sábado, 5 de fevereiro de 2022

Felgueiras Sweet and Sour


ANTÓNIO  MAGALHÃES

Luxemburgo


Sheffield


Vi, por um mero acaso, uma fotografia que tem tantos anos que até já nem sequer tenho a certeza de quantos são.

Não sou eu que figuro nessa fotografia, no entanto, para que aqueles três meus amigos ali figurem, eu fui o tipo que segurou na máquina fotográfica e carregou no botão que registou aquele momento.

E é precisamente desse momento e não da fotografia que me apetece falar, até porque, o rapaz que figura no meio já nem se encontra neste mundo e os outros dois, um de cada lado do que já partiu, já nem sei se são meus amigos, muito embora eu os continue a considerar como tal. Mas eram, eramos todos nessa altura em que registamos o momento para uma posteridade que não sabíamos, nenhum de nós, como seria.

Ao ver essa fotografia, apesar do natural sentimento de saudade e nostalgia a ela pegada, muito embora o local da foto fosse algures no Alentejo, todos os que ali estávamos somos naturais de Felgueiras, e por isso, aliada à saudade e nostalgia da recordação que a fotografia me trouxe, uma das primeiras coisas que me ocorreu ao pensamento foi precisamente a minha terra natal, Felgueiras.

Porque no fundo, eu que há mais de vinte anos deixei a terra, Felgueiras para mim é muito mais do que a quantidade de rotundas e novos prédios que surgiram desde esse tempo longínquo em que eu disfrutei alguns dos meus melhores e piores momentos, com amigos que só por eles a terra continua a ter aquele significado forte e apelativo, aquele orgulho e amor que quase me da o direito de lhe apontar os defeitos sabendo que as qualidades desculpam e justificam esses pontos mais fracos, menos briosos.

Felgueiras é o meu amigo que saiu abruptamente deste mundo num acidente inesperado, fatal. O meu amigo a quem, pela dor que a sua ausência provocou em mim, me inspirou a dedicar-lhe um poema, “Quando eu partir”, poema esse que me fez entender a mim mesmo que o mundo pouco se rala com a nossa partida. “As flores florirão da mesma maneira, e as árvores não serão menos verdes do que na primavera passada” (Fernando Pessoa) Por isso, se o mundo não quer saber de quem parte, mesmo que prematuramente, e prematuramente partimos todos, nós os que vamos ficando até que de A se chegue ao B, ralamo-nos à brava com os que deixam uma sombra no álbum de fotografias como se se esvanecesse a sua imagem e ela se transportasse apenas para a nossa memória.

Felgueiras para mim é essa memória do meu amigo que partiu, dos que ficaram e de quem eu já nem sei se são meus amigos. Mas eram nessa altura em que com eles convivi e é de Felgueiras que a minha memória guarda os momentos mais marcantes da minha vida.

Coisas que, sinceramente, na altura em que aconteceram, desse eu conta que eram elas as mais importantes, mesmo que parecendo tão simples, quase insignificantes. Como aquela noite em que, debaixo da Câmara, quando nessa altura se passava de uma rua para a outra tendo por cima a entrada principal do edifício, o Mário Adão pousou o cotovelo no meu ombro e olhando o horizonte disse quase desolado, “Olha-me para esta pasmaceira…” e o Diogo, como que a meter algumas achas na fogueira a concluir, “Nesta terra não se passa nada”. Mas depois, se algum de nós se ausentasse da terra por mais de uma semana, a segunda já era a fazer contas aos dias que faltavam para voltar.

Quando lembro Felgueiras lembro a pastelaria Lili, que quanto sei já não existe, mas existiu, numa fase da minha vida que seria, por imensos motivos e razões, completamente impossível de esquecer. Lembro o Paddock, e muito antes desses tempos mágicos lembro aquela manhã numa sala de trabalhos manuais, no ciclo preparatório Manuel Faria e Sousa, o Raúl Reis naquele seu jeito bem-disposto a contar, “…E o meu pai disse-lhe, êh pá, desejo-te tantos anos de vida como quantos palmos tem a ponte 25 de Abril… “e como se eu não tivesse percebido o porquê daquele sorriso rasgado de orelha a orelha, ele acrescentou, “Não percebes…? Já imaginaste quantos palmos tem a ponte 25 de Abril? O homem nunca mais morre.”. E claro, eu la acabei por rir também, porque a gargalhada é coisa que contagia.

Felgueiras vai ainda mais longe, tão longe quanto a feira de Maio que se realizava num largo, paredes meias com o Campo da Feira e coreto da música que ficava mesmo do outro lado da rua. Nesse largo, onde hoje se encontra um grande edifício que alberga entre outros, um banco que já foi BES e agora é novo, se realizava a grande feira a que o meu pai me levava para eu andar uma voltinha no carrossel e nos carrinhos, não os de choque, mas sim os que eram apropriados para crianças de tenra idade como eu era.

Felgueiras é a minha terra, a minha terra são as minhas recordações, as minhas recordações são aquilo que eu sou. Por isso, Felgueiras tem um sabor amargo doce que levo comigo para onde quer que vá.

Percorri toda a linha

Desde A até ao B

Sem prever a distância que ela tinha

Porque é assim a vida, e a distância não se prevê

 

Entre o A e o B está a minha vida,

Alegrias, tristezas, esperanças, deceções,

É uma jornada toda ela percorrida

Entre realidades e umas quantas ilusões.

 

António Magalhães

 

 

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