terça-feira, 2 de novembro de 2021

Os teus moinhos, rio Sabor.

 

Vale do Sabor

 Os teus moinhos, rio Sabor.

 

 

 

Os teus moinhos, rio Sabor,                                                 

Eram uma imagem de adoração.

Na arte e na textura da cor,

Da sua simples construção.

 

 

Rústicas paredes grosseiras,

Construídas com pedras graníticas.

Arrancadas do teu leito maciço,

E das tuas margens primeiras.

Seguras com barro cor de fogo,

Que mãos calejadas,

De diligentes pedreiros,

Sobrepuseram, em camadas,

Até à altura aproximada,

De dois homens em pé,

Em cima um do outro.

 

 

Onde começava a cobertura,

Feita de telha romana,

Que a arte muçulmana lá deixou. 

Na época em que povoou,

Essa hospitaleira região transmontana.

 

 

E dentro delas,

Circulares pedras cantantes,

Em movimentos ritmados e constantes,

Que a força motriz da água lhe imprimia,

Sobre a vigilância atenta do moleiro,

Para transformarem em farinha o grão,

Que dava o abençoado pão.

 

 

Para depois,

O manso e pacato burro mirandês,

Transportar até à casa dos habitantes,

Teus vizinhos,

Por íngremes e tortuosos caminhos,

Que a chuva e o vento aplanaram,

Em direcção ao vale cavado,

Onde tu dormias, melancólico,

A sonhar com o mar salgado.

 

 

Mas hoje, generoso rio Sabor,

Perante a incúria e o desamor

Dos homens, todos desapareceram.

Nem moinhos, nem moleiros,

Nem burros, esse trio,

Te fazem companhia!

 

 

Os moinhos já não têm chão,

Nem telhado,

Nem mós.

Nem tremóia,

Nem portas, nem aldrabas.

Nem pesqueiras redes,

Nas paredes penduradas.

 

 

Os moleiros,

Teus fieis companheiros,

Ao sentirem-se sós e desamparados,

Carpiram tristezas e mágoas,

Nas margens das tuas águas,

E finaram-se junto das tuas margens.

 

 

Os burros, por sua vez,

Foram os primeiros,

A seguir a sina dos moleiros.

Tristes e ao abandono,

Como o seu dono,

Deixaram de lavrar as encostas,

E de polirem os caminhos,

Que levavam a ti.

 

 

E, por fim,

Sem esperança no provir,

Deixaram de zurrar no planalto mirandês.

Ou em lado algum,

Aonde, ainda, os possas ouvir cantar.

 

 

 

   Poema para o próximo livro de Poesia, a publicar- 17-06-2021.

João de Deus Rodrigues 

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