domingo, 26 de fevereiro de 2023

OS HUC DO MEU TEMPO


Opinião de um médico reformado. Dr Diniz Freitas

OS HUC DO MEU TEMPO

De 1961 a 2005 exerci o magistério universitário na Faculdade de Medicina e nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), exceptuando o tempo de destacamento na guerra colonial (Angola) e cerca de 4 anos na Alemanha Federal para obter a minha especialização em Gastrenterologia. Gostaria de partilhar algumas reflexões, ainda que esboçadas, sobre a essência e a identidade dos Serviços Universitários dos HUC do meu tempo, para se deduzirem alguns corolários e inferências que auxiliem no esclarecimento da decadência actual do SNS.

1. Nesse tempo, postulava-se e exigia-se aos membros do Serviço um enriquecimento cultural permanente, assegurado e forjado na prestação de cuidados clínicos de excelência, no ensino pré - e pós - graduação, e na pesquisa científica. Prestação de assistência clínica qualificada, formação contínua e investigação científica, constituíam a tríade que enobrecia os Serviços ou Departamentos clínicos do meu tempo.

2. As Carreiras Médicas então existentes, constituíam um poderoso instrumento de ensino e de formação, de sagração do mérito e da hierarquia, e de indesmentível fulgor no desempenho clínico. Era uma peça fulcral para se atingir um patamar de excelência, como exuberantemente se comprovou.

3. A Direcção de um Serviço era atribuída a quem detinha mais elevada graduação profissional. Usualmente a liderança era conferida a quem percorria as duas carreiras, hospitalar e docente. Existia escrupuloso respeito, sem reverência, pela liderança e pela hierarquia. Não se admitiam ingerências administrativas ou amanuenses na condução técnico-científica do Serviço. Um postulado sagrado.

4.Durante muitos anos, o Director clínico dos HUC, como noutros Hospitais, era eleito pelos seus pares, em sufrágio secreto, e não escolha politicamente alinhada.

5. A medicina era concebida e praticada na sua essência: arte, ciência e técnica. O acto médico mais nobre era o diálogo com o doente na visita clínica diária e na consulta. A tecnologia vinha depois. Defendia-se o imperativo ético da dignidade e inviolabilidade do ser humano. Os Serviços clínicos eram considerados refúgios sagrados de acolhimento do doente. Pontificava o exercício humanizado e não robotizado da Medicina.

6. Os Serviços estavam usualmente bem apetrechados de recursos humanos e técnicos, em conformidade com os padrões internacionalmente recomendados, e com as directivas e exigências da Ordem dos Médicos.  Por isso não existiam as escandalosas listas de espera que hoje constituem uma das chagas do SNS.

7. Existia uma avaliação interna e externa do desempenho qualitativo e quantitativo da sua missão, quer no tocante à prestação clínica, quer no âmbito da produção científica e editorial. Outra peça fundamental e indispensável quando se almeja a qualidade.

8. Quando iniciei funções nos antigos hospitais da Universidade, então com cerca de 600 camas, existiam dois administradores. Actualmente, segundo me informam, há mais de 50!!! Um desperdício assustador!

9. O regime laboral admitia a exclusividade ou não. Fomentava-se a harmonia e concórdia nas relações humanas. Existia paixão e motivação no desempenho das tarefas. E virtude, ou seja, a fortaleza moral no cumprimento do dever. Proibida a discriminação, de qualquer índole.

10. Não existiam empresas proxenetas com milhares de Drs.Fausto em carteira para alugar aos HUC, a troco de remunerações escandalosas. Seria uma ignomínia para o SNS, assim se admitia. Repudiava-se a figura do médico tarefeiro, hoje uma realidade perversa e funesta.As urgências eram asseguradas, e muito bem,  pelos profissionais do quadro hospitalar.

11. Quem não trabalhava em exclusividade, era autorizado a exercer clínica privada fora das horas de serviço hospitalar, usualmente em consultório próprio e resguardado. Foi o meu caso.

12.Eram cordiais e profícuas as relações entre os HUC e a Faculdade de Medicina de Coimbra, propiciando um ambiente sadio e acolhedor, nomeadamente para os estudantes de medicina, na fase clínica da sua licenciatura.

13. Não recordo agressões físicas aos profissionais de saúde, como actualmente acontece.

14. Os HUC eram uma referência nacional e internacional. Muitos dos seus Serviços foram considerados, em vários anos, e não raro em anos consecutivos, por avaliação externa, os melhores do país. Em certas áreas, como no transplante hepático, detinha elevado prestígio e aplauso internacional. De tal forma que de Coimbra se dizia ser a capital da Saúde.

15. Quando comparo o passado e o presente, quedo perplexo e indignado. A degradação progressiva do SNS que aconteceu, tem várias explicações. Coloco em primeiro lugar, no entanto, a miserável instrumentalização política que o minou, o corroeu e definhou. E em segundo lugar a profunda mutação axiológica  que intoxicou a sociedade, e corrompeu  e banalizou a concepção secular de medicina humanista, além de promover a sua perversa e despudorada mercantilização.

16. Continuo a pensar que o descalabro intolerável do SNS tem solução.É possível recriá-lo à luz do modelo que vigorou no passado. No entanto, só com novos e melhores protagonistas na condução da Saúde, com a visão esclarecida e centelha do poder político, e com a exigência pertinaz, fundamentada e responsável do cidadão.

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