sexta-feira, 3 de março de 2023

Um dicionário picaresco que dá para todos os gostos


por BARROSO da FONTE


No dia em que o mítico padre Fontes, promotor-mor das bruxas, dos exorcistas e cartomantes, fez 83 anos de vida, fui bafejado com dois livros curiosos: os seus Diários 1958-61 e também um Dicionário Picaresco e Satírico de Trás-os-Montes e Alto Douro, este da autoria de Armando Ruivo.

Da primeira obra já dei conta aos Barrosões. Estes Diários, sem dúvida, vão dar muito que falar, talvez tanto como se tem falado de «Frei Bartolomeu dos Mártires» (1514-1590) que cirandeou por terras de Barroso e lá missionou a desculpa do provérbio latino «saltem barrosani», para mitigar o frio, o gelo e a neve que toleravam, ao clero, para que «ao menos esses, pudessem casar».

O outro livro - e é deste que pretendo falar - é de Armando Ruivo, que nasceu em Rego de Vide, concelho de Mirandela, e que foi chefe da Repartição de Finanças de Chaves. Já com 67 anos, licenciou-se em Estudos Portugueses e Lusófonos. No I volume do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses inseri-o na página 545. E nesse registo se escreveu que: «com essa idade iniciou uma nova atividade: a pintura e a caricatura. Durante vários anos ilustrou, semanalmente, o Notícias de Chaves, com uma caricatura social. E, como pintor realizou diversas exposições».

No II volume dessa mesma obra, nas pp. 325 e 326, em 2001, tendo valorizado o seu curriculum, entendi atualizar a sua ficha, quer a nível profissional, quer literário e artístico. Não me surpreendeu, contudo, que, em 7 de Outubro último tenha apresentado no auditório do Centro Cultural de Chaves, onde reside, este volume de 390 páginas.

Cerca de uma centena de amigos e admiradores da obra deste transmontano, testemunharam o «enaltecimento do falar mais genuíno do povo transmontano. Fruto de um trabalho desenvolvido para evidenciar e preservar o maior tesouro de um povo, nomeadamente a sua língua, o autor recolheu vários nomes e expressões tradicionais que radicam na natureza humana, especialmente nos seus costumes, vivências, fraquezas, crenças, jogos amorosos e lúdicos. Recorrendo a quadras populares, histórias, comentários, excertos, chistes e adágios, pretendeu emergir a palavra como repositório cultural de um povo, representando uma componente identitária da história de uma região».

Este livro, graficamente exemplar, de formato bem pensado e de grafismo atraente, merece encómios que me apraz distribuir pelo autor, pelo apresentador Cassiano Reimão e pelo introdutor, A. M. Pires Cabral. Todos engrandecem a obra que exalta este «Repositório da Cultura Transmontana».

Quando decidi elaborar o Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, estava longe de pensar que iria escrever 1850 páginas, nos três volumes, com o gosto de trazer, à superfície, os meus comprovincianos que souberam competir, positivamente, com os cidadãos de outras regiões do país.

Não esperava é que alguns desses milhares de nomes biografados ignorassem a minha obra, se um ou outro, viesse a editar obra semelhante.

Talvez o título deste dicionário picaresco encontre, nesta obra, um sinónimo ainda mais ajustado ao conteúdo. Não será fácil. Mas talvez algum leitor possa escolher, nesta lista de sinónimos de picaresco, o sinónimo mais expressivo para ajuizar acerca desta distração: ardiloso, matreiro, inteligente, sagaz, perspicaz, astuto, patife, velhaco, vilão, espertalhão, manhoso, grotesco, trapaceio, tratante, pícaro.

Esta facécia picaresca, mesmo em tom galhofeiro, resulta da análise às pp 386-390.

Também esta frontalidade social, se encaixa no mesmo tipo de sinónimos, ou seja: piadas, anedotas, troças, brincadeiras, graças, motes ou partidas.

No fundo, neste jogo linguístico de regionalismos domésticos, poderão ser acrescentados mais termos a uma possível reedição deste dicionário picaresco ou satírico. Conclusão: tudo o que surpreende, positivamente, cabe no repositório da cultura Transmontana que herdámos e pretendemos legar. Mas também confirma a tradição que quem não se sente, não é filho de boa gente.

Edição do autor, 2022, Gráfica Diário do Minho.

Parabéns Armando Ruivo.

Barroso da Fonte

Sem comentários:

Enviar um comentário

Quando os xuxas apoiam...

 

Os mais lidos