ANTÓNIO MAGALHÃES
Luxemburgo |
Não sou eu que figuro
nessa fotografia, no entanto, para que aqueles três meus amigos ali figurem, eu
fui o tipo que segurou na máquina fotográfica e carregou no botão que registou
aquele momento.
E é precisamente desse
momento e não da fotografia que me apetece falar, até porque, o rapaz que
figura no meio já nem se encontra neste mundo e os outros dois, um de cada lado
do que já partiu, já nem sei se são meus amigos, muito embora eu os continue a
considerar como tal. Mas eram, eramos todos nessa altura em que registamos o
momento para uma posteridade que não sabíamos, nenhum de nós, como seria.
Ao ver essa fotografia,
apesar do natural sentimento de saudade e nostalgia a ela pegada, muito embora
o local da foto fosse algures no Alentejo, todos os que ali estávamos somos
naturais de Felgueiras, e por isso, aliada à saudade e nostalgia da recordação
que a fotografia me trouxe, uma das primeiras coisas que me ocorreu ao
pensamento foi precisamente a minha terra natal, Felgueiras.
Porque no fundo, eu que
há mais de vinte anos deixei a terra, Felgueiras para mim é muito mais do que a
quantidade de rotundas e novos prédios que surgiram desde esse tempo longínquo
em que eu disfrutei alguns dos meus melhores e piores momentos, com amigos que
só por eles a terra continua a ter aquele significado forte e apelativo, aquele
orgulho e amor que quase me da o direito de lhe apontar os defeitos sabendo que
as qualidades desculpam e justificam esses pontos mais fracos, menos briosos.
Felgueiras é o meu amigo
que saiu abruptamente deste mundo num acidente inesperado, fatal. O meu amigo a
quem, pela dor que a sua ausência provocou em mim, me inspirou a dedicar-lhe um
poema, “Quando eu partir”, poema esse que me fez entender a mim mesmo que o
mundo pouco se rala com a nossa partida. “As flores florirão da mesma maneira,
e as árvores não serão menos verdes do que na primavera passada” (Fernando
Pessoa) Por isso, se o mundo não quer saber de quem parte, mesmo que
prematuramente, e prematuramente partimos todos, nós os que vamos ficando até
que de A se chegue ao B, ralamo-nos à brava com os que deixam uma sombra no
álbum de fotografias como se se esvanecesse a sua imagem e ela se transportasse
apenas para a nossa memória.
Felgueiras para mim é
essa memória do meu amigo que partiu, dos que ficaram e de quem eu já nem sei
se são meus amigos. Mas eram nessa altura em que com eles convivi e é de Felgueiras
que a minha memória guarda os momentos mais marcantes da minha vida.
Coisas que, sinceramente,
na altura em que aconteceram, desse eu conta que eram elas as mais importantes,
mesmo que parecendo tão simples, quase insignificantes. Como aquela noite em
que, debaixo da Câmara, quando nessa altura se passava de uma rua para a outra tendo
por cima a entrada principal do edifício, o Mário Adão pousou o cotovelo no meu
ombro e olhando o horizonte disse quase desolado, “Olha-me para esta
pasmaceira…” e o Diogo, como que a meter algumas achas na fogueira a concluir,
“Nesta terra não se passa nada”. Mas depois, se algum de nós se ausentasse da
terra por mais de uma semana, a segunda já era a fazer contas aos dias que
faltavam para voltar.
Quando lembro Felgueiras
lembro a pastelaria Lili, que quanto sei já não existe, mas existiu, numa fase
da minha vida que seria, por imensos motivos e razões, completamente impossível
de esquecer. Lembro o Paddock, e muito antes desses tempos mágicos lembro
aquela manhã numa sala de trabalhos manuais, no ciclo preparatório Manuel Faria
e Sousa, o Raúl Reis naquele seu jeito bem-disposto a contar, “…E o meu pai
disse-lhe, êh pá, desejo-te tantos anos de vida como quantos palmos tem a ponte
25 de Abril… “e como se eu não tivesse percebido o porquê daquele sorriso
rasgado de orelha a orelha, ele acrescentou, “Não percebes…? Já imaginaste
quantos palmos tem a ponte 25 de Abril? O homem nunca mais morre.”. E claro, eu
la acabei por rir também, porque a gargalhada é coisa que contagia.
Felgueiras vai ainda mais
longe, tão longe quanto a feira de Maio que se realizava num largo, paredes
meias com o Campo da Feira e coreto da música que ficava mesmo do outro lado da
rua. Nesse largo, onde hoje se encontra um grande edifício que alberga entre
outros, um banco que já foi BES e agora é novo, se realizava a grande feira a
que o meu pai me levava para eu andar uma voltinha no carrossel e nos
carrinhos, não os de choque, mas sim os que eram apropriados para crianças de
tenra idade como eu era.
Felgueiras é a minha
terra, a minha terra são as minhas recordações, as minhas recordações são
aquilo que eu sou. Por isso, Felgueiras tem um sabor amargo doce que levo
comigo para onde quer que vá.
Percorri toda a linha
Desde A até ao B
Sem prever a distância que ela tinha
Porque é assim a vida, e a distância não se
prevê
Entre o A e o B está a minha vida,
Alegrias, tristezas, esperanças, deceções,
É uma jornada toda ela percorrida
Entre realidades e umas quantas ilusões.
António Magalhães
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