..// .... IN O VALE
QUADRO LIVRE
No convés, vão dois corpos
abraçados.
Pela brisa, pelas ondas
embalados,
Quadro livre, de pintura e
desejo.
Mar e lua, testemunhos
convidados.
Vão na vaga de frescura,
beijo a beijo.
E se a noite caminhando
vai seguindo,
As estrelas vão cantando,
Lindo, lindo! ...
30*
30* Enquanto o paquete
vogava, ruma a Díli, no convés a vida regurgitava, com desejos, emoções,
saudades e sonhos... Oceano Índico, Maio 1966.
Ó SERRAS ALTAS
Trago na memória as pedras
de musgo vestidas
Dos montes, das giestas
verdes floridas
Que o vento fustiga sem
pedir perdão,
E o sol aloirenta no pico
do Verão.
Trago o muar das Galhardas
Que os trilhos ouviram
séculos a fio,
Quando o homem as tocava
de vara e com brio,
Ao fresco aroma dessas
madrugadas.
Ó serras altas, ó meus
amores,
Quem vos desenhou assim,
Jardins gravados, com
lindas flores,
E hoje longe, tão longe de
mim!... 31*
31* 12 de Abril de 1966,
no Oceano Índico a caminho de Timor, onde cheguei em Maio
CHEGADA A TIMOR 32*
Todos recordamos vivos,
aquela madrugada de 21 de Maio de 1966. Abafado e húmido aquele dia, entrou-nos
no calendário e nunca mais partiu. Entre uma sombra soltas e umas quantas
luzes, parou-nos o navio no mar sem ondas, a olhar as margens revestidas de
coqueiros. O dia entrava na praia, os seres humanos pareciam formigas a
movimentarem-se ...
Era Díli, encostada às
montanhas! A sombra solta, era afinal a ilha de Ataúro, que na noite escura
parecia uma bóia. O ar era quente e húmido e nem os raios de Sol penetravam,
tal era a sua espessura! O Cais vinha ao nosso encontro lentamente.
Quando descemos a terra
firme parecia que o nosso corpo adormeceu, e o céu poisava sobre nós!
Há estações do tempo, que
o ser humano nunca descodifica!... Foi a última folha do resto da viagem de
trinta e nove dias.
Sorrio, Díli, quando me
lembro de ti!
32* Da CPM 1579 -
Companhia da Polícia Militar
ESTE TEMPO É UMA MONTANHA
Aos dias que te falto
minha mãe
eu vou acrescentar-lhe
mais valor,
É tão doce para mim o teu
amor,
que não posso dispensar a
mais ninguém.
A carta que chegou
já está velhinha,
chorando devorei-a linha a
linha,
seguindo a leitura dos
teus passos.
Este lugar no tempo é uma
montanha,
onde a saudade mora e é
tamanha,
Prometo voar daqui para os
teus braços... 33*
Díli, Agosto 1966
ABÍLIO BASTOS
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