Joaquim Angélico de
Jesus Guerra [1908-1993], sacerdote jesuíta, natural de Lavacolhos, no Fundão,
é sem dúvida alguma o nome maior da sinologia erudita portuguesa contemporânea.
A sua trajectória na China [estuda em Xangai entre 1935-1937, faz trabalho apostólico
em Pequim, Tianjin, Henan e Zhaoqing] e no Território, mas sobretudo o seu
portentoso labor intelectual deveriam ter suscitado o reconhecimento dos seus
contemporâneos. Mas, a Pátria erudita e letrada parece ser muito pequena para
essas magnificências. Talvez um ponto luminoso na sua biografia tenha inibido a
Universidade Católica ou o Instituto Camões de avançarem com a criação de uma
cátedra de estudos chineses com o seu nome, em Macau, na China ou em Portugal.
Pouco tempo após a implantação do novo regime na China, o padre Joaquim Guerra
é preso em Shiu-Hing [Zhaoqing] na véspera de Natal de 1950, tendo sido julgado
e condenado à morte, por um tribunal revolucionário, que depois lhe comutará a
pena e o expulsará para Hong Kong, em 16 de Junho de 1951. Essa via sacra está
narrada no seu livro, Condenado à Morte, publicado no Porto, em 1963.
Recordo, para os mais
distraídos, que lhe ficamos a dever a versão em língua portuguesa, do corpus
nuclear dos clássicos que estruturam a cultura chinesa. A título de exemplo,
cito as seguintes obras: Livro dos Cantares, 1979; Escrituras Selectas, 1980;
Quadras de Lu e Relação Auxiliar, 5 volumes, 1981-1983; O Livro das Mutações,
1984; As Obras de Mâncio, 1984; Quadrivolume de Confúcio, 1984; O Cerimonial, 3
volumes, 1987-1988; Prática da Perfeição, 1987. Teremos ainda de acrescentar
estes importantes títulos: Cantonense Alfabético, 1943; O Chinês Alfabético,
1960; O Chinês Alfabético em Plano Nacional, 1970; Structural Semantics, 1980;
Dicionário Chinês-Português de Análise Semântica Universal, 1981. Mas há muitos
outros trabalhos cuja referenciação não cabem neste espaço. Um trabalho
monumental, sem qualquer espécie de dúvida.
A vida e a obra de
Joaquim Guerra, um mestre sem discípulos, tem despertado alguns estudos, dos
quais menciono os seguintes: Jorge Bruxo dedicou-lhe a sua dissertação de
mestrado, Padre Joaquim Guerra, uma biografia intelectual, 2004 e uma antologia
intitulada, Auto-Retrato do Padre Joaquim Guerra, SJ, 2008; Henrique Rios SJ,
Padre Joaquim Angélico Guerra SJ: um globetrotter ao serviço de Deus e da
China, 2008; António José Menezes Jr., Joaquim Guerra S.J. (1908-1993):
releitura universalizante dos clássicos chineses, 2015.
Aproveitando o ensejo
de a Universidade de Macau dedicar um colóquio à obra de Joaquim Guerra, venho
lembrar a Prática da Perfeição [Daow-Tc-Keq] de Laoutsi, que usualmente aparece
sob o nome de Tao Te King ou Tao Te Ching, da autoria de Lao Tse ou Lao Zi. A
obra é densa, 411 páginas, foi editada pelos Jesuítas Portugueses, em Macau, no
ano de 1987, com o alto patrocínio do “Exmo. Comendador Alberto Dias Ferreira”.
É um dos máximos expoentes da espiritualidade oriental e chinesa, obra
inspiradora de uma superior metafísica da perplexidade e cujo hermetismo tem
fascinado sucessivas gerações de leitores e de pensadores de todas as
geografias culturais.
A pergunta enunciada
por António Graça de Abreu [sinólogo e autor de uma magnífica versão em língua
portuguesa, Tao Te Ching, de Lao Zi, 2ª edição, 2014] é sumamente pertinente: “E
como entender a China sem conhecer o Taoísmo, um dos pilares do pensamento
chinês?”. O padre Joaquim Guerra omite misteriosamente a contribuição pioneira
de Manuel da Silva Mendes, [Lao Tze e a sua doutrina segundo o Tao Te King, um
ensaio que teve origem numa conferência realizada no Grémio Militar de Macau,
em 3 de Janeiro de 1909; e os Excerptos de Filosofia Taoista, de 1930]. Também
não há menção alguma a Luís Gonzaga Gomes, que publicou o Livro da Via e da
Virtude, de Láucio, em separata da revista ‘Mosaico’, em 1952. Estas omissões
geraram alguma incomodidade porque deixaram aflorar, com alguma injustiça, uma
intolerância para com duas personalidades que se afastaram da igreja católica.
Escreveu Joaquim
Guerra: “um bom tradutor de novelas, não está por isso habilitado para traduzir
uma obra de Filosofia ou Teologia. Ora, o livro de Láucio é uma obra altamente
especializada, direi, como as de São João da Cruz. Quem não vive um pouco dessa
espiritualidade, de sabor evangélico, pensará ver no livro o que lá não está. A
generalidade dos tradutores tomaram a Láucio como um Filósofo, pela craveira
moderna. Ora, Lautsi não compôs um tratado (nem mal alinhavado, como alguns se
queixam) de Filosofia. O que ele fez foi, tal como Confúcio e como Cristo,
ensinar discípulos para a vida, dando ela próprio exemplo do que dizia”. Esta
subtil acentuação da conotação religiosa, jogando com a ambiguidade semântica,
foi entendida como uma traição ao sincretismo original da obra porque terá
acomodado uma cristianização em algumas das suas parcelas, induzindo um caminho
de sentido único. Joaquim Guerra defende-se, dizendo que o “tradutor é que se
deve adaptar ao texto, não adaptar o texto à sua maneira de ver”. Lauotsi, na
versão de Joaquim Guerra, oferece-nos este naco de sabedoria verdadeiramente
intemporal: “Por meio de boas obras, conseguir o dom do além, não deixando que
fiquem restos de culpas da vida presente, é revestir-se de eternidade”.
Mas, a Prática da
Perfeição, do padre Joaquim Guerra merece uma nova edição, simples, enxuta, sem
o aparato erudito bilingue, apenas com a versão na língua portuguesa. Para
potencialmente ser mais lida, estimada e para ter entrada directa no cânone do
Plano Nacional de Leitura.
*Ex-docente em Macau e o mais
prolífico investigador português vivo, da história de Macau. Colaborador
regular do JTM, desde há décadas.
FONTE: https://jtm.com.mo/opiniao/joaquim-guerra-nome-maior-da-sinologia-erudita-contemporanea/


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