quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Crónica de África

Por Fernando Alves - TSF

22 Fevereiro, 2023 

A"Crónica de África" de Manuel S. Fonseca chega hoje às livrarias. Manuel virá hoje com a filha ao programa "Uma questão de ADN" de Teresa Dias Mendes e eu agradeço antecipadamente as histórias que ele vai contar à sombra da rádio, tal como agradeço as crónicas que ele escreve todas as sextas no suplemento de fim de semana do Jornal de Negócios. Manuel S. Fonseca é o cronista que mais aprecio nestes dias portugueses, aquele por cuja prosa culta e sempre desconcertante, docemente abrasiva, espero, semana a semana.

Este livro "Crónica de África", que acabo de ler, levou-me de volta a uma Luanda secreta e afável, siamesa da Benguela da minha infância. O musseque Sambizanga do Manuel foi o meu Cassoco, encostado ao Bairro Benfica onde o poeta Aires de Almeida Santos viu passar, com um andar senhoril, o seu/nosso amor da Rua Onze. Manuel viria a mudar-se para a Vila Alice, enquanto a minha adolescência se deslocava cem metros para uma casa térrea com quintal, já na linha do asfalto. O meu pai não tinha uma BSA, mas chegou a pedalar a sua bicicleta, com as narinas muito abertas e um porte altivo que fazia lembrar um senhor Hulot menos esguio e menos estouvado.

Também sabia tudo de árvores, como o pai de Manuel. E sabia identificar o canto dos pássaros. Aos domingos, tratava do vergel, assobiando fados do Tristão da Silva.

Manuel S. Fonseca viu pela primeira vez o mar, o que se diz mar, mar a perder de vista, "já no meio do Oceano Atlântico", a bordo do Vera Cruz, de cujo convés, ainda miúdo, eu vi um bando de peixes voadores, à passagem do Equador. Deu-se o caso de Sean Connery e Harrison Ford guiarem a moto e o sidecar de Indiana Jones num estilo que ainda ficava a dever ao rasganço com que o pai de Manuel o levava na BSA ao Morro da Lua. Isso ajudou a povoar de fitas a vida do futuro genial cronista. Este livro escancara o bairro, o dele, o meu, o nosso, e a todo o tempo nos chama para a sala escura onde soltámos o alvoroço dos sentidos, os largos risos da tribo, algumas lágrimas. O grande ecrã iluminou-se também para mim muitas vezes no velho cine Benguela, o cinema Piolho. Era aí que gritávamos quando um pistoleiro façanhudo apontava às costas do cowboy solitário: "cuidado, artista!". Foi aí que vi "O Comboio Apitou Três Vezes" e "Rio Vermelho", mas a memória que mais guardo desses dias é a de ir ver os cartazes. Regressávamos a casa em bando, o corpo arqueado, imitando John Wayne, mas sem cavalo.

Cruzo as nossas infâncias, as nossas adolescências, os nossos bairros, porque este formidável livro de Manuel S. Fonseca é o livro que remonta o filme das nossas vidas antigas no sul do mundo. Indo por este livro, perdendo-nos nele, voltamos a trepar o mamoeiro junto ao portão da casa. Como posso não deixar correr a lágrima vadia quando a página, banhada pela indescritível luz da "Árvore da Vida" do Malick, abre caminho à TIFA, o carro do DDT. É isso na mesma página em que a bitacaia benévola vem espreguiçar-se no dedo matacanhoeiro. Calço os meus quedes (que saudades da palavra quedes) e fico sentado a imaginar a conversa do Manuel com o grande Elias dia Kimuezo. Se eu soubesse cantar saía de mansinho a trautear uma música do Sofia Rosa, talvez Kalumba, e punha o que tenho a dizer numa folha dentro de um envelope da rádio. Com um selo daqueles da série das conchas desenhadas por Alberto Cutileiro. Na folha escreveria, escrevo, simplesmente: Saquidila, meu camba.

 

FONTE: https://www.tsf.pt/programa/sinais/saquidila-meu-camba-15881652.html

 

 

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