terça-feira, 31 de outubro de 2023

Pioneirismo dos Transmontanos renasce das cinzas do congresso de 1920

 Exercícios militares a que assistiram todos os congressistas - I congresso Regional transmontano


A Casa-Mãe das restantes Casas e núcleos regionais Transmontanos e Durienses, dispersos pelo mundo da Lusofonia, em 1920, deram um sinal vivo do seu inconformismo social. O sinal traduziu-se através do I Congresso Transmontano. A ideia partiu de uma geração de figuras notáveis que desapareceram fisicamente, mas se afirmaram e legaram modelos de cidadania que a mesma Casa-Mãe de Lisboa e seus centros cívicos, que entretanto se multiplicaram, espalharam pelo mundo.

Essa geração dos inícios do século XX deu frutos nacionais que se disseminaram pelo planeta e que importa saudar. A mesma Casa-Mãe demonstrou que a população residente no primitivo condado portucalense, de Mumadona Dias, onde nasceu Afonso Henriques, que se armaria cavaleiro na catedral de Zamora (em 1125), para dirimir o conflito com a sua mãe, D. Teresa, e seus apoiantes.

Quando se aproximam os 900 anos dessa Batalha de S. Mamede que ditou a fundação da Nacionalidade, são horas de consolidar o simbolismo dessa data, que se assinalará em 24 de Junho de 2028, e que servirá também para mostrar o privilégio do excelente relacionamento que existe atualmente entre Portugal e a vizinha Galiza.

Com este intróito pretendo exaltar os primeiros passos do Condado Portucalense, que foi o epicentro da Portugalidade. Infelizmente, para quem aqui nasce, vive e morre, os sortilégios nacionais de que usufruem, nunca validaram o primarismo geracional.

Volto ao I Congresso Transmontano de 1920, que teve continuação no II Congresso, em 1941, e que deveria prosseguir com o III, em 1960. Contudo apenas se concretizou em 2002, desta vez organizado em conjunto com as câmaras municipais da região. Todos eles foram frutuosos pelo poder autárquico da época que tinha líderes com garra e que souberam ultrapassar imprevistos de quem não se esperava.

Os homens não se medem aos palmos, antes se medem pela sua verticalidade, pela coerência e pela postura, no tempo e no modo certos.

Nessa altura, residentes e ausentes, gastaram mais de um ano para que a cidade de Bragança fosse palco da maior manifestação congressista do norte do país e de todos os tempos.

António Jorge Nunes, ao tempo presidente da Câmara Brigantina, reunia o consenso de todas as autarquias regionais. E Murça foi o primeiro palco das várias dezenas de reuniões preparatórias dos membros da Comissão organizadora, dispersos pelo país. Fora estabelecido que o congresso não custeava qualquer encargo, nem com refeições, nem com deslocações, vivessem na Província ou nos centros urbanos do país, como era o caso dos não autarcas.

As casas regionais tinham estruturado todos os pormenores. E, antecipadamente, tinham criado a Federação de todas as Casas, do país e estrangeiro, para que, dali em diante, quer noutros congressos, quer em futuras movimentações a favor de reivindicações regionais, se entendessem em comunidade organizada.

O evento foi excecional e, publicamente, não houve alarido que perturbasse a opinião pública. Mesmo assim houve um judas vestido de santidade satânica. E a Federação das Casas Regionais nunca mais reuniu os seus órgãos porque, sempre existiram diabos vestidos de cordeiros.

A Casa-Mãe, que ficara como representante máxima, ao nível do representante das Câmaras municipais e para que repartissem funções, como é costume, em eventos deste género: um abria e o outro encerrava a sessão. Nada disso aconteceu. Quem, em cima hora, comentava que o congresso e a maior parte das figuras que chegavam, eram do partido A, ou do partido B. E que ele não iria tolerar que assim fosse. O verniz estalou na noite do acontecimento. O decisor manchou a festa. E essa mancha acabou por lesar a pureza da Instituição que ele, ali representava. Numa altura em que já decorria a notícia de que essa centenária instituição regionalista pretendia mudar de instalações e que estava aberta a campanha de apoios para essa nova sede, rosnaram coisas contra natura que, por deus ou pelo diabo, já foram para a cova.

Foi o atual presidente, Hirondino Isaías, que veio repor a ferrovia no seu trilho. Nada teve ele a ver com aquilo que aqui deixo exarado, inconformado e pesaroso, contra quem, querendo ser neutro, dirigiu os três dias do III Congresso, com uma inusitada proeza como se fosse o dono daquilo tudo.

O então presidente da Câmara de Bragança, Jorge Nunes, que recentemente publicou uma obra sobre esse acontecimento, entendeu ocultar este pormenor que a História deve registar para memória futura. Eu próprio, que fiz parte, em nome da Casa Regional de Guimarães, da Comissão Promotora do III Congresso e que estive na origem da Federação das Casas Regionais, escriturada no Porto, enquanto sócio Fundador dessa Casa e de subscritor da ata da Federação, nunca mais fui convocado para nada. Nunca mais se soube, fosse o que fosse, sobre esse órgão, nem de qualquer outra origem que justificasse a extinção federativa. Houve silêncio absoluto entre as Casas Transmontanas da diáspora, nomeadamente entre aquelas que tinham representantes seus nos órgãos diretivos, como era o meu caso.

Numa altura em que já existem diligências, por parte da Casa de Lisboa, para organizar o próximo convénio, era louvável marcar uma cimeira, com todas aquelas que de alguma maneira partilharam desse III Congresso.

Talvez pela delicadeza do diálogo intempestivo na noite que antecedeu a abertura do evento, o cidadão que mais trabalhou pela concretização desse projeto, terá optado pela omissão desse diálogo. O decisor tentou valer-se desse palco para dar maior ênfase à sua ambição política. Mas a história dos grandes acontecimentos deve ser escrita, enquanto os seus artífices estão vivos. Esse diálogo ocorreu entre cinco membros da referida Comissão, quatro dos quais ainda estamos vivos. Quando se pretender recontar a verdade dos factos, já essa verdade terá outras cores e outros paradouros.

Pela parte que me toca, fico disponível para relatar todos os pormenores desta nuance. E deixo este episódio contado na data em que a Casa do Porto comemora 39 anos.

 

Barroso da Fonte


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