Há cerca de dois meses o Engenheiro
Jorge Nunes lançou um livro sobre os quatro Congressos transmontanos
realizados no espaço temporal de um século. E dedicou 40 páginas ao IV.
Como todas as actividades humanas, também
este IV
Congresso teve concordâncias (muitas) e algumas discordâncias (poucas).
No mesmo ano em que este Congresso se
realizou, Jorge Lage lançou um livro intitulado “O Romanceiro da Castanha”. O
prefaciador, o Antropólogo e Académico António Vermelho do Corral, fez várias
referências ao IV Congresso e à actuação da Casa de Trás-os-Montes e Alto
Douro. Certeiras e correctas. Por essa razão, porque dentro de meses a Casa
publicará o relatório do mesmo, aqui o transcrevemos na íntegra:
PREFÁCIO
O
Amigo é outro eu.
(Francisco Rodrigues
Lobo, Corte na Aldeia, 1619)
O livro é um mudo que fala, um surdo que
responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre António Vieira)
![]() |
| ANTÓNIO VERMELHO do CORRAL Antropólogo |
Ocorreu nos dias 25 a 27 de Maio de 2018 no
Pavilhão do Conhecimento, Centro Ciência Viva, Parque das Nações. Dignificou a
Comissão de Honra Sua Excelência o Presidente da República, Professor Doutor
Marcelo Rebelo de Sousa.
Foi um êxito retumbante, não só pelo
valimento dos oradores, mas sobretudo pelo elevado valor científico e académico
das comunicações apresentadas. Mas também pela convivência social e
participação activa nos respectivos actos.
Foram seus principais mentores, realizadores
e executores três pessoas de reputada projecção na esfera do saber: Hirondino
Isaías, Presidente da CTMAD, Armando Palavras, Doutor em História da Arte e
Jorge Lage, autor do presente livro.
Os Congressos assentam a sua razão de ser em três
pilares fundamentais: a partilha do saber, a aproximação de pessoas versadas em
determinados temas e a divulgação do conhecimento.
Nestas circunstâncias tive a honra e o prazer
de conhecer pessoalmente o autor do presente livro, pois já houvéramos trocado,
entre o convite e o evento, alguns emails.
Um processo empático e operativo se processou entre ambos, expondo, denunciando
e justificando as áreas de estudo e investigação, e as diferentes actividades,
que balizam os interesses de cada parte, relevando a existência de comunhão em
temáticas de interesse comum.
Fácil foi perceber estar perante um cidadão
afável e despretensioso, de grande vivacidade e forte empenho nos trabalhos que
desenvolve, a par de uma particular capacidade intelectual, justificada na
laboriosa obra publicada, com preferencial afectividade pela castanha e, pelo
que ela representou, e representa ainda, na alimentação das populações, e, necessariamente,
pelo castanheiro, pelo qual nutre um profundo sentimento de respeito e afecto,
denunciando manifesto espírito combativo em defesa das doenças que podem levar
à sua extinção, e a cuja causa se vem dedicando com visível carinho e esforçado
estoicismo.
A importância da sua obra pode avaliar-se,
seguramente, não só pela recomendação da sua leitura à sociedade interessada,
como se tornou obrigatória em Universidades.
Tendo evidenciado interesse em visitar o meu concelho, Figueira de Castelo Rodrigo, senti-me particularmente distinguido. Planeámos que o faria quando da realização dos festejos medievais comemorativos da vitória da batalha de Castelo Rodrigo que ocorrera nos campos da Salgadela, freguesia de Mata de Lobos, termo de Castelo Rodrigo, no dia 7 de Julho de 1664, em que as tropas portuguesas, comandadas por Pedro Jaques de Magalhães, venceram o tão afamado exército do Duque de Ossuna, que se vira obrigado a fugir disfarçado de frade.
Todavia, e seguindo um propósito, assaz
louvável, pela CTMAD, de apresentar a Antologia em todos os concelhos da sua
área, aproveitou-se a oportunidade para o fazer em Figueira de Castelo Rodrigo
no primeiro dia das comemorações. Integraram a mesa o Presidente da Câmara
Municipal, Dr. Paulo Langrouva, ladeado pelos Presidente da CTMAD Dr. Hirondino
Isaías, Professor Doutor Armando Palavras, o autor deste livro Jorge Lage, e o
apresentador, aqui prefaciador. Também presente o vereador da cultura, Prof.
Henrique Silva.
Juntaram-se, assim, várias vontades,
aproveitando um facto histórico de grande relevância para a Independência de
Portugal.
O Doutor Jorge Lage participou em vários
actos a começar pelo hastear das bandeiras nos Paços do Concelho e na sessão
solene que ocorreu no Salão Nobre, onde fez uma prestimosa intervenção, aliás
muito pertinente e assaz ovacionada, a propósito do tema em discussão «1 ano de
Plataforma de Ciência Aberta: Envolvimento da Comunidade e Impacto na Região».
Integrado na Recriação Histórica em Castelo
Rodrigo, uma das mais belas Aldeias Históricas de Portugal e também uma da Sete
Maravilhas de Portugal como Aldeia Autêntica, passeou-se pela ruas, entre
tendas e bazares, peões e cavaleiros, falando com todos e de todos recebendo a
melhor aceitação, face à sua natural capacidade de comunicador e aos seus dotes
de investigador, de tudo procurando inteirar-se e de tudo falando com profundo
conhecimento. E até encontrou «pessoas que conheciam pessoas suas conhecidas»,
tal como acontecera no dia seguinte quando em Mata de Lobos visitava a zona
onde se fixaram os judeus expulsos pelos Reis Católicos e o termo de Castelo
Rodrigo fora uma das entradas permitidas. Ficou estarrecido perante uma casa em
ruínas, supostamente uma loja judaica, que parece vir a ser vitimada por
urbanização particular sem que as autoridades responsáveis se oponham. Falou
com o proprietário, em férias, que por sua vez trabalha com um transmontano na
Alemanha e, via telemóvel, pô-los em contacto. Afinal, pensei, estou perante um
Homem que é o centro do mundo, pois todo o mundo o conhece e ele conhece todo o
mundo. É de pasmar!
Na Ceia Seiscentista, teve lugar privilegiado
na mesa do Presidente da C. M., a convite deste. Conversou de tudo e com todos,
sempre ansioso por indagar, investigar, pesquisar. A sua conversa tem sempre
finalidades e objectivos muito precisos e interesseiros, no melhor sentido do
termo.
Subiu à serra da Marofa, donde se disfruta
uma magnífica paisagem que vai desde as serras castelhanas aos altos montes
transmontanos e se alonga para os lados da serra da Estrela. A estátua do
Cristo Redentor, as capelas das Senhoras de Fátima e de Lurdes e a via-sacra em
capelinhas com imagens de tamanho natural, dispersas ao longo da encosta da
serra, constituem um valioso património cultural religioso.
Quando no dia seguinte nos dirigíamos a
Escalhão para visitar a majestosa Igreja fortaleza, onde o povo se refugiou
quando das escaramuças no período da Guerra da Independência, levantei um
problema que me vem corroendo há longo tempo. Dizem alguns autores que a ponte
sobre a ribeira de Aguiar, e a calçada que se lhe ajunta, são de origem romana,
que eu contesto afirmando que caracterizam época medieva. Aprontou-se logo para
a solução.
Fiquei espantado quando, estacionada a
viatura, abre o porta bagagens, calça umas botas e eis-nos a caminho, em corta
mato, saltando paredes e muros, vencendo silvas, ervas altas e matos, póios e
penedos. Seguia na frente abrindo uma vereda e, atente-se, porque necessário,
retirou uma navalha do bolso e com ela cortava tudo quanto empecilhasse. Homem
pronto, disponível e apto para qualquer eventualidade ou obstáculo. A ponte e a
calçada não são romanas e evidenciam medievalismo. Decisão tomada, embora a merecer
melhor estudo.
O tempo é breve e o espaço curto, para o
quanto havia a dizer do historiador, do jornalista, do etnógrafo, do escritor,
do cientista. Mas falemos um pouco sobre a sua última obra «Romanceiro da
Castanha».
Vários são os romanceiros na cultura
portuguesa e apenas valeria falar em Almeida Garrett. Mas este tem a
particularidade de ser único, que ninguém ousou ainda tratar, apesar do
valimento, que desde os primórdios, quer o fruto, quer a árvore, nos oferecem.
Passará a integrar o Património Cultural
Imaterial segundo os cânones da Convenção da UNESCO de 2003, subscrita por
Portugal em 2008. Parabéns de todos. E deste Amigo também.
António Vermelho do Corral
Antropólogo
In: Romanceiro da Castanha, Braga,
2018.
Autor: Jorge Lage
Prefaciador: António Vermelho do Corral





Excelente e justa reportagem dfando apropriado relelevo ao Romanceiro da Castanha e outras sobre um tema tratado, de forma ímpar, por Jorge Lage.
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