sexta-feira, 11 de março de 2022

Do ressentimento

Chegou-nos artigo de David Martelo, do qual retiramos a passagem infra. Apenas porque nos foi enviado em PDF. E isso para a tecnologia dos blogues é problemática. Só em Word ou JPEG.


DAVID  MARTELO

 

 

(...) Apesar da improbabilidade de uma integração próxima, da parte dos países de Leste não tardaram os pedidos oficiais de adesão à UE – Hungria e Polónia, em 1994, Roménia, Eslováquia, Estónia,

Lituânia e Bulgária, em 1995, e Eslovénia e República Checa, em 1996. Tratava-se, seguramente, de uma opção quanto ao futuro destes países – a consolidação de regimes democráticos de tipo ocidental – e da rejeição inequívoca do seu passado como repúblicas socialistas da órbita da URSS. Mas seria, também, uma demonstração de ressentimento pela sujeição experimentada entre 1945 e 1990.

Entretanto, em 27 de Maio de 1997, é assinado em Paris, entre a OTAN e a Federação Russa, o Acto Fundacional de Cooperação Mútua, no qual, entre diversas considerações, se realçava:

 

Que a Rússia prosseguia a construção de uma sociedade democrática e a realização dasua transformação política e económica.

Que a Rússia estava a contribuir para as forças multinacionais na Bósnia-Herzegovina.

Que, para assegurar as actividades e objectivos deste Acto e desenvolver abordagens comuns à segurança europeia, a OTAN e a Rússia criariam o Conselho Conjunto Permanente OTAN-Rússia

Que as provisões deste Acto não confeririam à OTAN ou à Rússia, de qualquer forma, o direito de veto às acções da outra parte nem afectariam ou restringiriam os direitos da OTAN e da Rússia a decisões ou acções independentes.

Que a Rússia estabeleceria uma Missão na OTAN, encabeçada por um representante com a categoria de Embaixador. Fariam parte desta Missão um alto representante militar e respectivo estado-maior, para fins de cooperação militar.

Que os Estados membros da OTAN reiteravam que não tinham a intenção, nem planos, nem motivos para a instalação de armas nucleares no território dos membros, nem novos nenhuma necessidade de mudança na atitude nuclear da OTAN ou da sua política nuclear - e não previam qualquer futura necessidade de o fazerem.

Quando, recentemente, eclodiu a crise que conduziu à invasão da Ucrânia pelo exército da Rússia, foi largamente argumentado que essa atitude teria sido provocada, em grande parte, pela extensão da OTAN aos países que haviam feito parte da ‘esfera de influência’ soviética, entre 1945 e 1991. Poucas opiniões têm recordado o que fora estabelecido, por mútuo acordo, no documento atrás citado, muito especialmente a importância decisiva da democratização da Rússia, que, ao invés, se foi transformando numa ditadura de feição fascista. Ainda assim, não me foi dado ler nenhuma opinião que afirmasse, sem rodeios, que a Europa teria vivido feliz e em paz se a única extensão da OTAN tivesse sido a resultante da unificação da RFA, a que correspondeu a integração na organização do território da antiga RDA (...).

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