quarta-feira, 24 de maio de 2023

(1922-2022) Cem anos de Artes Gráficas da Olegário Fernandes

 

Por BARROSO da FONTE


No dia mundial da Lusofonia recebi um livro luxuoso que João Baeta, administrador da Olegário Fernandes, conceituada empresa de Artes Gráficas sediada no Cacém, me enviou e cujo prefácio assina.

É uma obra gráfica de alta qualidade, que documenta cem anos de existência da Olegário Fernandes. O transmontano A. Guilhermino Pires, que coordena o volume, assina a introdução e as páginas: 219 a 222. Este mesmo especialista assina também o IV capítulo, desde a pp 191 à 213 e nesta narrativa reflete «as crises que tanto afectaram a vida nacional, desde a crise do papel, à maquinaria e a nova linguagem gráfica; o ensino profissional; publicações de referência, revistas, livros, embalagens, rótulos e etiquetas; novos produtos, novos consumos; casas impressoras e o aparecimento do sistema de impressão offset».

Guilhermino Pires recua ao período do fim da II Grande Guerra (1945) e ao arrastamento pela Europa das crises que se traduziram em 45 milhões de mortos. A indústria gráfica, como em todos os setores laborais, implicou grandes investimentos na formação técnica e profissional. «Até 1968 foram várias as casas impressoras que surgiram, com projetos inovadores que implicaram feiras e exposições, começando a invasão do mundo gráfico por equipamentos foto-compositores correntes para textos e de fantasia. Foi dessa necessidade progressiva que surgiram as máquinas foto-tituleiras semiautomáticas e se implementou o princípio hegemónico da impressão Offset».

Guilhermino Pires explica, em linguagem técnica, esta evolução que «veio destronar a impressão tipográfica. E foi no princípio deste movimento progressista que João Henrique Baeta decidiu comprar a Olegário Fernandes».

O Presidente da Direção Executiva Nacional da Apigraf, José Manuel Lopes de Castro, escreve no prefácio, que também assina, que «a celebração dos Cem anos da Olegário Fernandes - Artes Gráfica S.A. constitui um momento de enorme orgulho e prestígio para o setor das indústrias gráficas».

O autor desta nota de leitura ficou muito honrado com este volume sobre os 100 anos da Empresa que Olegário Fernandes fundou em 1922 e que resistiu tenazmente a tantos e tão desconfortáveis acontecimentos que abalaram o século XX.

Este volume de 264 páginas bem pode chamar-se o livro de ouro, porque todos os intervenientes contribuíram para, em tons dourados, ser modelo gráfico, quer na qualidade das manchas do papel, quer nas cores do alfabeto, no fim de cada capítulo ou de cada tema ou testemunho. Num livro que marca uma data centenária, que superou tantos obstáculos e crises da mais diversificada natureza e que está em condições de competir com muitas outras gráficas, nacionais e estrangeiras, merece que se apregoe e se batam palmas a quantos tornaram possível tão primorosa obra. Ao longo do livro surgem imagens, fotos de máquinas que marcaram épocas e até fotos lendárias, como o soldado «Milhais que valeu milhões», em contraste com o desenho de Gutenberg (1396-1468), «achador» ou pai da imprensa.

Conforme se lê no prefácio, Olegário Fernandes fundou a empresa de Artes Gráficas em 1922. Em 1968 João Baeta adquire-a, com José Fernandes. Em 1993 as instalações saem do centro histórico de Lisboa para Massamá Norte, no concelho de Sintra. João Baeta impôs o seu estilo de trabalho e conseguiu ultrapassar a confusão pós revolução de Abril de 1974, que abanou os alicerces. A transição da Tipografia tradicional para a impressão offset causou «tempos turbulentos». João Baeta assumiu transferir equipamento e montagem de uma unidade gráfica para a Guiné Bissau: a Guinégráfica, com vinte trabalhadores. Foram 10 anos para esquecer. Dada a perturbação e instabilidade vivida nesse país, nos fins do século XX, a tecnologia da Olegário distribuiu-se por duas Unidades em Góis, Beira Serra, a Bobirótulo - Indústria de Rótulos e Embalagens, com dezoito colaboradores, produzindo rótulos autocolantes em bobine e várias outras produções afins à transformação de novas matérias. João Baeta também sempre lutou pela solidariedade e pelas justas causas sociais através da produção gráfica do suporte de eventos de divulgação e apoio a instituições humanitárias e culturais.

Embora tenha cerca de setenta anos de ligação à imprensa escrita, criada no século XV por Gutenberg, obras como esta, do Centenário da Olegário, são raras na minha biblioteca de uma vida inteira. Agradeço ao transmontano Guilhermino Pires que foi um dos maiores entusiastas e obreiros desta organização exemplar.

Barroso da Fonte

(decano dos jornalistas Portugueses vivo)

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