-feira, 24 de outubro de 2023

RABISCOS NAS TÁBUAS

 Por MARIA da GRAÇA



Contra-Capa do livro "Levada de Víbora" - ABÌLIO BASTOS

 

"A VOZ DO POETA SOLTOU-SE DA FONTE, PERMITINDO QUE A MÃO, QUE SEMPRE TRABALHARA NA ARTE DE CARPINTARIA, PUDESSE, AGORA, ALINHAR AS LETRAS/VERSOS COMO TÁBUAS E APRESENTÁ-LAS COM UM BRILHO SINGELO OS LEITORES, LEMBRANDO OS VERSOS DE ALBERTO CAEIRO: "E HÁ POETAS QUE SÃO ARTISTAS/ E TRABALHAM NOS SEUS VERSOS/COMO UM CARPINTEIRO NAS TÁBUAS!"

                                                       Júlia Serra (prefácio)

 

"A POESIA É, TAMBÉM, UMA ARTE DE DIZERMOS QUASE TUDO O QUE NOS VAI NA ALMA SEM CONSTRANGIMENTOS."

                                                                               Jorge Lage (Posfácio)

 


RABISCOS NAS TÁBUAS      

 

Quando em criança aprendi as primeiras letras, eram para mim gravatos, que me faziam sorrir.

Depois, quando as consegui desenhar, já imaginava sons, que pintava nas velhas portas de madeira e rabiscava noutras tábuas. Nunca pensei, sujeitar um livro ao sofrimento, por ter de aguentar a investida tosca, deste autor. Pobre Vale que teve de suportar as traquinices de antanho do gaiato irrequieto que fui!

Agora, este mesmo Vale, parado no tempo, que suporta nova arremetida com um exército de letras a desassossegar-me, desenterrando memórias de outros tempos perdi a vergonha e ganhei um tímido balanço, sem pedir licença, volto a pegar no martelo e serrote da juventude, juntando as memórias que ocuparam um tempo duro e até frustrante, mas, foi assim que iniciei um percurso de vida.

Hoje volto a pregar, a cortar e a colar as lições, que aprendi pelas quelhas e caminhos, onde as noites se tornam claras, quando chega um relâmpago antes do trovão.

Só conhecia as festas da desfolhada, que o milho-rei tornava mais alegres e quando era encontrado tinha direito aos abraços das donzelas.

Quantos romances ficaram sem campo para florir!... E quantos olhares a chorar imitavam o sorrir!...

O pesadelo foi ter deixado pelo caminho o aroma, sem saborear o saber, de quem sabe pintar a arte num livro.

Escrever é navegar em pensamento e sofrer, tombando as pedras contra o vento, que as espera receber no seu mural. Histórias que não ficam por cá.

Quando o homem é bravo, procura amansar-se a si próprio no desassossego sofredor da escrita.

Passar o tempo peneirando a tristeza, fazendo dela um doce para o deixar ficar bem escondido, numa prateleira que até compreende, se alguém ao provar não gostar e se arrepende.

Poder usar um pote para esconder as letras, que tinha temperado com o sumo das lágrimas. Mas, só prová-las no escuro, sobre um tronco maduro, onde estiver sentado, desenhando desejos de sentidos, atados em gavelas de memórias, que o amarrotado tempo lhes deixou, nos forrinhos da história.

A ordenação deste emaranhado de letras obedeceu a uma certa geografia do percurso do meu percurso de vida.

Estou agradecido pelo muito apoio recebido e não regateado, do Professor Jorge Lage, para que este livro ganhasse forma, e à Professora Júlia Serra, que, também. não poupou esforços e com a sua apurada pena literária lavrou um douto e generoso prefácio.

Reconhecido ficarei aos leitores se souberem desbravar esta pequena floresta de muitas vivências.

 IN LEVADA DE VÍBORA -  ABÍLIO BASTOS


1 comentário:

  1. SOFIA
    A mãe partiu, deixou ficar,
    a sua estrela, que já não viu.
    Sombra prá vida, da vida que lhe entregou,
    cruzou o rio, subiu ao frio, aí poisou,
    na serra
    e lhe chamou, sua terra.

    Por lá cresceu, tecendo fios de linho
    e passadeiras que estendeu pelo caminho!
    Com o vento, teceu no tempo penas e dores,
    panos cortados, muitos bordados, de tantas cores.

    Coração cheio, segou centeio, lavou na fonte,
    enrolou lágrimas prá sua mãe, naquele monte,
    porque chorava, quando sonhava naquele dia,
    nome lindo, lhe chamaram, Sofia!

    (Das Serras)
    In Levada de Víboras

    e passadeiras que estendeu pelo caminho!

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