sexta-feira, 6 de maio de 2022

JOAQUIM GUERRA: O NOME MAIOR DA SINOLOGIA ERUDITA CONTEMPORÂNEA

 ANTÓNIO ARESTA* 6 MAY, 2022


Joaquim Angélico de Jesus Guerra [1908-1993], sacerdote jesuíta, natural de Lavacolhos, no Fundão, é sem dúvida alguma o nome maior da sinologia erudita portuguesa contemporânea. A sua trajectória na China [estuda em Xangai entre 1935-1937, faz trabalho apostólico em Pequim, Tianjin, Henan e Zhaoqing] e no Território, mas sobretudo o seu portentoso labor intelectual deveriam ter suscitado o reconhecimento dos seus contemporâneos. Mas, a Pátria erudita e letrada parece ser muito pequena para essas magnificências. Talvez um ponto luminoso na sua biografia tenha inibido a Universidade Católica ou o Instituto Camões de avançarem com a criação de uma cátedra de estudos chineses com o seu nome, em Macau, na China ou em Portugal. Pouco tempo após a implantação do novo regime na China, o padre Joaquim Guerra é preso em Shiu-Hing [Zhaoqing] na véspera de Natal de 1950, tendo sido julgado e condenado à morte, por um tribunal revolucionário, que depois lhe comutará a pena e o expulsará para Hong Kong, em 16 de Junho de 1951. Essa via sacra está narrada no seu livro, Condenado à Morte, publicado no Porto, em 1963.

Recordo, para os mais distraídos, que lhe ficamos a dever a versão em língua portuguesa, do corpus nuclear dos clássicos que estruturam a cultura chinesa. A título de exemplo, cito as seguintes obras: Livro dos Cantares, 1979; Escrituras Selectas, 1980; Quadras de Lu e Relação Auxiliar, 5 volumes, 1981-1983; O Livro das Mutações, 1984; As Obras de Mâncio, 1984; Quadrivolume de Confúcio, 1984; O Cerimonial, 3 volumes, 1987-1988; Prática da Perfeição, 1987. Teremos ainda de acrescentar estes importantes títulos: Cantonense Alfabético, 1943; O Chinês Alfabético, 1960; O Chinês Alfabético em Plano Nacional, 1970; Structural Semantics, 1980; Dicionário Chinês-Português de Análise Semântica Universal, 1981. Mas há muitos outros trabalhos cuja referenciação não cabem neste espaço. Um trabalho monumental, sem qualquer espécie de dúvida.

A vida e a obra de Joaquim Guerra, um mestre sem discípulos, tem despertado alguns estudos, dos quais menciono os seguintes: Jorge Bruxo dedicou-lhe a sua dissertação de mestrado, Padre Joaquim Guerra, uma biografia intelectual, 2004 e uma antologia intitulada, Auto-Retrato do Padre Joaquim Guerra, SJ, 2008; Henrique Rios SJ, Padre Joaquim Angélico Guerra SJ: um globetrotter ao serviço de Deus e da China, 2008; António José Menezes Jr., Joaquim Guerra S.J. (1908-1993): releitura universalizante dos clássicos chineses, 2015.

Aproveitando o ensejo de a Universidade de Macau dedicar um colóquio à obra de Joaquim Guerra, venho lembrar a Prática da Perfeição [Daow-Tc-Keq] de Laoutsi, que usualmente aparece sob o nome de Tao Te King ou Tao Te Ching, da autoria de Lao Tse ou Lao Zi. A obra é densa, 411 páginas, foi editada pelos Jesuítas Portugueses, em Macau, no ano de 1987, com o alto patrocínio do “Exmo. Comendador Alberto Dias Ferreira”. É um dos máximos expoentes da espiritualidade oriental e chinesa, obra inspiradora de uma superior metafísica da perplexidade e cujo hermetismo tem fascinado sucessivas gerações de leitores e de pensadores de todas as geografias culturais.

A pergunta enunciada por António Graça de Abreu [sinólogo e autor de uma magnífica versão em língua portuguesa, Tao Te Ching, de Lao Zi, 2ª edição, 2014] é sumamente pertinente: “E como entender a China sem conhecer o Taoísmo, um dos pilares do pensamento chinês?”. O padre Joaquim Guerra omite misteriosamente a contribuição pioneira de Manuel da Silva Mendes, [Lao Tze e a sua doutrina segundo o Tao Te King, um ensaio que teve origem numa conferência realizada no Grémio Militar de Macau, em 3 de Janeiro de 1909; e os Excerptos de Filosofia Taoista, de 1930]. Também não há menção alguma a Luís Gonzaga Gomes, que publicou o Livro da Via e da Virtude, de Láucio, em separata da revista ‘Mosaico’, em 1952. Estas omissões geraram alguma incomodidade porque deixaram aflorar, com alguma injustiça, uma intolerância para com duas personalidades que se afastaram da igreja católica.

Escreveu Joaquim Guerra: “um bom tradutor de novelas, não está por isso habilitado para traduzir uma obra de Filosofia ou Teologia. Ora, o livro de Láucio é uma obra altamente especializada, direi, como as de São João da Cruz. Quem não vive um pouco dessa espiritualidade, de sabor evangélico, pensará ver no livro o que lá não está. A generalidade dos tradutores tomaram a Láucio como um Filósofo, pela craveira moderna. Ora, Lautsi não compôs um tratado (nem mal alinhavado, como alguns se queixam) de Filosofia. O que ele fez foi, tal como Confúcio e como Cristo, ensinar discípulos para a vida, dando ela próprio exemplo do que dizia”. Esta subtil acentuação da conotação religiosa, jogando com a ambiguidade semântica, foi entendida como uma traição ao sincretismo original da obra porque terá acomodado uma cristianização em algumas das suas parcelas, induzindo um caminho de sentido único. Joaquim Guerra defende-se, dizendo que o “tradutor é que se deve adaptar ao texto, não adaptar o texto à sua maneira de ver”. Lauotsi, na versão de Joaquim Guerra, oferece-nos este naco de sabedoria verdadeiramente intemporal: “Por meio de boas obras, conseguir o dom do além, não deixando que fiquem restos de culpas da vida presente, é revestir-se de eternidade”.

Mas, a Prática da Perfeição, do padre Joaquim Guerra merece uma nova edição, simples, enxuta, sem o aparato erudito bilingue, apenas com a versão na língua portuguesa. Para potencialmente ser mais lida, estimada e para ter entrada directa no cânone do Plano Nacional de Leitura.

 

*Ex-docente em Macau e o mais prolífico investigador português vivo, da história de Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas.

 

FONTE: https://jtm.com.mo/opiniao/joaquim-guerra-nome-maior-da-sinologia-erudita-contemporanea/


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