sábado, 11 de junho de 2022

A propósito do IV Congresso transmontano e do prefácio de "Romanceiro da Castanha"

 

O IV Congresso Transmontano realizou-se há quatro anos. Nos dias 25, 26 e 27 de Maio (2018) no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa (Expo), sob a batuta da Direcção da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa. Este blogue acompanhou a par e passo o evento.

Há cerca de dois meses o Engenheiro Jorge Nunes lançou um livro sobre os quatro Congressos transmontanos realizados no espaço temporal de um século. E dedicou 40 páginas ao IV.

Como todas as actividades humanas, também este IV Congresso teve concordâncias (muitas) e algumas discordâncias (poucas).

No mesmo ano em que este Congresso se realizou, Jorge Lage lançou um livro intitulado “O Romanceiro da Castanha”. O prefaciador, o Antropólogo e Académico António Vermelho do Corral, fez várias referências ao IV Congresso e à actuação da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro. Certeiras e correctas. Por essa razão, porque dentro de meses a Casa publicará o relatório do mesmo, aqui o transcrevemos na íntegra:

 

PREFÁCIO

       O Amigo é outro eu.

(Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia, 1619)

           

O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre António Vieira)

 

ANTÓNIO VERMELHO do CORRAL
Antropólogo
A Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro (CTMAD) em boa hora levou a efeito a realização do IV Congresso Trás-os Montes e Alto Douro, sob o lema Agir no Presente, Alcançar o Futuro.

Ocorreu nos dias 25 a 27 de Maio de 2018 no Pavilhão do Conhecimento, Centro Ciência Viva, Parque das Nações. Dignificou a Comissão de Honra Sua Excelência o Presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa.

Foi um êxito retumbante, não só pelo valimento dos oradores, mas sobretudo pelo elevado valor científico e académico das comunicações apresentadas. Mas também pela convivência social e participação activa nos respectivos actos.

Aproveitou-se o ensejo para a apresentação de uma excelente e magnífica obra que há-de marcar indelevelmente um dos momentos mais sublimes da instituição e que funcionará como memória futura e ditosa para os Transmontanos em particular, e todos os Portugueses em geral, a ANTOLOGIA DE AUTORES TRANSMONTANOS, DURIENSES E DA BEIRA TRANSMONTANA. Livro de ouro a merecer destaque nas nossas bibliotecas entre a Bíblia e Os Lusíadas.

Foram seus principais mentores, realizadores e executores três pessoas de reputada projecção na esfera do saber: Hirondino Isaías, Presidente da CTMAD, Armando Palavras, Doutor em História da Arte e Jorge Lage, autor do presente livro.

Os Congressos assentam a sua razão de ser em três pilares fundamentais: a partilha do saber, a aproximação de pessoas versadas em determinados temas e a divulgação do conhecimento.

Nestas circunstâncias tive a honra e o prazer de conhecer pessoalmente o autor do presente livro, pois já houvéramos trocado, entre o convite e o evento, alguns emails. Um processo empático e operativo se processou entre ambos, expondo, denunciando e justificando as áreas de estudo e investigação, e as diferentes actividades, que balizam os interesses de cada parte, relevando a existência de comunhão em temáticas de interesse comum.

Fácil foi perceber estar perante um cidadão afável e despretensioso, de grande vivacidade e forte empenho nos trabalhos que desenvolve, a par de uma particular capacidade intelectual, justificada na laboriosa obra publicada, com preferencial afectividade pela castanha e, pelo que ela representou, e representa ainda, na alimentação das populações, e, necessariamente, pelo castanheiro, pelo qual nutre um profundo sentimento de respeito e afecto, denunciando manifesto espírito combativo em defesa das doenças que podem levar à sua extinção, e a cuja causa se vem dedicando com visível carinho e esforçado estoicismo.

A importância da sua obra pode avaliar-se, seguramente, não só pela recomendação da sua leitura à sociedade interessada, como se tornou obrigatória em Universidades.

Tendo evidenciado interesse em visitar o meu concelho, Figueira de Castelo Rodrigo, senti-me particularmente distinguido. Planeámos que o faria quando da realização dos festejos medievais comemorativos da vitória da batalha de Castelo Rodrigo que ocorrera nos campos da Salgadela, freguesia de Mata de Lobos, termo de Castelo Rodrigo, no dia 7 de Julho de 1664, em que as tropas portuguesas, comandadas por Pedro Jaques de Magalhães, venceram o tão afamado exército do Duque de Ossuna, que se vira obrigado a fugir disfarçado de frade.


Figueira de Castelo Rodrigo - 2018 - Jorge Lage, Hirondino Isaías (Presidente da direcção da CTMAD LISBOA), Paulo Langrouva (Presidente da Câmara Municipal), Armando Palavras e António Vermelho do Corral


Todavia, e seguindo um propósito, assaz louvável, pela CTMAD, de apresentar a Antologia em todos os concelhos da sua área, aproveitou-se a oportunidade para o fazer em Figueira de Castelo Rodrigo no primeiro dia das comemorações. Integraram a mesa o Presidente da Câmara Municipal, Dr. Paulo Langrouva, ladeado pelos Presidente da CTMAD Dr. Hirondino Isaías, Professor Doutor Armando Palavras, o autor deste livro Jorge Lage, e o apresentador, aqui prefaciador. Também presente o vereador da cultura, Prof. Henrique Silva.

Juntaram-se, assim, várias vontades, aproveitando um facto histórico de grande relevância para a Independência de Portugal.

O Doutor Jorge Lage participou em vários actos a começar pelo hastear das bandeiras nos Paços do Concelho e na sessão solene que ocorreu no Salão Nobre, onde fez uma prestimosa intervenção, aliás muito pertinente e assaz ovacionada, a propósito do tema em discussão «1 ano de Plataforma de Ciência Aberta: Envolvimento da Comunidade e Impacto na Região».

Integrado na Recriação Histórica em Castelo Rodrigo, uma das mais belas Aldeias Históricas de Portugal e também uma da Sete Maravilhas de Portugal como Aldeia Autêntica, passeou-se pela ruas, entre tendas e bazares, peões e cavaleiros, falando com todos e de todos recebendo a melhor aceitação, face à sua natural capacidade de comunicador e aos seus dotes de investigador, de tudo procurando inteirar-se e de tudo falando com profundo conhecimento. E até encontrou «pessoas que conheciam pessoas suas conhecidas», tal como acontecera no dia seguinte quando em Mata de Lobos visitava a zona onde se fixaram os judeus expulsos pelos Reis Católicos e o termo de Castelo Rodrigo fora uma das entradas permitidas. Ficou estarrecido perante uma casa em ruínas, supostamente uma loja judaica, que parece vir a ser vitimada por urbanização particular sem que as autoridades responsáveis se oponham. Falou com o proprietário, em férias, que por sua vez trabalha com um transmontano na Alemanha e, via telemóvel, pô-los em contacto. Afinal, pensei, estou perante um Homem que é o centro do mundo, pois todo o mundo o conhece e ele conhece todo o mundo. É de pasmar!

Na Ceia Seiscentista, teve lugar privilegiado na mesa do Presidente da C. M., a convite deste. Conversou de tudo e com todos, sempre ansioso por indagar, investigar, pesquisar. A sua conversa tem sempre finalidades e objectivos muito precisos e interesseiros, no melhor sentido do termo.

Subiu à serra da Marofa, donde se disfruta uma magnífica paisagem que vai desde as serras castelhanas aos altos montes transmontanos e se alonga para os lados da serra da Estrela. A estátua do Cristo Redentor, as capelas das Senhoras de Fátima e de Lurdes e a via-sacra em capelinhas com imagens de tamanho natural, dispersas ao longo da encosta da serra, constituem um valioso património cultural religioso.

Quando no dia seguinte nos dirigíamos a Escalhão para visitar a majestosa Igreja fortaleza, onde o povo se refugiou quando das escaramuças no período da Guerra da Independência, levantei um problema que me vem corroendo há longo tempo. Dizem alguns autores que a ponte sobre a ribeira de Aguiar, e a calçada que se lhe ajunta, são de origem romana, que eu contesto afirmando que caracterizam época medieva. Aprontou-se logo para a solução.

Fiquei espantado quando, estacionada a viatura, abre o porta bagagens, calça umas botas e eis-nos a caminho, em corta mato, saltando paredes e muros, vencendo silvas, ervas altas e matos, póios e penedos. Seguia na frente abrindo uma vereda e, atente-se, porque necessário, retirou uma navalha do bolso e com ela cortava tudo quanto empecilhasse. Homem pronto, disponível e apto para qualquer eventualidade ou obstáculo. A ponte e a calçada não são romanas e evidenciam medievalismo. Decisão tomada, embora a merecer melhor estudo.

O tempo é breve e o espaço curto, para o quanto havia a dizer do historiador, do jornalista, do etnógrafo, do escritor, do cientista. Mas falemos um pouco sobre a sua última obra «Romanceiro da Castanha».

Vários são os romanceiros na cultura portuguesa e apenas valeria falar em Almeida Garrett. Mas este tem a particularidade de ser único, que ninguém ousou ainda tratar, apesar do valimento, que desde os primórdios, quer o fruto, quer a árvore, nos oferecem.

Passará a integrar o Património Cultural Imaterial segundo os cânones da Convenção da UNESCO de 2003, subscrita por Portugal em 2008. Parabéns de todos. E deste Amigo também.

 

 António Vermelho do Corral  

               Antropólogo


 

In: Romanceiro da Castanha, Braga, 2018.

Autor: Jorge Lage

Prefaciador: António Vermelho do Corral



1 comentário:

  1. Excelente e justa reportagem dfando apropriado relelevo ao Romanceiro da Castanha e outras sobre um tema tratado, de forma ímpar, por Jorge Lage.

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