segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Ó SERRAS ALTAS

 

 Por MARIA da GRAÇA                                                                   


 

..// ....   IN O VALE

 

QUADRO LIVRE

 

No convés, vão dois corpos abraçados.

Pela brisa, pelas ondas embalados,

Quadro livre, de pintura e desejo.

Mar e lua, testemunhos convidados.

Vão na vaga de frescura, beijo a beijo.

 

E se a noite caminhando vai seguindo,

As estrelas vão cantando,

Lindo, lindo! ...  30*

 

30* Enquanto o paquete vogava, ruma a Díli, no convés a vida regurgitava, com desejos, emoções, saudades e sonhos... Oceano Índico, Maio 1966.

 

 

Ó SERRAS ALTAS

 

Trago na memória as pedras de musgo vestidas

Dos montes, das giestas verdes floridas

Que o vento fustiga sem pedir perdão,

E o sol aloirenta no pico do Verão.

 

Trago o muar das Galhardas

Que os trilhos ouviram séculos a fio,

Quando o homem as tocava de vara e com brio,

Ao fresco aroma dessas madrugadas.

 

Ó serras altas, ó meus amores,

Quem vos desenhou assim,

Jardins gravados, com lindas flores,

E hoje longe, tão longe de mim!... 31*

 

31* 12 de Abril de 1966, no Oceano Índico a caminho de Timor, onde cheguei em Maio

 

 

CHEGADA A TIMOR  32*

 

Todos recordamos vivos, aquela madrugada de 21 de Maio de 1966. Abafado e húmido aquele dia, entrou-nos no calendário e nunca mais partiu. Entre uma sombra soltas e umas quantas luzes, parou-nos o navio no mar sem ondas, a olhar as margens revestidas de coqueiros. O dia entrava na praia, os seres humanos pareciam formigas a movimentarem-se ...

Era Díli, encostada às montanhas! A sombra solta, era afinal a ilha de Ataúro, que na noite escura parecia uma bóia. O ar era quente e húmido e nem os raios de Sol penetravam, tal era a sua espessura! O Cais vinha ao nosso encontro lentamente.

 

Quando descemos a terra firme parecia que o nosso corpo adormeceu, e o céu poisava sobre nós!

Há estações do tempo, que o ser humano nunca descodifica!... Foi a última folha do resto da viagem de trinta e nove dias.

Sorrio, Díli, quando me lembro de ti!

 

32* Da CPM 1579 - Companhia da Polícia Militar

 

 

ESTE TEMPO É UMA MONTANHA

 

Aos dias que te falto minha mãe

eu vou acrescentar-lhe mais valor,

É tão doce para mim o teu amor,

que não posso dispensar a mais ninguém.

 

A  carta que chegou já está velhinha,

chorando devorei-a linha a linha,

seguindo a leitura dos teus passos.

Este lugar no tempo é uma montanha,

onde a saudade mora e é tamanha,

Prometo voar daqui para os teus braços... 33*

 

Díli, Agosto 1966

 

ABÍLIO BASTOS

 

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