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PADRE FONTES- In Romance de Uma Vida
ResponderEliminarEstive quase para não o fazer. Esqueceria o assunto. Talvez nestes temas fosse conveniente silenciar-me, não narrar, omitir simplesmente este curto acontecimento. Sou padre e tenho de ter alguns cuidados, pois posso ser mal entendido.E uma má interpretação levará a ideias erradas. É assim, nesta ambiguidade, que abro a minha alma. Alimento a vossa curiosidade que finda em tão pouco, e espero que não sejais apanhados de surpresa. Vou ser diluído nas palavras e será difícil discernir a verdade da irrealidade da mão de quem escreve. Começarei. Não sem antes deixar bem claro que não é fácil falar sobre o tema, apesar da vontade ter quase exigido que deixasse duas páginas em branco --- que poderiam ser quatro. Não o faço. Porque Pitões, uma das minhas paróquias quando estava em Tourém, distancia-se no tempo e a história aconteceu nessa aldeia. Nos oito anos que por lá andei, tempo preenchido com uma infinidade de acções, tudo parece ter estado ligado a um rosto. Ou antes, esse rosto tentava estar ligado a mim, pois nunca me senti preso. Tudo começou nessa simplicidade das aldeias. Há sempre famílias ligadas á Igreja . Gostam de ajudar nas limpezas do templo, colaboram com o padre no que for preciso, dão a vida para estarem próximas do poder do clero, apesar de nunca me ter sentido com algum poder. Uma dessas famílias de quem recebia ajuda, tinha uma filha nascida no mesmo ano que eu. A família, respeitada em toda a povoação, merecia todo o meu apreço. Por isso, não sempre, mas algumas vezes, deslocava-me até casa deles para almoçar ou jantar. Junto a eles, de rosto muito terno --- sempre adorei a ternura e a maciez do olhar da mulher --- estava essa feminilidade que me olhava com carinho. Começou a dar catequese, colaborava na distribuição de alguns produtos alimentares. Deixara de namorar para se dedicar livremente a essas realizações. Senhor padre Fontes, estou aqui ao seu dispor. Não quero ninguém ao meu dispor. Quero cada pessoa ao dispor de si mesma, livre. Sorria-me, e apertava-me uma das mãos e mais nada dizia. ... ... Num dos jantares...- Tu tens de casar. Não padre Fontes, serei sempre livre como me disse para o ser. Sorria e desaparecia sossegadamente... ... Num dos jantares, quando saía para me deslocar para casa, e depois de ter reparado que o olhar dela se colocara no meu, o pai disse que ela me acompanharia. Não é preciso, sei qual é o caminho. Saí. Atrás de mim o seu corpo. Quase imperceptível, sempre nesse silêncio tumular. Até à manhã. Não vá padre Fontes, fique mais um pouco. É tarde, e a minha irmã espera-me. Nunca dorme enquanto não chego. Amanhã terei de me levantar cedo. ... ...