22 Fevereiro, 2023
A"Crónica de África" de Manuel
S. Fonseca chega hoje às livrarias. Manuel virá hoje com a filha ao programa
"Uma questão de ADN" de Teresa Dias Mendes e eu agradeço
antecipadamente as histórias que ele vai contar à sombra da rádio, tal como
agradeço as crónicas que ele escreve todas as sextas no suplemento de fim de
semana do Jornal de Negócios. Manuel S. Fonseca é o cronista que mais aprecio
nestes dias portugueses, aquele por cuja prosa culta e sempre desconcertante,
docemente abrasiva, espero, semana a semana.
Também sabia tudo de árvores, como o pai de Manuel. E
sabia identificar o canto dos pássaros. Aos domingos, tratava do vergel,
assobiando fados do Tristão da Silva.
Manuel S. Fonseca viu pela primeira vez
o mar, o que se diz mar, mar a perder de vista, "já no meio do Oceano
Atlântico", a bordo do Vera Cruz, de cujo convés, ainda miúdo, eu vi um
bando de peixes voadores, à passagem do Equador. Deu-se o caso de Sean Connery
e Harrison Ford guiarem a moto e o sidecar de Indiana Jones num estilo que
ainda ficava a dever ao rasganço com que o pai de Manuel o levava na BSA ao
Morro da Lua. Isso ajudou a povoar de fitas a vida do futuro genial cronista.
Este livro escancara o bairro, o dele, o meu, o nosso, e a todo o tempo nos
chama para a sala escura onde soltámos o alvoroço dos sentidos, os largos risos
da tribo, algumas lágrimas. O grande ecrã iluminou-se também para mim muitas
vezes no velho cine Benguela, o cinema Piolho. Era aí que gritávamos quando um
pistoleiro façanhudo apontava às costas do cowboy solitário: "cuidado,
artista!". Foi aí que vi "O Comboio Apitou Três Vezes" e
"Rio Vermelho", mas a memória que mais guardo desses dias é a de ir
ver os cartazes. Regressávamos a casa em bando, o corpo arqueado, imitando John
Wayne, mas sem cavalo.
Cruzo as nossas infâncias, as nossas
adolescências, os nossos bairros, porque este formidável livro de Manuel S.
Fonseca é o livro que remonta o filme das nossas vidas antigas no sul do mundo.
Indo por este livro, perdendo-nos nele, voltamos a trepar o mamoeiro junto ao
portão da casa. Como posso não deixar correr a lágrima vadia quando a página,
banhada pela indescritível luz da "Árvore da Vida" do Malick, abre
caminho à TIFA, o carro do DDT. É isso na mesma página em que a bitacaia
benévola vem espreguiçar-se no dedo matacanhoeiro. Calço os meus quedes (que
saudades da palavra quedes) e fico sentado a imaginar a conversa do Manuel com
o grande Elias dia Kimuezo. Se eu soubesse cantar saía de mansinho a trautear
uma música do Sofia Rosa, talvez Kalumba, e punha o que tenho a dizer numa
folha dentro de um envelope da rádio. Com um selo daqueles da série das conchas
desenhadas por Alberto Cutileiro. Na folha escreveria, escrevo, simplesmente:
Saquidila, meu camba.
FONTE: https://www.tsf.pt/programa/sinais/saquidila-meu-camba-15881652.html


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